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Uma pequena homenagem ao grande Cunha Santos: "O Maranhão perde o poeta da dor, mas a imortalidade perdoa"

O poeta Cunha Santos faleceu no dia 19.10.2021

20/10/2021 às 21h40 Atualizada em 20/10/2021 às 21h59
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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Ilustração: Mhario Lincoln
Ilustração: Mhario Lincoln

*Mhario Lincoln

Fomos colegas de trabalho. Companheiros em outras atividades. Parceiros de alguns bares. Mas nunca o admirei tanto como na orbe lírica de seu peito, banhado de indagações e de indignações pessoais.

Um poeta cuja paixão de um ser humano nunca seria de um simples ser humano. Paixões avassaladoras que não escolhiam Céus estrelados. Nem lua. Nem Sol.

Essas paixões pareciam surfar em ondas de larvas entre o inferno e o purgatório, conseguindo escapar de suas angústias raras vezes, pelos buracos de minhoca, uma característica topológica hipotética do contínuo espaço-tempo, imaginados no universo, desde a concepção do físico John Archibald Wheeler.

Destarte, era Cunha Santos a reencarnação de Allan Poe? De Augusto dos Anjos? Ou reassumiu um papel único de bocejar maravilhas diante de espectrais incompreendidos da surdez humana?

"(...) eu preciso desenhar a poesia/ eu preciso desenhar meu grito/ pois hoje, nem as palavras da lua/ far-me-ão descansar a caneta/ do martírio de dizer besteiras (...)".

Por isso e por tantas que eu sempre achei que John Locke estava certo em seu empirismo - mesmo que minha análise pareça maluca - cabe-me reafirmar que grande parte da obra de Cunha Santos paralelou-se entre a própria experiência externa, bem como nas sensações internas. Só discordo em um conceito de Locke: as reflexões. No caso do poeta Cunha, muitas vezes irreverente, mas ousado, não havia espaço, nem tempo, para reflexões, que não, as constantes interlocuções discursivas sempre ligadas às injustiças, amorosas, sociais ou próprias.

"Quarto de Hospício

Um cinzeiro, duas camas, uma de acompanhante,

um chuveiro bêbado, um envelope de arsênico,

dois rolos grossos, um de papel higiênico,

cascas de frutas e uma moça estonteante,

(...) Um velho cesto de lixo, sacos de leite estragado,

uma descarga, um baton e um Deus que está zangado

porque esqueci no vaso o resto da minha vida".

 

Como definir alguém, cuja vida moldou-se conforme a construção e derrubadas de muros internos? De acordo com o sino das 7 da manhã e muito mais pelo grito dos insurretos, fugindo da missa da meia-noite, pisando em vinhos espargidos na sacristia de uma alma vilipendiada e solitária?

Mas posso, sim, moldá-lo como alguém que nunca desistiu de mudar e de alcançar o que sempre sonhou e que a língua-mãe latina expressa, assim, esse sentimento: "Vellem me esse".

Há de ter descanso em paz, caro amigo!

 

**********

Abaixo, a última entrevista concedida pelo poeta, numa tarde qualquer em um shopping qualquer, num momento qualquer, onde a essência esteve presente e a sinceridade das respostas me comoveu imensamente.

"

 

19.10.2021, quando morreu o poeta Cunha Santos.

Jornalista Mhario Lincoln

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