AS CAMÉLIAS DO QUILOMBO DO LEBLON, BOSSA E LIBERDADE
(*) Paulo Rodriges, vice-presidente regional da Academia Poética Brasileira/Seccional MA
“O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso.”
Darcy Ribeiro
DOIS AMIGOS: UM SÉCULO DE MÚSICA É O ÁLBUM QUE COMEMORA CINQUENTA ANOS de carreira de Caetano Veloso e Gilberto Gil, lançado em 2016 em CD e DVD. Canções importantes da Música popular Brasileira estão lá (vivas): Tropicália, Coração Vagabundo, Super Homem (A Canção), Se Eu Quiser Falar com Deus.
Eles fizeram uma turnê comemorativa. Iluminaram Holanda, Bélgica, Inglaterra, Israel, Portugal, França, Argentina, Uruguai. Ao retornarem ao Brasil (ainda em dezembro de 2015) nos presentearam com uma canção intensa e histórica:
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
Nas lapelas
Vimos as tristes colinas logo ao sul de Hebron
Rimos com as doces meninas sem sair do tom
O que fazer
Chegando aqui?
As camélias do Quilombo do Leblon
Brandir
Somos a Guarda Negra da Redentora
Somos a Guarda Negra da Redentora
As camélias da Segunda Abolição
As camélias da Segunda Abolição
As camélias da Segunda Abolição
As camélias
As camélias da segunda abolição
As camélias da segunda abolição
As camélias da segunda abolição
Cadê elas?
Somos assim, capoeiras das ruas do rio
será sem fim o sofrer do povo do Brasil
Nele, em mim, vive o refrão
As camélias da segunda abolição virão
Eduardo Silva lançou em 2003 o ensaio As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura (Companhia das Letras, 144 páginas). Ele fala sobre o primeiro quilombo abolicionista do país, fazendo oposição aos quilombos de revoltas como era o caso de Palmares.
Por ironia do destino e da história, um dos metros quadrados mais caro do país foi em sua origem uma chácara comandada por um português de nome José de Seixas Magalhães, que fabricava malas. Ele mantinha boa amizade com José do Patrocínio, Ruy Barbosa e a princesa Isabel.
Era um homem que sonhava e defendia, portanto, a liberdade das mulheres e homens negros.
Caetano Veloso e Gil fizeram a releitura desta obra citada. Kristeva anunciava a intertextualidade como um intercâmbio semiótico de um texto primeiro com um outro texto. Poderíamos seguir este raciocínio? Claro. No entanto, é curto para alcançar os compositores da Tropicália.
Vamos observar as duas leituras: uma histórica e outra artística.
O ensaísta nos conta que as camélias eram símbolos do acordo com a elite imperial. Negros com a flor no peito esquerdo eram identificados logo como pertencentes ao quilombo do Leblon. Estes mesmos escravos colhiam as melhores e mais coloridas camélias para a princesa, que é retratada como “a redentora”. Algo equivalente a Nossa Senhora Mãe de Deus - uma imagem canalha, sem dúvida.
O livro levanta para a crítica diversos questionamentos. Qual era o número de pessoas que ali residiam? Quem ajudava a sustentar a todos? Por que os personagens da elite têm um foco de luz especial? Os negros são apagados como sempre acontece na história oficial de uma nação escravocrata desde o zero ano?
Para o último questionamento a resposta é sim!
Os compositores começam com a relação macro, juntando a simbologia das flores com a geografia, que apresenta uma musicalidade forte e tensa:
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
Nas lapelas
Vimos as tristes colinas logo ao sul de Hebron
Rimos com as doces meninas sem sair do tom
O que fazer
Chegando aqui?
As camélias do Quilombo do Leblon
Brandir
No peito esquerdo estava a chave de entrada naquele ‘quase paraíso”, marcado na primeira estrofe. Digo quase, porque eles continuavam servindo aos senhores brancos, sem direitos e garantias.
Há na segunda estrofe, uma referência as colinas da Judeia, onde estão localizadas várias cidades bíblicas. Todas carregando o sofrimento, a perseguição, os genocídios contra os cristãos. Chegando em nossa terra: “As camélias do Quilombo do Leblon/ Brandir”. O verbo intransitivo traz a ideia de usar a espada ou atear um facho. É exatamente isto que acontece.
Na quinta estrofe, Caetano Veloso e Gil chamam para a libertação verdadeira, que ainda não aconteceu entre nós:
As camélias da segunda abolição
As camélias da segunda abolição
As camélias da segunda abolição
Cadê elas?
Segundo o IBGE, os negros são mais que a metade da população brasileira. São assassinados. Estão nas ruas. Catam lixos para comer. Não tem acesso ao ensino formal, de qualidade. São invisíveis como costuma dizer o sociólogo Jessé Souza.
Por isso, é preciso fabricar de forma revolucionária e urgente a segunda abolição:
Somos assim, capoeiras das ruas do rio
será sem fim o sofrer do povo do Brasil
Nele, em mim, vive o refrão
As camélias da segunda abolição virão
É um canto de esperança para que façamos justiça social entre nós. Precisamos replantar as camélias da segunda abolição, renovar as utopias. Deixar crescer em nós o abolicionismo de Castro Alves, novamente.
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