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Importante análise sobre a obra do imensurável Antonio Gonçalves Dias. Por Edmilson Sanches

Edmilson Sanches (Administração - Comunicação - Desenvolvimento - História – Literatura // PALESTRAS, CURSOS, CONSULTORIA).

04/11/2021 às 10h55
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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Capa do livro de Edmilson Sanches
Capa do livro de Edmilson Sanches

“A CANÇÃO DO BRASIL”

Autor convidado: EDMILSON SANCHES ([email protected])

Administração - Comunicação - Desenvolvimento - História – Literatura // PALESTRAS, CURSOS, CONSULTORIA

Foi em um mês de julho [...] que um jovem poeta, em 1843, fez (ou datou) sua mais conhecida composição: a “Canção do Exílio”. Sim, é aquela poesia que, se alguém disser “Minha terra tem palmeiras”, é quase certo que outra pessoa, ouvindo, completará, no silêncio da mente ou audivelmente: “Onde canta o sabiá”.

Das poesias mais populares que se possa lembrar (quais são?), a “Canção do Exílio” é a que logo é lembrada. Parece até que, “ab initio”, desde a formação embrionária do ser humano, em um dado momento lhe é inserido um neurônio ou grupo deles com versos dessa “Canção”. Já fiz palestras, discursos, participei de conversas em eventos em capitais e dezenas de municípios de 19 Estados e, em momento apropriado puxo assunto, refiro-me a Caxias e confirmo: a “Canção do Exílio” é conhecida de todos. É a canção “de fora” mais interna ao solo e ao sentimento pátrio, brasílico. A “Canção do Exílio” é a “Canção do Brasil”.

Embora não seja uma medida científica  --  de todo modo dispensável --, mas uma simples consulta por meio de um serviço de busca na rede mundial de computadores (Internet) diz um pouco da força desse poema, inclusive comparado a outro de muitas referências  --  “No Meio do Caminho”, de Carlos Drummond de Andrade. Por exemplo, à zero hora de 1º de agosto de 2020, no “site” do buscador mais acessado do mundo, o Google, a expressão “No meio do caminho tinha uma pedra” estava com 50.700 registros. A expressão “Minha terra tem palmeiras” aparecia 62.700 vezes, e “Canção do exílio”, 147.000 vezes. A frase “No meio do caminho” aparece 7,7 milhões de vezes, com certeza por ser expressão de uso comum, inclusive em sentido figurado, com o sentido de “no percurso da vida / de um tempo / de algo”, ou “durante o decorrer de algo / do tempo / da vida” etc.), De qualquer modo, em todos os casos, nem sempre as expressões “No meio do caminho tinha uma pedra”, “No meio do caminho”, “Canção do exílio” e “Minha terra tem palmeiras”, devidamente aspeadas, referem-se aos títulos e/ou versos dos poemas do escritor maranhense e do escritor mineiro. Aqueles números, pois, considere-se uma curiosidade, um “divertissement”.

Nascido no dia 10 de agosto de 1823, o caxiense Antônio Gonçalves Dias ainda não completara 20 anos quando, em julho de 1843, teve à frente de seus olhos, feita, a “Canção do Exílio”. Três anos depois, de volta ao Brasil, agora morando no Rio de Janeiro (RJ), Gonçalves Dias fica sabendo, em agosto de 1846, que já está em fase de provas, na tipografia dos irmãos Laemmert (Eduardo e Henrique), o seu primeiro livro, não sem razão “Primeiros Cantos”. E neste livro primeiro, o canto primeiro é uma canção  --  a “Canção do Exílio”, que é, sem favor, a canção do Brasil, tal o modo como naturalmente “grudou” na alma e na memória dos brasileiros, em especial o primeiro quarteto e, neste, os dois primeiros versos: “Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá”.

Registre-se que, antes de desembarcar no Rio de Janeiro, em 7 de julho de 1846, Gonçalves Dias, pode-se dizer assim, matou a saudade de sua terra natal, o Maranhão, pois, tendo saído de Porto (Portugal) em janeiro de 1845, chegou aos primeiros dias de março a São Luís, sendo recebido e hospedado pelo seu maior e melhor amigo Alexandre Teófilo de Carvalho Leal... e já no dia 6 daquele mês viajou para Caxias, onde ficou na casa da sua madrasta. Enquanto em Caxias, por cerca de dez meses, prestou alguns serviços profissionais, fez algumas declamações e vivenciou algumas chateações... Decide retornar a São Luís, o que ocorre em janeiro de 1846, sendo novamente acolhido por Alexandre Teófilo, que mais tarde providencia para o Poeta, por meio de autoridade estadual, a passagem para o Rio de Janeiro, dia 14 de junho daquele ano.

