OS PAINÉIS
* Susana Pinheiro, artista visual. É membro da Academia Poética Brasileira
O tema que trago hoje, propõe um retorno lá atrás, num tempo em que parte da caminhada, dava seus primeiros passos dentro das salas de aula, como aluna do curso de Educação Artística na UFMA no final dos anos 90, e outra parte como profissional que seguia aprendendo à medida que lançava mão das práticas no exercício da arte, mesmo que ainda houvesse pouca experimentação prática e teórica. Já, explico melhor. Mas alguém que lêra os textos anteriores, poderá questionar: - Mas Susana, voltar ao passado outra vez? Quantas vezes mais farás essa viagem? Bem, eu respondo que a quantidade de retornos eu não saberia te dizer, posto que cada ida ao passado é sempre fonte de reconhecimentos e olhares múltiplos que têm me conduzido a descobertas sobre a vida. E nesse caminho a história vai se construindo e é impressionante como novas relações se estabelecem a partir de acontecimentos lá do passado, e dos filtros que se escolhe usar para fazer uma ponte com o presente, que se molda para novos desdobramentos que estão conectados e interagem com diversas situações. O passado nos conta histórias da vida humana, das conquistas e derrotas, das ciências, religiosidade e da arte. O passado é referência e aprendizado sempre, nele se alicerça potencialidades para construir uma vida melhor hoje, e mudando posturas, lançar esperança para o futuro!
Sobre o início da minha fala, lançar mão das práticas artísticas e aprender, faço menção aos desafios propostos nas escolas que me aceitaram como profissional, às quais dediquei alguns anos de minha vida. Ainda lembro daquele telefonema, a diretora da escola São Marcos, na época, a Dra. Maria Luíza Mendonça, me falando da necessidade de um professor de arte naquele momento. E sabendo que eu estudava arte e havia começado trabalho recente no colégio D. Bosco, perguntou se aceitaria fazer um teste, uma vez que cursando Educação Artística, poderia ter os requisitos para assumir as turmas carentes daquela disciplina. “A gente aprende a fazer, fazendo!” Nunca em toda minha vida, até então, um provérbio fazia tanto sentido. Eram turmas do ensino fundamental I, e a responsabilidade era grande. Desliguei o telefone num misto de medo e empolgação, e passei a selecionar material para a aula experimental, o teste. Na época tinha pouquíssima experiência em ministrar aulas, então, catei todos os textos possíveis fotocopiados que estudava, que falavam sobre educação e arte. Textos importantes sobre o Ensino da Arte no Brasil, escritoras como Ana Mae Barbosa, livros sobre a História da Arte de Gombrich, Improvisação para o Teatro de Viola Spolin, Rubem Alves sobre educação. Lembro que até Sócrates, Platão e Focault se juntaram a essa turma para me guiar, algumas das minhas referências sobre a educação, arte e filosofia. No dia marcado eu estava lá, e lembro que apesar do nervosismo estampado na cara e das mãos trêmulas, consegui fazer minha a aula experimental para a coordenação e direção daquela escola. Procurei fazer uma aula simples, mas com começo, desenvolvimento e atividade de revisão. Após alguns dias, uma ligação confirmava minha aprovação para a vaga, o trabalho era meu, uhuuuu! Permaneci naquela escola de 1994 até 2001, época em que passei no concurso público, minha mãe já doente, faleceu dois anos depois.
Voltando às aulas na escola São Marcos, a idéia era fazer o melhor, dentro de uma limitação particular que precisava transpor, medos, mas o que não impediu que muitos trabalhos fossem feitos de modo consciente e fundamentados. Explorei algumas linguagens artísticas possíveis, desde pequenas introduções à história das artes através de aulas expositivas, até as oficinas onde se realizavam o objeto artístico. Oferecia ao meu aluno uma arte que eu não tivera enquanto criança, queria fazê-los conhecer a arte além do desenho e das datas simbólicas comemorativas. Desses trabalhos com alunos do 1º ao 5º ano, surgiu um projeto de sensibilização à música, a partir de instrumentos produzidos pelas próprias crianças como os batuques (pedaços de cabos de vassoura), os chocalhos (rolos de papel higiênico e arroz cru) e pandeiros, onde potinhos de doce de goiaba serviam de caixa e as tampinhas de garrafas de metal, serviam de guizos. Com os instrumentos prontos, escolhíamos a música e a hora certa de inserir cada instrumento percussivo na cantoria. As pinturas e esculturas de artistas de destaque eram apresentadas aos alunos para que conhecessem os trabalhos e pudessem estudar as técnicas de pintura ou a modelagem, tudo adaptado para a realidade e idade escolar. Resumindo assim parece que tudo transcorria lindamente, mas as dificuldades não foram poucas, porém à medida que ia trabalhando, mudava o que não havia dado certo e mantinha aquilo que estava funcionando. Trabalhos de pintura em grupos e algumas exposições eram destaques nas paredes dos corredores da escola, mostrando a produção que cada turma, munidas textos expositivos acerca daquilo estudado, escrito pelos próprios alunos. Destaco, o trabalho da diretora que contribuía com orientações e apoio a cada trabalho de arte desenvolvido durante aqueles anos.
