Sexta, 04 de Setembro de 2026 01:53
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil Literatura

MANOEL SERRÃO DA SILVEIRA LACERDA. Por João Batista do Lago, imortal APB

"Um dos poetas mais expressivo e denso literato da contemporaneidade".

26/09/2021 21h32
Por: Mhario Lincoln Fonte: Divulgação
Serrão/JB
Serrão/JB

Joao Batista Gomes Do Lago 

Na madrugada do dia 26 de dezembro de 2019 perdi um grande amigo, um verdadeiro irmão, em verdade um irmão que nunca tive: MANOEL SERRÃO DA SILVEIRA LACERDA. Serrão era um bacabalense de boa cepa. Formado em Direito, portanto, advogado dos mais promissores do Maranhão. Contudo, o que mais admirava nele era a sua artéria literária. Aos meus olhos, um dos poetas mais expressivo e denso literato da contemporaneidade (infelizmente ainda inédito). Serrão (ainda) é pouco conhecido nas "rodas" literárias da cidade de São Luis e do Maranhão, porém, não tenho dúvidas que seu nome será um dos mais importantes no futuro. Assim como Souzândrade,, Manoel Serrão da Silveira Lacerda é um poeta para além deste tempo. No poema abaixo, dedicado a Zigmunt Bauman, percebam a qualidade de forma e conteúdo da sua poética (João Batista do Lago).

*************************

Continua após a publicidade

A TRINDADE

De Manoel Serrão da Silveira Lacerda

(Ao sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman).

Impalpáveis, quão infinitas e tão eternas...

Imutáveis, quão imateriais e tão transcendentais...

Ó espiais o que há no espaço?

Continua após a publicidade

Olhais os rios, os mares e a larga vastidão dos oceanos de Pontos.

Espiais os dias, as noites e o altivo de Urano e Gaia à procura da remota humana;

Olhais para as profundezas das cavas entranhas de Tártaros.

Olhais o que há no tempo?

Espiais o presente com os seus peregrinos errantes e miseráveis desesperançados sem liberdade;

Olhais essa "massa" passiva, invisível e sacrificada, meros expectros, filhos dessa Pátria saqueada;

Continua após a publicidade

Espiais esse “rebanho” forjado no aço do passado; e, para todos os sonhos futuros de redenção, que vão-se aos rés entre os dedos da ilusão.

Ó espiais o que há na base da matéria?

Olhais o primeiro, a carga positiva dos prótons; e, no meio dos prótons, impedindo que eles tenham contato direto os nêutrons;

Olhais para os elétrons, partículas dotadas de carga elétrica negativa.

Olhais o que há no estado da matéria?

Espiais o sólido que se liquidifica; onde todas as iterações e encontros dos entes se tornaram provisórios e temporários, fugazes e passageiros, válidos apenas até um novo dia;

Olhais para d'onde impera o individualismo, a desigualdade, a revolução digital, e a efemeridade das relações, e quão gases volatizaram todos os mais belos sonhos.

Ó espiais o que há na música?

Escutais a tão suave e sonora melodia da vida; e os cânticos harmoniosos, acompanhado de cítaras e harpas, a concisa harmonia do amor fraterno;

Olhais o ritmo que se dará à paz no mundo.

Então vedes, olhais o que deu-nos Deus em 3 em Um e no 3 e Um, uma assinatura para a redenção dos homens: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

E nós homens todos amém!

ACERCA DE SERRÃO

João Batista do Lago

Já revelei noutra oportunidade que sou admirador da poética de Manoel Serrão. É-me – aos meus olhos – provavelmente, o poeta mais complexo do Maranhão, na atualidade. Dono de uma larga obra (toda ela socializada na Internet), Manoel Serrão, desde que tive a primazia de conhecê-lo, “espanta-me” com os seus versos, e muitas vezes, me conduz a reflexões dialético-materialista-fenomenológicas.

Neste seu poema – IMPERMANÊNCIAS – por exemplo, o P., num quarteto vérsico magistralmente construído, reflexiona sobre a pósmodernidade sem cair no reducionismo comum ao campo sócio-econômico-político.

A crítica, contumaz e contundente, que infere estes versos, é de um “visceralismo” apaixonante, i.é., ele arregaça o espírito daquilo que conhecemos como “PósModerno”, para nos deixar antever definitivamente claro que o caos está presente como onipotência e onisciência nessa nossa louca hodiernidade... Ou nessa modernidade tardia, como preferem alguns sociólogos e estudiosos ou pesquisadores sociais.

E de que maneira ele traduz isso? Fá-lo a partir duma dupla personificação adjetivada, ou seja, a partir de dois “campos” individualizados na complexidade do sistema existencial de humanos que perambulam pelas cidades como indivíduos fastos-nefastos e que se arrastam pela cadeia duma vida que já não mais lhos pertecem...

E é nessa exata presencialidade tempo-atemporal urdida na dupla face de sujeitos que não são sujeitos de mais nada, mas apenas de uma análise discursiva capaz de nos engessar, ou seja, de nos esconder a partir de nós mesmos dentro de nossos vazios existenciais.

Seja da face “fasto” ou da face “nefasto” há, nessa dupla dicotomia de si-de-ambos, o caos instalado com suas vertentes de fractalização ou de fragmentação dos sujeitos de-si, que já não mais fazem quaisquer sentidos. Nem mesmo o sentido de uma “classe” que, porventura, poder-se-ia inferir em quaisquer desses ambos.

Mesmo aquele que “sorrir para o circo” não se diferencia do “outro que chora no pasto”, pois que, ambos já não têm de si nem o sorriso nem o choro. E é exatamente neste instante que eles perdem o “espírito do sujeito” que neles poderiam resistir e fazer e dar sentido às suas existencialidades existenciais.

Paradoxalmente, ambos os dois são a essência de suas próprias mortes, assim como o são a essência das mortes de si-outro. Ambos os dois riem e choram ou choram e riem na selva caótica dos desesperados... Despedaçados... Fragmentados...

Mas há, aqui e agora, outra inferição que gostaria de aventar para este instante, mas que está submersa neste seu poema: Manoel Serrão nos põe a nu diante de nossa dupla face daninha de nós mesmos. Revela-nos, como um filósofo hermético, o grande dilema que nos move pelos caminhos que traçamos: o só. Não o estar só, mas o ser-si-só...

Porventura, não seria a posmodernidade a maior produtora dessa condição de ser-si-só?

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
João Batista Gomes do LagoHá 5 anos atrásSão LuisObrigado, Mhario Lincoln, pela postagem e relembrança. Manoel Serrão é merecedor dessa homenagem singela. Valeu.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 23h01
15°
Parcialmente nublado

Mín. 10° Máx. 23°

14° Sensação
1.03 km/h Vento
69% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (05/09)

Mín. 10° Máx. 14°

Chuva
Domingo (06/09)

Mín. Máx. 10°

Chuvas esparsas
Ele1 - Criar site de notícias