Ressalte-se que foi em seu período de permanência em Caxias que Gonçalves Dias começou a escrever, em junho de 1845, seu livro “Meditação”, que teve partes publicadas em jornal, em 1850. “Meditação” é um diálogo entre um velho e um jovem, uma explícita crítica política e social a diversos aspectos do Brasil daqueles meados do século 19, entre os quais a escravidão. Em “Meditação”, conforme desde 2017 já escrevi e publiquei em jornais, livro e meios digitais, há parte de uma fala do ancião que trata de “ordem e progresso” (Capítulo Terceiro, XII): “E não pelejais por amor do progresso, como vangloriosamente ostentais. // “Porque a ORDEM E PROGRESSO são inseparáveis: -- e o que realizar uma obterá a outra.” (Destaque meu). Isso foi escrito em 8 de maio de 1846, seis anos antes da publicação, em 1852, do livro “Système de Politique Positive”, de Auguste Comte, onde o tema/lema “ordem e progresso” retorna e é posteriormente apropriado pelo filósofo, matemático e escritor caxiense Raimundo Teixeira Mendes no seu projeto da Bandeira do Brasil, entregue por ele no dia 19 de novembro de 1889 e adotado pelos marechais da recém-nascida República brasileira, proclamada quatro dias antes, em 15 de novembro.

Livros de Edmilson Sanches & Acervo Pessoal.

O “LOCUS” --  TERRITORIAL E ANÍMICO

  O ambiente espaço-temporal onde foi escrita a “Canção do Exílio” é, o ano, 1843, e o lugar, Coimbra, uma das mais antigas cidades da Europa, fundada em 1111, mas existente como Condado de Coimbra desde o ano 871.

Desde 1840 Gonçalves Dias estudava na Universidade de Coimbra (fundada em 1290). Em 1842 ele dividia com amigos o número 5 da Rua de São Cosme. Depois, nesse mesmo ano, mudou para o número 170 da Rua de São Salvador, na região da Sé Nova, onde está a Universidade de Coimbra e sua Faculdade de Direito, curso que o caxiense concluiu. Somente em outubro de 1843 Gonçalves Dias voltou a trocar de endereço, para morar com amigos na Rua do Correio, número 60.

Então, em julho de 1843, quando compôs a “Canção do Exílio”, o caxiense morava na Rua de São Salvador. Perto dessa rua também passa o rio Mondego, de 258 quilômetros, que é o Itapecuru de Portugal, ou seja, é o maior rio genuinamente português, como o Itapecuru, com 1.041 km (quatro vezes a extensão do Mondego) é o maior entre os que nascem e desaguam dentro do território maranhense. (Mondego vem de “Munda”, palavra latina que significa “puro”, “transparente”, e foi o nome que os romanos deram ao rio, que devia ser bem limpo, no início da Era Cristã, quando César Augusto, fundador do Império Romano, fundou a cidade, com o nome “Aeminium” (Emínio = “elevação”, em Latim), na área da atual Coimbra).

Claro, não se sabe onde exatamente ocorreram os processos de inspiração, reflexão, elaboração, reelaboração e a forma final da “Canção do Exílio”. Foi um Gonçalves Dias observando o rio Mondego mas olhando mais para dentro de si? Ou foi andando da Rua de São Salvador e passando por diversas quadras até a Universidade ou por uma dúzia de quarteirões, mais ou menos, até o rio? Ou foi no quarto, na residência da estreita Rua de São Salvador, quem sabe no silêncio da noite ou em meio a algazarras de colegas e amigos jovens, bons maranhenses, que tanto tinham apreço pelo Poeta e que o convidaram para morar com eles e lhe custearam despesas? Ou foram pedaços de tudo isso “y otras cositas más” que nós, os que escrevemos, sabemos como “a coisa” é mas não sabemos como se explica  --  se é que tem explicação...? 

Esses processos criativos dão-se pelo cultivo de áreas no imenso latifúndio da mente. Não há, lamentavelmente, quiçá, uma disciplina ou estudo chamado Etiologia Poética, que pesquise e determine causas, origens, princípios, razões do fazer literário, poético sobretudo, e de tudo o mais antes e depois disso  --  lembrando que, além da desnecessidade de explicações, na arte de escrever com arte, a última coisa que se faz é... escrever.

O “LÓGOS” – ETIMOLÓGICO E SIMBÓLICO

As três palavras que fazem o nome do poema (“canção”, “do”, “exílio”), coincidentemente, entraram na Língua Portuguesa no mesmo século 13.

“Canção” tem em sua origem mais remota o indo-europeu, a língua pré-histórica (re)construída por especialistas em Linguística e Filologia. Nesse idioma, uma raiz “kan-” chegou ao Latim e pariu formas verbais e substantivas como “cano”,  “canere”, “cantare”, “cantus”, “cantionis” / “cantationis”. Destas duas últimas vem nossa “canção”.

Já a contração “do” resulta da junção da preposição “de” (mesma grafia em Latim) com o artigo definido masculino singular “o” (antigamente “lo”, vindo do Latim “illu” ou “illum”).

Por sua vez, “exílio” é explicado por duas etimologias: uma  --  tida às vezes por “etimologia popular” --  registra que essa palavra provém do Latim “exsilium”, formado pela união do prefixo latino “ex-” (originado da preposição latina “exle”, que expressa um movimento para fora ou ser tirado de um lugar) à palavra “silium”, uma forma apofônica (mudança de vogal) do substantivo “solum” (solo). Assim, “exsilium”, convenientemente, é a condição daquele ou daquilo que é tirado de seu lugar, que é colocado para fora de sua terra, seu chão, seu solo.

