AS 7 ESTAÇÕES DA VIDA ou As sete lições de Vida.
*Mhario Lincoln
O filósofo dinamarquês Kierkegaard identificou três momentos da existência humana: o estético, o ético e o religioso. Abordarei aqui dois deles.
O Estético: a busca pelo prazer imediato, a sensualidade, representada por Don Juan; a dúvida, por Fausto; o desespero, pelo judeu errante Ahasverus; e
O Ético: o Homem entregue às Leis Morais. Ao cumprimento dos deveres e obediência às leis, que emanam dos códigos reguladores; "trata-se do indivíduo que ordena sua vida em relação ao cumprimento do dever", diz Søren Aabye Kierkegaard.
Ser esse (interpretando Kierkegaard) ou não ser, o perfil do autor do livro As 7 Estações da Vida? Pelo menos, no que tem pertinência ao que li em versos abundantes, mesmo em construções pequenas, há similitudes, sim, com o que expressa esse grande maranhense, advogado, poeta e multicultivador das coisas da paz, Luis Augusto Guterres Filho.
No entretanto, para não afeiçoar-me pelo coração, mas pela razão, segundo codnomina Kant, “(...) conhecimento se constrói a partir do fenômeno que alia a intuição sensível ao conceito do intelecto (...)”, procurei separar o poeta do meu velho amigo de infância, com ampla rodagem, lá pelas bandas do bairro do Apicum, na homeopática cidade ludovicense.
Destarte, passei a observar que nessa lira poética, lançada em 1995, Guterres foi além de Kierkegaard. Além das estações do próprio mundo conhecido. Além das percepções mesmíticas, das construções líricas iguais, num ano em que dezenas de novos poetas florejavam jardins da puberdade.
Nauro Machado estava vivo e a ele coube falar sobre a obra, em prefácio garboso:"(...) os poemas e particularmente os micro poemas de Guterres Filho impressionam principalmente pelo poder de captação, em poucas palavras (...)".
Nauro tinha total razão! Guterres é um poeta desacelerado. Em rápidas pinceladas, como um caricaturista da alma, ele consegue traduzir um romance inteiro de mil páginas: "Sei que me desejas/ embora evites o meu olhar,/ entendo o teu medo/ mas te percebo cúmplice". Assim, não seriam necessárias um milhão de páginas para registrar aedicamente, um impressionismo amoroso tão profundo e cheio de suspense. Algo perto de Margaret Mitchell ou Emily Brontë. Mutatis Mutandi.
A grandeza do poeta Guterres não corresponde diretamente a uma fábrica de versos perceptíveis, comuns, previsíveis. Mas a uma caixinha de Pandora: leio, não leio, leio e corro perigo? Preferi correr o perigo de sair do livro com paixões arrasadoramente pueris ou apoteóticas ilusões maduras: "Te ver nua/ e te comer crua".
Perfeito! Há nesses versos, embutidos, não maledicência, mas algo de extrema solenidade angustiante e afoita. Carlos Drummond de Andrade também foi afoito:"O chão é cama para o amor urgente,/ amor que não espera ir para a cama".
Ora, pois, solicitudes à parte, todos nós, em algum tempo, também sofremos dessa pressa inconteste do chegar ao êxtase. E por que não? Somos humanos e como tal, o amor e ódio sempre estão em eterno conflito:"Todas as noites,/ sujo minha consciência/ e lavo nossa cidade. /Não, nada de água,/ uso o que tenho,/ (...) a lavagem das prostitutas,/ o suor dos mendigos,/ o vômito dos colerizados (...)".
Isso é a hermenêutica do homem em ascensão, na calada da noite, em algum lugar no meio do nada, sob luzes de alguma luminária amarela, projetando a própria sombra num azulejo colonial velho, encostado d’ombros numa parede de limo, ouvindo os sinos da matriz chamando para a missa das cinco da manhã.
Este é Luis Augusto Guterres Filho. Um pouco de Charles Baudelaire. E por que não? Basta compreender - mais a fundo - a intuição do discurso poético desprovido de esquemas perfeitos, mas de ações contraditórias flamejantes, a partir de poemas como o citado acima. Para quem leu "Les Fleurs du Mal", com certeza vai concordar comigo: "Eu poderia ter meu orgulho tão alto quanto as montanhas / Dominar a nuvem e o grito dos demônios) / Basta virar minha cabeça soberana (...)". Baudelaire.
E caso não concorde, o menu de "As 7 estações da Vida" é extenso: amor, paixão, ódio, alusões, ilusões, reminiscências da existência, num planeta de saudade, anseio e dor, calçado com paralelepípedos na entrada e por atrás dos muros do Centro Correcional de Pedrinhas - "Dentro dos muros de Pedrinhas/ não vi nada que ainda não tivesse visto/ não senti medo que não houvesse sentido/ e não conheci nenhum homem/ que ainda não houvesse conhecido". Aí está a perfeição que me leva a reflexões axiomáticas, inclusive na contradição entre ficção e realidade, entre a ação e o destino, da mesma forma como Hamlet nos fez entender.
É profundo esse ciclo lírico. Do começo ao fim. Uma prova de que a poesia moderna - disforme em sua métrica, desiludida em sua rima - não interfere na vontade do autor em calcificar a realidade medium absolutum no cotidiano amargoso da convicção da mensagem. É realmente incrível ler-se o pequeno excerto - "Através dos Muros de Pedrinhas", citado acima. Se Aristóteles o lesse, com certeza ratificaria: "Isso é assim desde que o homem é sapiens". Concordo! Entretanto, os dois mundos até então adversos, são mostrados a partir dessa criação poética, como idênticos; apenas separados por grades de egos.
Ou simplesmente, subdivididos e recondicionados por pura indulgência: "Todos os dias,/ bem cedo,/ vou à igreja./ Compro pão e/ cumpro penitência". Sensacional esse arranjo do pão - o corpo de Cristo - com a Via Sacra, rumo à padaria simbólica, caminho esse, diagnosticado como algo que poderá, de certa forma, purificar o poeta peregrino, como nas procissões do Senhor Morto, que saía da Igreja Metropolitana no rumo da praça João Lisboa, carregando os "reis dos homens', os 'fuinhas', os 'nascimentos', os 'joãopessoas', os perdidos de sempre; sempre em busca do vinho santo.
Um poeta com seus altos e baixos - "Pode-se viver em linha reta,/ mas seria monótono...".
Com seu canibalismo - "À vezes gosto de te morder,/ degustar os pedaços/ do teu corpo moreno/ sabor da noite e cor do mormaço".
Com seus tons nostálgicos - "Os guarda-chuvas, negros morcegos/ passam voando ligeiros,/ os bondes, besouros negros/ferem a chuva (...)".
Com a sua realidade - "Procuro a rua onde nasci/ encontro um menino perdido (...)".
Com a paixão exacerbada: "As mulheres por quem me apaixono/ sempre recebem flores,/ que, às vezes, duram mais que a paixão".
Como o próprio fim: "Quando nada mais restar (...)/ empalidecendo minha face/ ao mesmo tempo/ em que o odor da putrefação/ explodir em meus despojos/(...) peço, apenas, que afastem/ as traças do meus poemas".
Desta forma, mesmo essa obra sendo datada de 1995, há uma maturidade neste livro de 76 páginas, cheio de uniformidade, elegância e alguns segredos:
"(...) eu e meus medos,/ fecho a janela/ e me recolho aos meus segredos". (Guterres).
Estou deveras emocionado ao reler este bólido lírico. Deveria tê-lo resenhado, há muito!
Curitiba-PR, madrugada de 29.09.2021.
Mhario Lincoln,
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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