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Uma história de amor comovente, verdadeira e emocionante: "Pecado Original", de Luciah Lopez

É escritora, poeta e imortal da Academia Poética Brasileira, seccional Paraná

17/10/2021 às 22h09 Atualizada em 20/10/2021 às 12h28
Por: Mhario Lincoln Fonte: LUCIAH LOPEZ
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Ilustração ML
Ilustração ML

O PECADO ORIGINAL

Luciah Lopes é escritora, poeta e imortal da Academia Poética Brasileira.

O enorme portão de ferro range, enquanto Juliana se despede das grossas paredes que a separam da vida. O Educandário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro mais parece um castelo medieval, grossas paredes, escadas com degraus gastos, ladrilhos frios e austeros, portas sempre fechadas, corredores imensos, janelas com grades e as intermináveis orações diárias.

Este fora o seu mundo, desde que a trouxeram ainda criança, para ser educada e tornar-se professora. Nunca soube como era a vida além dos portões de ferro, nunca tivera contato com outras pessoas além dos altos muros do Educandário. Cresceu entre os crucifixos e Ave-Marias que calejaram seus joelhos. De sua mãe sabia pouco mais que o nome - Ludmila Alcântara de Menezes, filha de um rico fazendeiro de café, que por obra do Inimigo tornou-se “moça perdida” quando se deitou com um primo e concebeu Juliana - a vergonha para a Família Alcântara de Menezes. Como era o costume da época, a criança foi levada a um colégio distante, ficando sob a guarda das freiras para ser educada na mais rígida moral católica.

Juliana sempre ficou intrigada com a expressão “moça perdida”. O que seria isso?! Por que a Madre Superiora nunca respondia quando ela lhe perguntava sobre a mãe, sobre o pai e o avô, por quê?! Eram sempre respostas evasivas e muitas Ave-Marias que varavam a noite e amorteciam seus joelhos. Em meio a Ladainhas de Nossa Senhora, Juliana cresceu e viu seu corpo transformar-se sem que ela soubesse a razão dessa mudança, e à noite, quando deitava em silencio no seu quarto, deixava timidamente que suas mãos passeassem pelo corpo tateando os seios que começavam a crescer, os quadris que tomavam uma forma mais arredondada e as coxas mais volumosas. Sentia vergonha. Queria esconder os pequenos seios cruzando os braços quando andava cabisbaixa. Sofria em silêncio. E quando finalmente vieram-lhe as "regras" para seu desespero total a Irmã Sara explicou com meia dúzia de palavras, que agora seria assim: “vai sangrar alguns dias todos os meses como um sinal do Pecado de Eva" e entregou as “toalhinhas” usadas para conter e esconder o pecado que lhe escorria das partes íntimas e pecaminosas. Também avisou em  tom solene,  que nunca devia falar sobre isso com ninguém. Era o Castigo Divino por ter nascido mulher.

O tempo se fazia lento para quem somente estuda e faz orações e naquele ano, na fase adolescente de Juliana, quando as tardes quentes do verão chegaram, ouviam-se as vozes dos moradores do Internato dos Padres, que era “pegadinho” ao Educandário das moças – somente o muro alto de pedras separava Juliana daquele universo masculino de vozes e gritarias. Por um instante ela parou de colher as ervilhas da horta e ficou atenta ao alarido que quebrava o silêncio. Era um jogo de bola. Ouvia as vozes e tentava imaginar o que estavam fazendo – quem gritava e quem ria tão alto. Foi abruptamente tirada de seu devaneio por um “cutucão” de Irmã Salete, que gentilmente quase lhe arrancou o braço tirando de suas mãos um maço de ervilhas. Tarde demais, ela fora picada pelo “inseto da curiosidade”. Queria saber o que e quem morava do outro lado do muro.

Naquela noite quando depois das orações finalmente recolheu-se ao quarto, olhou pela janela o muro de pedras e sentiu uma excitação nunca antes sentida tomar conta do seu corpo. Precisa saber quem estava do outro lado e por que é proibido ter contato com os moradores – as ovelhas do rebanho do Padre Olavo. Ficou quieta olhando o muro esquecendo-se da sua condição de moça recatada e pura. Quando o sono finalmente chegou, vieram imagens distorcidas e barulhentas que gritavam ao seu redor como gárgulas dos telhados medievais. Com a claridade do dia, Juliana olha novamente para o muro e percebe que está um silêncio do outro lado, mas o seu coração inquieto teima em cobrar-lhe coisas que nem ela mesma sabe ao certo.

