CRISES
Joema Carvalho
(Texto baseado em fatos reais)
A segunda começava com a hidroginástica. Depois do café, envolvia-se com as demandas da casa. Vida de uma mulher Cristina aposentada: levar a mãe ao médico, o lixo para fora, trabalhos manuais, jornal televisivo, assistir série e ler os seus livros que nunca saiam da cabeceira. O refil do filtro de água precisava ser trocado. Ligou na empresa especializada e contratou o serviço.
Como sempre, a Cristina iniciou a semana indo para o trabalho. Farmacêutica, trabalhava em um hospital fazendo o controle dos medicamentos. Em um momento de folga, ligou para uma empresa especializada em troca de refil de filtro de água. Precisava ser trocado. Estava em um contexto de trabalho tumultuado. Passou o número de telefone para a empresa, como contato.
O técnico foi na casa da Cristina e trocou o refil do filtro, no horário agendado.
No mesmo dia, o refil foi trocado na casa da Cristina. A mãe dela estava na casa e acompanhou o técnico durante o serviço.
Quando ela voltou do trabalho, percebeu que o técnico havia esquecido a máquina de cartão na casa dela. Comunicou a empresa para a irem buscar. O objeto estaria na portaria.
A empresa ligou na casa da Cristina para confirmar que iria buscar a máquina de cartão. A Cristina disse que o que tinham esquecido era uma chave de fenda.
A empresa perguntou se ela poderia deixar a chave de fenda na portaria. Ela respondeu que não tinha portaria no prédio dela.
A empresa ligou novamente para a Cristina que confirmou não saber nada de máquina de cartão. A empresa insistiu. Máquina de cartão era importante.
A Cristina não estava entendendo o porquê da insistência da empresa. Começou a se irritar. Disse que era para a empresa voltar na casa dela e verificar que não tinha portaria e nem máquina de cartão. Ela nunca havia ligado para eles. Reforçou que não tinha interesse na chave de fenda. O serviço contratado já havia sido executado e pago. A empresa queria a máquina de cartão. A chave de fenda já era brinde. O interfone tocou. A Cristina estava dividida. Queria desligar o telefone. A empresa insistia. Outra pessoa atendeu a porta.
A Cristina ligou para a empresa. Queria saber o porquê de não terem ido buscar a máquina de cartão. O porteiro do prédio não podia ficar por muito tempo com entregas dos condôminos. Ele já havia perguntado três vezes quando iriam buscar a máquina de cartão. De acordo com as regras do condomínio, tinha prazo. A empresa respondeu que haviam ligado, mas que tinha uma chave de fenda. Disse que não havia portaria.
A Cristina se irritou e disse para a empresa voltar ao apartamento dela para conferir que havia portaria, onde a máquina de cartão estava. A sua supervisora entra na sala que ela estava. Diz que a reunião iria começar dali a três minutos. No impulso da raiva, ela perguntou para onde eles estavam ligando. Sua vontade era desligar o telefone na cara de quem estava conversando com ela. Seu foco era a reunião. A raiva a consumia. A empresa disse que era para a casa dela, para o número que ela havia informado.
Pediu que ele dissesse o número. A supervisora bateu na porta. A reunião havia começado. Ela pouco entendeu os primeiros números. Os últimos eram do telefone dela. Pediu para repetir. Tinha que ir à reunião. Estava com dor de cabeça. Não entendia mais nada. O número do telefone era da cunhada dela. Eram parecidos. Nomes iguais.
Ninguém buscou a chave de fenda.
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Joema Carvalho, Curitiba – PR, engenheira florestal, doutora, perita. Autora do livro Luas & Hormônios, selecionado e editado pela Secretaria do Estado da Cultura (2010). Participação em várias coletâneas nacionais e internacionais e em projetos literários.
Contato:
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Livro da autora: https://www.amazon.com.br/Luas-Horm%C3%B4nios-Joema-Carvalho-ebook/dp/B08P1Z987P
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