Depois de um tempo, e já trabalhando com as turmas do oitavo ano, veio a proposta de um novo desafio, e aqui começo a justificar a escolha do título desta crônica. A escola ia realizar uma festa para celebrar o encerramento do ano letivo e colação de grau da alfabetização, mas estava com um problema.
Precisava de um painel bem grande que pudesse ser usado como cenário. A temática da festa era baseada na história da arca de Noé, e por esse motivo queriam uma pintura. Uma arca com uma porta por onde pudessem passar as crianças durante a apresentação e entrega dos diplomas. Eu, atenta às explicações na sala de reunião e diante das professoras das quatro turmas, com aqueles olhares esperançosos, não tive outra reação a não ser aceitar a proposta. Elas ficaram animadas e eu, em desespero absoluto claro...nunca havia feito um painel grande com as proporções que a ocasião pedia. Mas elas nunca souberam disso, quer dizer, agora sabem! Fui para casa planejar o painel, e listar os materiais para fazê-lo. O resultado seria a satisfação de todos ou o meu precipício.
Passei três longos meses indo todos os sábados para a sala multiuso da escola. Um salão espaçoso onde faria a pintura, e algumas tardes da semana também, quando terminavam as aulas mais cedo. Foram dias, planejando, olhando para aquele tecido branco estendido no chão, pensando por onde iria começar. Eu nunca havia feito uma pintura daquele porte, mas havia me comprometido e desistir poderia prejudicar outras pessoas. Me sentia em “Agonia e Êxtase”, filme sobre Michelangelo, retratando-o quando pintou o afresco no teto da Capela Sistina, onde as cenas narram esse processo de criação que pode ser bem complexo. Durante a trama, Michelangelo elabora esboços, rasga-os, faz esquemas de desenho para facilitar sua prática e passa horas tentando resolver questões como a mistura exata dos pigmentos para obter a cor certa. Ver esse filme, e alguns relatos sobre o ato criativo de outros artistas, me posicionou nessa transição entre a busca e a solução. Pesquisei em livros de história, e até na Bíblia de vovó Suzana, imagens da arca de Noé.
Fiz esboços, pintei, depois uma maquete para visualizar melhor como poderia ficar o painel, tudo em papel mesmo. Chamei uma amiga, que apesar de não estudar comigo, gostava de arte e era muito habilidosa. Chalerava ela todos os dias, dizia que seria ótimo para nós, que a experiência poderia ajudá-la a escolher se faria arte na universidade, tudo para ver se ela aceitava. Por fim, com o olhar pidão, perguntei se ela poderia me ajudar, auxiliar naquela desafiadora tarefa. E acabou que, Edmila Mendonça aceitou meu convite, e sempre que podia estava comigo pintando e fazendo sugestões no painel. Decidimos que começaríamos com o azul cerúleo para o céu, esbocei a enorme Arca e fiz um corte na lateral que seria a porta da arca, por onde deveriam sair as crianças. Finalizamos o painel véspera da data acertada. A festa seria no clube da AABB, e lá fomos nós pendurar o painel que seria cenário para as crianças. Foi difícil, pois não havia onde suspendê-lo. Acabamos optando por usar pregos nas colunas e amarrar fios de nylon, deixando a tela esticada. Para minha surpresa e alegria, foi tudo bem, a porta da arca funcionou, quero dizer, abria, e o entra e sai das turminhas que se apresentariam, deu certo. A arca parecia mesmo uma arca (hahaha), toda a equipe escolar e pais ficaram satisfeitos.