 

É hora de colher ervilhas e assim pensar numa maneira de subir naquele muro e descobrir o que tanto lhe tira o sossego. Passeia entre tomateiros, ervilhas, alfaces e chicórias e finalmente no canto do muro um pé de pitangas. Ali plantado como se estivesse esperando por ela, com seus galhos fortes o bastante, para sustentar o seu peso - a pitangueira parecia sorrir. Ela decide, que no final do dia quando todas as alunas e freiras se recolherem para as orações, vai sair pela cozinha e subir na árvore e olhar por cima do muro. Com esse pensamento sentiu um forte rubor pelas faces e correu como quem foge do diabo em pessoa. E rezou quinhentas Ave-Marias, mas o pensamento e o rubor das faces continuaram.

No calor do fim da tarde as freiras e moças recolheram-se, e Juliana sai pela cozinha indo em direção ao pé de pitangas. Escala os galhos ouvindo o som das Ave-Marias, e, de cima da  árvore, os seus olhos até então virgens, veem a figura do pecado do outro lado do muro. Um dos alunos do Internato dos Padres toma banho de mangueira, completamente nu. O rapaz achando-se sozinho alisa o próprio corpo deliciando-se com a água fria. Juliana não consegue respirar, segura-se entre os galhos da pitangueira em silêncio, para não ser descoberta e continua olhando a cena “lúdica” do aluno do Padre Olavo. Fica desesperada quando sente uma forte excitação tomar-lhe o corpo virgem e desce tão rápido quanto  subiu.

Trancada em seu quarto, procura o seu rosário de orações e reza com fervor para esquecer aquela cena. O rapaz nu. Mas aquele corpo de homem é tão diferente do seu, que é impossível esquecer e quanto mais ela reza, mais a imagem do rapaz alisando o corpo e tocando com as mãos as partes “onde o pecado mora” a deixa em brasa. Não consegue entender como seu corpo reage dessa forma; como sua “área proibida” pulsa enquanto seus mamilos se  enrijecem sob a blusa. Como pode, a  sua mão descer pelo seu ventre buscando, tateando desnorteada uma satisfação pecaminosa?! Sente-se culpada. Suja. Faz as orações penitenciando-se por horas na tentiva de acabar com o calor queimando entre as suas pernas, fazendo do seu corpo a morada do pecado. Terá que confessar-se ao padre Olavo no próximo domingo, mas como falar?! Como contar que o próprio diabo tomou conta do seu corpo?! Certamente será excomungada! Não, isso não. O silêncio será o melhor a fazer. Mas as vozes do outro lado do muro continuam a torturar as suas tardes de verão, e, outras vezes, ela subiu na pitangueira na esperança de ver o rapaz.  Finalmente esse dia acontece. Novamente o rapaz está tomando banho com a mangueira, alisando o corpo nu. O seu sexo saliente, suas pernas e finalmente seu rosto.

A visão de um  anjo ou querubim?! Juliana descuida-se e faz um ruído chamando atenção do rapaz que  percebendo a sua presença, junta a camisa, e, meio desajeitado, tenta cobrir o corpo. Juliana sente que o mundo cai sobre ela,  novamente corre e reza, mas agora reza sorrindo.

No domingo padre Olavo veio para a missa e comunicou a Madre Superiora que fariam uma quermesse para arrecadar fundos para o orfanato e que seria imprescindível a presenças das moças para ajudar nas barracas. Madre Superiora reclamou e relutou em soltar suas ovelhinhas, mas Padre Olavo foi irredutível.

Ela sabia que era o momento certo para ver o rapaz e agora já conhecia o seu rosto e confiante prendeu os cabelos e com o melhor sorriso nos lábios, foi com as outras moças para a quermesse sob o olhar aquilino da Madre Superiora. Mal haviam ultrapassado os portões do Internato foram cercadas por um enxame de rapazes para suplício das irmãs. Juliana olhou ao redor e não encontrou quem seu coração tanto desejava. Seguiu com irmã Sara até uma barraca onde venderiam doces caseiros e sentou-se triste. Estava cabisbaixa olhando os próprios pés, quando sentiu um toque em seu ombro. Levantou os olhos e deparou com um lindo par de olhos verdes e um sorriso maravilhoso. Era o seu príncipe.

