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Hoje, a jornalista Flor de Lys aniversaria. Completa 92 anos, em uma festa simples na Dimensão Espiritual

A travessia que fez na Canoa de Caronte, não a tornou morta, porque ela está bem viva em mim

02/11/2021 às 19h48 Atualizada em 03/11/2021 às 19h21
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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Flor de Lys
Flor de Lys

Porque as lições continuam, mesmo depois de Caronte

*Mhario Lincoln

(Inclui dois vídeos de Flor de Lys, abaixo).

O tempo passa e ela nunca saiu de perto da gente. Aquele sorriso encantador. Ela não era de muitos abraços. Mas era uma mulher de ação. Ela não era de muitos elogios diretos, mas uma mulher compreensiva e reconhecida. Valorizava os que mereciam. Tentava ajudar mesmo aqueles que abusavam de sua confiança. Nunca submergiu. Ela não era de comícios, nem de autoelogios. Por isso, uma mulher confiável e respeitada. Havia concluído o ginásio e o curso normal. Mas possuía uma inteligência cultural magnânima, ensinada pela faculdade da vida. 

Fruto de uma união entre um 'sírio-libanês' e uma maranhense poeta, ela nasceu por último, dos onze filhos. Aos 5 anos, dançava e cantava na calçada alta da casa-quitanda onde morava, na cidade de Rosário-Ma, para alegrar os tropeiros que lá descansavam, enquanto o pai fornecia e organizava nos lombos dos burros, as mercadorias que seriam vendidas nas cidades ao redor daquele município e nos sítios afastados. E mesmo sem saber que em 1934, os Estados Unidos haviam conhecido a preciosa Shirley Temple, através do filme "Olhos Encantadores", essa menina interiorana do Maranhão, com rosto feliz, parecia encarnar Temple, na calçada-palco de sua casa, sem nunca ter, sequer, ouvido falar da atriz que, ao depois, veio ser um dos maiores sucessos do Mundo.

Das apresentações na calçada à música. Após vir para a capital, ela demonstrava muitas qualidades artísticas. Porém, teve que estudar e concluir o ginásio e depois matricular-se no, então, Curso Normal. Ambos, em excelentes instituições públicas da época. Na escola se destacou como artista e fez várias apresentações como cantora. Interrompeu as atividades para se casar na década de 50. 

O emprego veio junto à gravidez primeira. Infelizmente houve um aborto por má formação fetal. Ela, por isso, passou a se dedicar somente às funções no Tribunal Regional Eleitoral. Tudo passou rápido. Em 1954 engravidou de outro filho. Desta vez, com gravidez normal. O casamento durou ainda 7 anos. 

Após o desenlace, conheceu uma grande amiga que mudaria sua vida para sempre: Maria Inês Saboya, colunista de São Luís, praticamente um ícone do colunismo ludovicense. Como sabia escrever muito bem, inclusive poesias e contos, ela aprendeu rapidamente a linguagem impressa do jornal e muitas vezes substituiu Maria Inês em sua coluna diária. Depois, chamada por um outro jornal de grande circulação, passou à titularidade com coluna própria.

Na sequência veio a televisão. Ela foi uma das recordistas da TV Brasileira. Conseguiu produzir e apresentar o segundo programa televisivo mais longevo da região Nordeste, perdendo somente para um outro programa, o do jornalista José Raimundo - MATV.

Mhario, Flor e Orquídea.

O tempo passa e ela continua falando à nossa consciência. Perseverando e orientando quem dela precisa. Coisa de anjo. Será que para tornar-se anjo tem que muito sofrer?

Crente em Deus, foi responsável por ações das mais aplaudidas. Especialmente na filantropia, quando ajudava diretamente entidades que cuidavam de idosos abandonados pelas famílias ou lar de crianças de rua.

Como cidadã e mulher é um grande exemplo. Contra tudo, desquitou-se numa hora em que era explicitamente "difamado" o desquite. Especialmente pelos olhos da Igreja Católica e até mesmo pelos 'protestantes', em cuja família evangélica, nasceu. 

Nada a tirou do prumo. Lutou contra todos os preconceitos. Começou ainda no Curso do Ginásio, quando integrou a Banda Marcial Masculina, nos desfiles de Sete de Setembro, empunhando uma corneta. 

Fez o teste, foi aprovada, mas sentiu forte reação de seus pares. Venceu e foi a monitora da banda. Isso numa cidade extremamente tradicional como São Luís, nos anos 50...

Há matérias de jornais da época dando conta de que formavam-se pequenos grupos masculinos, na praça João Lisboa, a central da capital do Maranhão, para vê-la dirigindo uma Rural Willys - meio atrapalhada, mas sendo ajudada por seu incrível anjo da guarda. Há indícios fortes de que a mulher a quem me refiro teria sido a segunda a dirigir um automóvel na cidade. A primeira, garante-se ter sido a esposa de um ex-governador do Maranhão.

