Domingo, 19 de Setembro de 2021 02:39
[email protected]
Brasil Convidados

"Corpos Antropomórficos", mais um capítulo escrito pelo articulista e poeta João Batista do Lago

Reflexões

11/09/2021 00h04 Atualizada há 4 dias
649
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista do Lago
foto-montagem antropomórfica
foto-montagem antropomórfica

O que pode um corpo? (IV)

De João Batisa do Lago

IV.II – Corpos Antropomórficos

Acima critiquei que o corpo feminino foi o mais avassaladoramente, mais cruelmente, mais violentamente afetado – em todo o mundo – pelos mais diversificados regimes capitalistas e, consequentemente, pelos capitalistas, assim como pelos seus governos e governantes. Devo destacar aqui e agora que não é minha intenção historicizar esses acontecimentos. Para este artigo interessa-me observar o antropomorfismo imanente nos corpos-outros, mais precisamente nos corpos masculinos que podem ser definidos como patriarcais com as suas multiplicidades e singularidades similares. Vale entender que o que chamo de corpos masculinos é toda e qualquer “Coisa” que traduza ou retraduza o poder opressor. Portanto, não necessariamente o “Homem” fisicamente constituído. Por outro lado, este artigo me servirá também para questionar uma certa tipologia ontológica do ser antropomórfico e do ser em devir.

O anthropomorphisme de corpos masculinos, ou seja, a Coisa que se baseia em formas, pensamentos e conceitos, ou ainda, em modos e atributos divinos transcendentes – de qualquer natureza, gênero ou espécie – é, aos meus olhos empíricos, a causa sui da opressão, da escravidão, do racismo, do preconceito, do sexismo, do machismo etc. Quando transferimos para um Deus qualquer, ou deuses-outros, ou mitos, ou seres sobrenaturais, nossas maneiras de agir, nossos sentimentos e pensamentos, nossas visões de mundos, nossas criações (artísticas ou não), abdicamos (necessariamente) de nossa evolução cognitiva conscientemente, e racional. Não. Não estou afirmando que você deva ser um ateu (do ponto de vista teológico), porém assevero que você não pode e não deve – ou não deveria – transferir para o além de si suas responsabilidades ou suas existências. Elas são suas e somente suas. Portanto, cabe a cada um, de per se, responsabilizar-se pelos seus afectos, pelas suas escolhas, pelos seus encontros.

Despregar-se ou desgrudar-se de si é o “pecado original” da deontologia de cada qual. O que pretendo dizer é que quando transfiro a minha natureza de ser, as minhas criações, as minhas visões de mundo, as minhas escolhas, que são inerentes à minha existência, isto é, à minha singularidade dentro do espectro da minha complexidade, para qualquer coisa transcendente ou transcendental (parafraseando Nietzsche e Foucault, Deleuze & Guattari), necessariamente estou transformando-me ou transmutando-me em uma força dominada em favor de uma força metafísica dominante. Penso, pois, que é exatamente aqui que se estabelece um tipo de genealogia do domínio – ou dominação – como força em relação a outras forças. Explico: quando consciente ou inconscientemente me alieno ou me deixo alienar (marxismo), isto é, quando concedo que outro corpus, sob qualquer pretexto me domine, quando permito que a minha capacidade de agir e pensar por mim mesmo seja capturada por outra força, ocorre um processo (entenda bem: processo) de desterritorialização continuada fazendo com que me torne um ser desconexo dos meus sentimentos e minha percepção da realidade. Noutras palavras: perco a capacidade crítica. E ao desterritorializar o criticism (Adorno) torno-me, consequentemente, um corpo fetichista e fetichizado (marxismo), à cata de um “bezerro de ouro” (1CIRÍNTIOS 10). Esse processo de anthropomorfism, por outro lado, afeta corpos a partir da sua exterioridade, p.ex. as religiões nas suas mais diversas cores, que, como já foi detectado, é o verdadeiro ópio do povo (marxismo/leninismo).

Neste caso, resta provado, também, que o corpo feminino foi “escondido” pelas respectivas ideologias de dominação teológicas. Para falar numa linguagem moderna, a esses corpos não lhes foram dados o direito do lugar de fala. A castração do corpo feminino efetivada pelas religiões é, aos meus olhos, um dos principais modos dados para a efetuação da opressão dos corpos femininos desde sempre. E aqui não se trata pura e tão somente da característica de fragilidade de gênero ou sexo, macho ou fêmea, homem ou mulher. Vai muito mais além. Neste caso era preciso divinizar o homem e demonizar a mulher. E assim foi feito. Veja-se, por exemplo, o caso da Grécia onde os corpos femininos foram defenestrados em favor dos corpos masculinos. E até mesmo do ponto de vista da sexualidade os hellenikós eram classificados como superiores aos corpos femininos, tidos e havidos como imperfeitos.