– “Olá”. Tinha voz de príncipe... Ela meio sem jeito respondeu entre um sorriso.

-"Olá".

– “Quais os doces que você tem para vender?” Ela nem sabia mais o nome dos doces e foi mostrando um a um enquanto suas mãos tremiam. Ele sorriu e perguntou:

- Qual seu nome?

-Juliana. Chamo-me Juliana e você?

-Meu nome é Fernando. Posso conversar com você?

-Sim, é claro. E a conversa estendeu-se pelas horas da tarde e falaram e riram das outras moças, das irmãs, e finalmente ele ficou sério e falou sobre o dia em que estava tomando banho e percebeu Juliana em cima da árvore.

Ela corou e desculpou-se entre dentes enquanto ele sorria dizendo para deixar pra lá. Quando a quermesse acabou e Madre Superiora veio recolher suas ovelhinhas, ele pediu para Juliana encontrar-se com ele no dia seguinte no final da tarde, na árvore.

Ela nem dormiu naquela noite. Pensou e virou na cama e sentiu um calor incendiando seu corpo. Depois das aulas e das Ave-Marias ela saiu furtivamente pela cozinha e subiu na árvore para conversar com Fernando que a esperava do outro lado. E assim fizeram por vários dias até que ele finalmente resolveu pular o muro e ver sua amada de perto, pois já não aguentava mais de vontade de tê-las nos braços. Quando isso aconteceu Juliana pensou que morreria. Sentiu-se incendiar. Foi um abraço terno e tímido de dois corpos se conhecendo. Fernando segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou sua testa chamando-a de “meu amor”.

Para ela nada mais importava. Esqueceu-se da Madre Superiora, das Ave-marias, das irmãs sempre correndo. Nada mais tinha sentido a não ser aqueles braços em volta do seu corpo e aquela boca procurando a sua para um beijo tímido, mas que aos poucos foi tornando-se mais quente e apaixonado. E o amor e o desejo foram crescendo dia após dia até finalmente Fernando convenceu Juliana de que precisava de uma prova do seu amor e então sairiam dali e se casariam. E tudo foi consumado numa noite de céu estrelado e um perfume de flores no ar. Juliana tornou-se mulher nos braços do seu amor. E fizeram amor entre os pés de ervilha, tomateiros, alfaces e chicórias. Foi um amor intenso e gratificante, pois Juliana estava apaixonada tanto por Fernando como pelas sensações que descobria em seu corpo. Sentia o calor de seu sexo tomar-lhe o corpo todo, seus mamilos enrijecidos latejavam e seus lábios se abriam e se entregavam aos de Fernando num beijo molhado e longo.

Quando os primeiros raios do sol tentavam clarear o mundo, Fernando beijou-a no rosto, pulou o muro e sorrateiramente voltou para seu quarto. A moça ainda ficou alguma instante ali, sentada olhando o céu e sorrindo. Sentia uma coisa diferente, uma espécie de angustia, mas o pensamento em Fernando e na promessa de que seriam felizes para sempre a fizeram sorrir e voltar para seu quarto, agora como uma mulher.

Os dias foram passando e Juliana ficava hora sentada na horta esperando por Fernando. Subia na árvore e olhava o pátio do Internato, mas não via mais Fernando. Um crescente desespero tomou conta de suas horas. Tornou-se apática, descuidava-se nas aulas, não conseguia concentrar-se nas orações. E quanto mais o tempo passava mais ela sentia-se adoecer. Tinha tonturas, náuseas e muitas lágrimas. Fernando nunca mais voltou. Alguns dias depois do encontro com Juliana, ele deixou o Internato voltando para sua casa. Nem uma palavra, nem uma linha sequer – apenas um silêncio de morte. A morte da inocência de Juliana e a origem de uma nova vida que ela carrega em seu ventre. O seu Pecado Original foi apenas acreditar no amor. Um amor de fim de tarde. Um amor de verão.

Os portões de ferro gemem abrindo-lhe um novo horizonte, Juliana finalmente compreende o que sua mãe sentiu quando foi chamada de “moça perdida”. Não conseguiu conter as lágrimas e segurando as pesadas malas de couro caminhou de cabeça erguida rumo ao seu futuro.

Luciah Lopez

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