Porém, suas virtudes foram muito mais contundentes do que dirigir ou tocar corneta numa banda marcial. Ela teve que enfrentar momentos ainda mais difíceis.

O desquite foi uma revolução: "(...) Quis a separação contra a vontade de minha família e a da família dele, razão pela qual, acabei praticamente banida de alguns locais pela sociedade", confessou-me anos depois. Mas ela não esmoreceu. Não demorou muito para que essas mesmas pessoas a aplaudissem por suas ações corretas e dignificantes.

Mhario, Cristina, Dalvinha, Orquídea e Flor de Lys.

Contudo, a batalha continuou. Desta feita,  pela guarda dos dois filhos, desse primeiro casamento. No tribunal, uma luta digna de filmes. Um enredo de situações muito parecido com a visão do diretor Xavier Legrand, premiado como melhor diretor no Festival de Veneza de 2017, em seu filme "Custódia" (Jusqu'à la garde), que mostra na tela: "a dor do divórcio, as brigas entre o casal, a disputa pelos filhos, o processo de guarda, acusações recíprocas relacionadas à Alienação Parental e o sofrimento dos filhos". 

Muito anos antes, ela também tinha enfrentado momentos muito parecidos com esse enredo cinematográfico. Vivenciou amarguras. Porém se superou outra vez. Levou os dois filhos para casa. Educou-os com alguma dificuldade - inclusive presencial - mas fortaleceu-os com exemplos. Casou pela segunda vez e ganhou mais uma filha querida. No terceiro casamento (quebrando 'rigorosas' regras sociais, na época), ganhou outra filha carinhosa: 3 filhas e um filho mais velho. O tempo esvoaçou-se entre o antes, depois e sempre!

Até o dia em que entrou no barco de Caronte, exatamente às 15:50, no dia 29 de maio de 2011, num domingo de muito sol, sem nuvens, céu azul brilhante. Ia completar 82 anos, dia 03.11. Despediu-se deixando um legado tão forte quanto sua personalidade aguerrida e sua vontade de ser feliz da maneira como ela era.

A pessoa a que me refiro viveu num País onde a tradição patriarcal e machista da sociedade era constantemente confrontada por mulheres fortes como ela, levantando a bandeira do direito ao estudo, ao trabalho e também pelos direitos individuais e coletivos. Sempre lutou pela cidadania plena. 

Por isso, muitos dos conceitos arcaicos de alguns segmentos sociais da cidade de São Luís do Maranhão acabaram indiretamente sendo mudados, pois o exemplo dela influenciou uma geração de mulheres dispostas a lutar também, com ou sem marido. Com ou sem filhos. Com ou sem empregos fixos. 

Pois bem! Tenho um imenso orgulho dessa mulher que descrevi. Minha mãe, jornalista Flor de Lys. Sou o filho mais velho e assisti, de perto, a luta dela para garantir meus direitos, diante de juízes do tribunal local. Tinha sete anos. Minha irmã, Orquídea Santos, tinha meses de nascida. Depois vieram Cristina e Dalvinha. Presentes de Deus para nossa família, no segundo e terceiro casamentos.

Hoje, neste 3 de novembro, ela completa 91 anos e comemora numa festa simples na dimensão em que ela se encontra. Por essa razão, amanheci com vibrações no coração. Não de saudades. Mas de felicidade em sentir que Flor de Lys continua aqui, no meu sangue, nas minhas células, no meu coração, na minha alma, porque no meu entendimento, a morte é um momento da travessia do rio viático, em meio a um caminho infinito.

Acredito ser a morte, uma transformação e não um ponto final. Tenho certeza de que a despedida para essa viagem, na canoa de Caronte, não a tornou morta, porque ela está bem viva em mim, misturando-se entre as sinapses de meus pensamentos, através dos plasmas espirituais. E nessa dimensão ela sempre vibra de forma muito mais feliz que antes, onde seus sentimentos foram expandidos, os amores regenerados, outras alegrias incorporadas e com muitas das imperfeições superadas.  Isso tudo, preparando-a para uma volta gloriosa em quaisquer outros fetos, em qualquer outro minuto da eternidade.

Só sei que, agora, sou - ainda - um pedacinho dela aqui neste Planeta. 

.........................................

Então, mãe, "Dogum günün kutlu olsun", ou Feliz Aniversário como se fala na Síria, terra-berço do seu pai e do meu avô Antonio Felix. 

Mhario Lincoln,

Curitiba-Paraná,

03 de novembro de 2021

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