Tudo isso e muito mais, dito e não dito até aqui, são alguns dos meus “talvezes” na tentativa de compreender e explicar porque, ainda hoje, não somos capazes de entender os corpos femininos e ficamos na esparrela reducionista de dizer expressões tais como “ela está de tpm”… “é puro histerismo”… e por aí vai, como explicações sui generis de uma forma de patriarcalismo imanente dos corpos masculinos. Expressões típicas de um capitalismo que se nos é imanente e que nos levam inexoravelmente a um processo de preconceitos, racismos e opressões. Tudo isso certamente me incomoda, pois não entendo e não aceito as razões que pretendem definir – e definem – os corpos masculinos e femininos a partir de uma determinada potência fisiológica. Definir-se superior apenas pela força física, aos meus olhos, é ser fraco existencialmente diante do corpo-outro. Esse capital – ou mesmo capitalismo – físico é tão opressor quanto o capital financeiro, pois sua moeda de transação gera uma economia disruptiva, um mercado de relações afetivas, desde a sua origem, produzindo mercadorias (sentimentos e visões de mundo) disfuncionais entre esses corpus.

IV.III – Devir-mulher, uma possibilidade

Que os corpos masculinos devam modificar sua visão de mundo em relação ao corpo feminino é uma possibilidade possível e aceita por todos. Ao longo dos estudos e pesquisas pessoais e particulares que empreendo, busco entender e compreender – a mim e ao mundo – como esses corpos poderiam manter relações de forças em/com equidade? Não é fácil manifestar uma dóksa generalista que abarque todo esse complexo. A mim parece que o conceito de devir, proposto por Deleuze & Guattari (Mil Platôs – Vol. 4, trad. Suely Rolnik, Ed. 34) seja (talvez) aquele que mais se aproxima da minha realidade ou da minha visão de mundo. E por que penso assim? Porque segundo os autores franceses – filósofo e psicanalista respectivamente – deve-se compreender o vocábulo para além de uma definição dicionarística, ou seja, 

