MESMO ASSIM DIGO OBRIGADO...
@Elvandro Burity
Depois de transferido para a inatividade trabalhei na iniciativa privada, no governo estadual e federal. A partir de 1992 peguei gosto pelo exercício da política como meio para obtenção de conquistas aos desabrigados da sorte e vítimas das desigualdades sociais. Nas campanhas de 1992, 1996 e 2000 tomei conhecimento de problemas, dificuldades e limitações, bem como da falsa premissa popular de que o governo pode tudo. Hoje tenho a visão da política como uma habilidade no trato das relações humanas, com vista à obtenção de resultados.
Nos últimos anos, passei por várias experiências e decepções... Uma das mais marcantes foi o caso de um candidato, por mim apoiado, que mesmo sem ter sido eleito prometeu-me arrumar um "cargo"... Acontece que o tempo em sua marcha inexorável aproximava-se de outra campanha eleitoral... Campanha que o colocava numa situação deveras esdrúxula, se levarmos em conta a colocação por ele conseguida em um gabinete de Brasília e, eu, ainda vivia de vãs promessas... Um belo dia, aqui no Rio de Janeiro, ao fazer-lhe uma visita para agradecer o telegrama que mandara pelo transcurso do aniversário de minha mulher, fui de maneira intempestiva e aos berros, expulso de sua sala de trabalho.
Confesso que foi uma grande decepção. Para mim aquela atitude fez cair a máscara...Retirei-me na certeza de que em minha frente estivera um ser humano desprovido do sentimento de gratidão. Mesmo assim não guardei nenhum sentimento de rancor... Entreguei tudo ao tempo... Demorou pouco mais de um ano para que os nossos passos se cruzassem... Nos encontramos e ele cheio de amabilidades disse que naquele fatídico dia, eu aparecera num momento errado, ele estivera sob pressão muito grande... et cetera... et cetera...
O repugnante foi a sua incapacidade para esboçar um leve gesto no sentido de pedir desculpas... O leitor deve estar curioso para saber qual foi a minha reação. Topei o falso logo da verdade e toda aquela dissimulação... O importante é que a imagem deixada por aquele cidadão continua imutável.
Sinceramente, hoje, mais do que ontem, sou grato às pedras a mim atiradas, aproveito-as para construir um realístico futuro. Procuro manter-me otimista, sem perder a flama da minha sexagenária juventude, e sigo com os olhos fitos no futuro... Considero-me menos contemplativo... Mas, seguro na tomada de posições... Qual o meu pensamento atual sobre a política? Não responderei. Há muito joio para ser separado do trigo.
Antes eu reclamava da vida, agora o faço com menos veemência. O interessante é que só colhe conhecimento quem corre o risco de, cedendo colocar em risco o pouco que tem.
Uma coisa é certa, sem nenhuma sombra de dúvidas, minha vida ficou muito, muitíssimo, infinitamente divertida... Resta-me tão somente por tudo isso que relatei dizer: obrigado... Afinal o difícil não é subir, mas, ao subir ou mesmo não subindo continuarmos a ser quem sempre fomos...
Acredito não ter mudado nas minhas reações... Podem ter melhorado... Mudança e melhora são duas coisas distintas. Comecei a melhorar depois de rir dos meus próprios conflitos e babaquices. Não há princípio de virtude, de honra ou de moral que não seja inerente à consciência. Às vezes, uma face tida como nobre poderá ocultar sórdidos sentimentos.
Cada novo dia é uma vida inteira... Para mim a posteridade é sempre justa. Encrencas são temporárias... O tempo é um tônico e o senhor de tudo. Aprendi caindo... Aprendi contrariando... Aprendi sendo contrariado... Mesmo não tendo reconhecimento, por tudo isto, digo obrigado.
*Elvandro Burity é poeta, escritor e vice-presidente regional da Academia Poética Brasileira, seccional Rio de Janeiro.
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