Depois do painel Arca de Noé, vieram mais três. E no ano seguinte, dois para o colégio Colméia onde trabalhei também com ensino de arte. Ao total foram cinco painéis que mediam cerca de 3m de altura por 6 m de comprimento. Quatro deles pintados à mão, com exceção de um trabalho que era projeto para outdoor. Fora este, todos eram em tecido de algodão cru, pintados com tinta acrílica base branca, cola, espuma, spray e pigmentos coloridos. Permaneciam deitados no chão e abertos até a secagem completa para que fossem enrolados e transportados. Dois dos painéis foram pintados na própria escola e os outros dois no chão dos salões do Convento das Mercês, circunstância na qual conheci o amigo jornalista e escritor Mhario Lincoln, que numa dessas manhãs passeava no Convento das Mercês e me encontrou pintando o painel estendido no chão. Passei muitos anos sem saber notícias do amigo, vindo a reencontrá-lo depois quando montava uma pequena exposição em 2015.
Pintar aqueles painéis, para mim gigantes, significava enfrentar minhas próprias limitações e forjar na dureza do exercício constante da prática. Como quem levanta um alteres no limite de suas forças, mas que se mantém ali, até completar o curso de elevá-lo ao alto, para então poder soltá-lo, cansado e cheio de dores, mas com convicção de ter executado até o fim. A vontade para alcançar naquele momento minha maior e mais desafiadora missão, construir imagens que pudessem dialogar com cada proposta que chegava, completava seu ciclo sempre que acabava um painel e ele, tensionado, pronto para a visualização cumpria seu ofício.
A experiência com essas pinturas de grandes dimensões, os painéis, foram de certa forma, ensaiadas anteriormente com a pintura mural. Iniciada timidamente nas paredes de meu quarto, a pintura mural simulava papéis de parede, galhos e folhas de árvores e flores. Depois essas pinturas ganharam meu banheiro e os muros internos da casa de minha mãe, Zeila Gomes, que até gostava das pinturas, mas reclamava do tempo que me debruçava sobre elas, pois chegava a passar horas com o pincel na mão. Esses exercícios nas paredes lá de casa, me ajudaram quando fui convidada a pintar o primeiro painel, e depois o mural na parede da escola São Marcos.
O mural, foi encomendado como homenagem da escola ao aniversário da cidade de São Luís, e deveria servir como referência aos estudantes e visitantes que circulassem pela escola. Assim, fiz um janelão colonial com azulejos portugueses, alguns incompletos e reboco aparente, uma alusão ao desgaste do tempo em meio a necessidade de preservação. Encerrei minhas atividades profissionais na escola São Marcos no ano de 2001. E desde então não voltei mais lá. Será que a pintura mural resistiu? Provavelmente não, pois trocaram professores, a direção e equipe pedagógica. Devem ter trocado o mural também. São lembranças de um tempo de luta lá atrás, de conquistas e principalmente aprendizado, e elas estavam guardadas no passado.
Havia esquecido há tempos, da minha passagem pelos painéis e murais, quando toda essa história veio à tona ao ver os trabalhos de um artista brasileiro que também pintava painéis, resgatados através do Projeto Cândido Portinari. Não que meus painéis lembrassem os do artista Portinari, não me refiro a isso, os meus foram ensaios, mas ao fato de que esse grande artista realizava pinturas imensas, grandes não só em tamanho, mas no valor histórico e artístico.
E observando todas aquelas pinturas e painéis nos documentários que o projeto mostrava, mergulhei no passado dos meus próprios painéis. Portinari realizou vários painéis, a despeito disso cito aqui a obra “Guerra e Paz” que fez parte do acervo da ONU e motivou muitos elogios e reconhecimento pela grandeza de seu trabalho. Cândido Portinari nasceu numa fazenda de café em 1903, num povoado perto de Brodowski, São Paulo. Era filho de imigrantes italianos e começou a pintar aos nove anos de idade, vindo a se tornar um dos maiores artistas brasileiros com um trabalho riquíssimo e que merece ser visto por toda nossa gente. Com o propósito de resgatar a memória dos trabalhos de Cândido, e criar um acervo de imagens da obra do artista, surgiu o projeto que foi criado em 1979 por seu filho, o João Cândido Portinari, que incansável e dedicado, lançou-se numa busca intensa para encontrar cada peça e assim, catalogá-las. Contou com o apoio de algumas instituições, entre elas a PUCRJ e uma equipe especializada que trabalhou duro até que o projeto fosse concluído. Criou um banco de dados on-line com as obras do artista em vários momentos de sua vida. O projeto virtual possibilita maior acesso ao povo brasileiro e estrangeiro, ao acervo artístico para que conheçam a potência, o valor cultural que o artista produziu ao longo dos anos. É um projeto lindo que merece ser conhecido por cada brasileiro, pois dentre os nossos artistas, Portinari foi um dos que mais se dedicou a temas voltados ao nosso povo, nossas raízes e nossa terra. Viva Cândido Portinari. Viva João Portinari!
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