“Por que há tantos devires do homem, mas não um devir-homem? É primeiro porque o homem é majoritário por excelência, enquanto que os devires são minoritários, todo devir é um devir-minoritário. Por maioria nós não entendemos uma quantidade relativa maior, mas a determinação de um estado ou de um padrão em relação ao qual tanto as quantidades maiores quanto as menores serão ditas minoritárias: homem-branco, adulto-macho, etc. Maioria supõe um estado de dominação, não o inverso. Não se trata de saber se há mais mosquitos ou moscas do que homens, mas como "o homem" constituiu no universo um padrão em relação ao qual os homens formam necessariamente (analiticamente) uma maioria. Da mesma forma que a maioria na cidade supõe um direito de voto, e não se estabelece somente entre aqueles que possuem esse direito, mas se exerce sobre aqueles que não o possuem, seja qual for seu número, a maioria no universo supõe já dados o direito ou o poder do homem. É nesse sentido que as mulheres, as crianças, e também os animais, os vegetais, as moléculas são minoritários. É talvez até a situação particular da mulher em relação ao padrão-homem que faz com que todos os devires, sendo minoritários, passem por um devir-mulher. No entanto, é preciso não confundir "minoritário" enquanto devir ou processo, e "minoria" como conjunto ou estado. Os judeus, os ciganos, etc., podem formar minorias nessas ou naquelas condições; ainda não é o suficiente para fazer delas devires. Reterritorializamo-nos, ou nos deixamos reterritorializar numa minoria como estado; mas desterritorializamo-nos num devir. Até os negros, diziam os Black Panthers, terão que devir-negro. Até as mulheres terão que devir-mulher. Mesmo os judeus terão que devir-judeu (não basta certamente um estado). Mas, se é assim, o devir-judeu afeta necessariamente o não-judeu tanto quanto o judeu. Etc. O devir-mulher afeta necessariamente os homens tanto quanto as mulheres. De uma certa maneira, é sempre "homem" que é o sujeito de um devir; mas ele só é um tal sujeito, ao entrar num devir-minoritário que o arranca de sua identidade maior. Como no romance de Arthur Miller, Focus, ou no filme de Losey, M. Klein, é o não-judeu que se torna judeu, que é tomado, levado por esse devir, quando ele é arrancado de seu metro padrão. Inversamente, se os próprios judeus têm que devir-judeu, as mulheres que devir-mulher, as crianças que devir-criança, os negros que devir-negro, é porque só uma minoria pode servir de termo médium ativo ao devir, mas em condições tais que ela pare por sua vez de ser um conjunto definível em relação à maioria. O devir-judeu, o devir-mulher, etc., implicam, portanto, a simultaneidade de um duplo movimento, um movimento pelo qual um termo (o sujeito) se subtrai à maioria, e outro pelo qual um termo (o termo médium ou o agente) sai da minoria. Há um bloco de devir indissociável e assimétrico, um bloco de aliança: os dois "Monsieur Klein", o judeu e o não judeu, entram num devir-judeu (o mesmo em Focus). Uma mulher tem que devir-mulher, mas num devir-mulher do homem por inteiro. Um judeu torna-se judeu, mas num devir-judeu do não-judeu. Um devir minoritário só existe através de um termo médium e de um sujeito desterritorializados que são como seus elementos. Só há sujeito do devir como variável desterritorializada da maioria, e só há termo médium do devir como variável desterritorializante de uma minoria. O que nos precipita num devir pode ser qualquer coisa, a mais inesperada, a mais insignificante. Você não se desvia da maioria sem um pequeno detalhe que vai se pôr a estufar, e que lhe arrasta. É porque o herói de Focus, americano médio, precisa de óculos que dão a seu nariz um ar vagamente semita, é "por causa dos óculos" que ele será precipitado nessa estranha aventura do devir-judeu de um não-judeu. No caso, qualquer coisa serve, mas o caso revela-se político. Devir-minoritário é um caso político, e apela a todo um trabalho de potência, uma micropolítica ativa. É o contrário da macropolítica, e até da História, onde se trata de saber sobretudo como se vai conquistar ou obter uma maioria. Como dizia Faulkner, não havia outra escolha senão devir-negro, para não acabar fascista. Contrariamente à história, o devir não se pensa em termos de passado e futuro. Um devir-revolucionário permanece indiferente às questões de um futuro e de um passado da revolução; ele passa entre os dois. Todo devir é um bloco de coexistência. As sociedades ditas sem história colocam-se fora da história, não porque se contentariam em reproduzir modelos imutáveis ou porque seriam regidas por uma estrutura fixa, mas sim porque são sociedades de devir (sociedades de guerra, sociedades secretas, etc.). Só há história de maioria, ou de minorias definidas em relação à maioria. Mas "como conquistar a maioria" é um problema inteiramente secundário em relação aos caminhos do imperceptível.

Tentemos dizer as coisas de outro modo: não há devir-homem, porque o homem é a entidade molar por excelência, enquanto que os devires são moleculares. A função de rostidade mostrou-nos de que forma o homem constituía a maioria ou, antes, o padrão que a condicionava: branco, macho, adulto, "razoável" etc., em suma o europeu médio qualquer, o sujeito de enunciação. Segundo a lei da arborescência, é esse ponto central que se desloca em todo o espaço ou sobre toda a tela, e que vai alimentar a cada vez uma oposição distintiva conforme o traço de rostidade retido: assim macho-(fêmea); adulto-(criança); branco-(negro, amarelo ou vermelho); razoável-(animal). O ponto central, ou terceiro olho, tem portanto a propriedade de organizar as distribuições binárias nas máquinas duais, de se reproduzir no termo principal da oposição, ao mesmo tempo que a oposição inteira ressoa nele. Constituição de uma "maioria" como redundância. E o homem se constitui assim como uma gigantesca memória, com a posição do ponto central, sua freqüência, visto ser ele necessariamente reproduzido por cada ponto dominante, sua ressonância, dado que o conjunto dos pontos remete a ele. Fará parte da rede de arborescência toda linha que vai de um ponto a outro no conjunto do sistema molar, e define-se, pois, por pontos que respondem a essas condições memoriais de freqüência e de ressonância.”

====================

E-mail: [email protected]   ou   [email protected]

 

7 comentários
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Curitiba - PR
Atualizado às 02h30 - Fonte: Climatempo
16°
Nevoeiro

Mín. 15° Máx. 27°

16° Sensação
6 km/h Vento
100% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (20/09)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 16° Máx. 30°

Sol com algumas nuvens
Terça (21/09)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 13° Máx. 28°

Sol, pancadas de chuva e trovoadas.
Ele1 - Criar site de notícias