A outra origem nega aquela conveniente formação etimológica e explica que, na protolíngua (a língua-mãe, o indo-europeu), “exílio” é resultado do mesmo prefixo latino “ex-” à frente da raiz indo-europeia “al-”, com a vogal mudada (apofonia) para “ul-”, que deu em latim “exul”, “exulis”, trazido para o Português como “êxule”, palavra constante dos dicionários de nossa Língua e que significa “exilado”, “banido”, “proscrito”, “desterrado”  --  pois a raiz “al-” / “ul-” significa “andar”, “passear”, o que remete ao mesmo sentido de levar/levado para fora.

Evidentemente, ao pé da letra, ou da palavra, ou da Etimologia, Gonçalves Dias não foi e não era propriamente um exilado. Seu poema é resultado de um sentimento, não de um banimento. É despiciendo dizer-se/escrever-se acerca do como, quando, onde, por que, para que, que impregnam ou dão origem ao “animus” poético, ao “modus faciendi” literário.

A “RATIO” --  COMPLEXIDADE NA SIMPLICIDADE

Por que a “Canção do Exílio” é ou tornou-se tão popular? O que nela há que leva outros escritores, poetas, autores a apropriarem-se honrosa e honradamente, humilde e humoradamente do título e dos versos dela em títulos e em versos deles? Livros de poesia e prosa, obras teatrais e musicais (e nem se fale da profusão de trabalhos acadêmicos, da graduação ao pós-doutorado)  --  são muitos os esforços e realizações intelectuais, culturais, artísticos, literários, musicográficos sobre ou inspirados naquele poema gonçalvino.

Que magia, fascínio, encantamento se esconde e se revela por aquelas cinco estrofes (três quadras ou quartetos e duas sextilhas) com 24 versos, 113 palavras, 487 letras?

Desconheço, e não procurei saber se há, alguma contagem ou estatística acerca dessa influência ou ressonância e respingos da aparentemente despretensiosa e romântica composição de Gonçalves Dias.

O insuspeito romancista Machado de Assis já corroborava minha exótica alusão de inserção neuronal, por algum modo, em cada brasileiro que se gera e nasce. Machado assegurou, a plena voz: a “Canção [do Exílio] está em todos nós”. Foi em discurso em junho  de 1901, no Rio de Janeiro (RJ), quando se inaugurava um busto do Poeta caxiense, que havia morrido há 16 anos, em águas vimaranenses, na costa maranhense.

Wilton José Marques, pós-doutor pela Universidade de Campinas (Unicamp), que pescou a informação acima na “Revista da Academia Brasileira de Letras” de agosto de 1927, também não economiza: “Desde o seu aparecimento em ‘Primeiros Cantos’ (1846), a ‘Canção do Exílio’ [...] tornou-se uma unanimidade geral [...]”. E ainda: “[...] a natureza brasileira atingiu com a ‘Canção do Exílio’ uma dimensão única, elevando-se à condição diferenciada de símbolo de nossa nacionalidade. As palmeiras, o sabiá, as nossas estrelas, os nossos bosques  -- que, inclusive, mais tarde seria incorporado à letra do hino nacional --, cantados pelo poema, ganharam um valor simbólico que, de imediato, caiu no gosto popular brasileiro”. E, já no final de seu artigo (“O Poema e a Metáfora”, “Revista Letras”, Curitiba, nº 60, julho/dezembro de 2003), o ilustrado acadêmico reitera: “[...] a força do poema gonçalvino é tal que, inclusive, exerceu  -- num contrafluxo – influência sobre a literatura portuguesa”. Wilson José Marques diz que as paródias “dão indícios claros da persistência poética da ‘Canção do Exílio’ e de sua importante contribuição para o delineamento da literatura nacional”. E finaliza, como últimas palavras de seu texto, afirmando que esse poema “fundou por si uma tradição na literatura brasileira que, ainda hoje, encontra ecos”.

Lúcia Miguel Pereira, na sua conhecida e reconhecida biografia do poeta maranhense, “A Vida de Gonçalves Dias”, de 1943 (portanto, no centenário de nascimento do caxiense), mencionou “o valor de mostrar a repercussão dos versos de Gonçalves Dias” ao fazer uma anotação sobre uma paródia  da “Canção do Exílio” -- uma das primeiras, publicada em jornal de janeiro de 1848, exatos dois anos após a circulação dos exemplares de “Primeiros Cantos”, em janeiro de 1847 (mas o ano de edição consignado no livro é 1846).

Um dos mais conhecidos filólogos e dicionaristas da Língua Portuguesa   --  e também crítico literário --, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira publicou em 1958 uma obra de ensaios, “Território Lírico”. O livro traz 12 textos, que tratam, entre outros, dos poetas portugueses Antero de Quental, Camões e Fernando Pessoa, do poeta francês Paul Verlaine, do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade... e de Gonçalves Dias. Aliás, é com o poeta maranhense que Aurélio Buarque abre sua coletânea ensaística e lhe dedica um trabalho de 11 páginas, “À Margem da ‘Canção do Exílio’”. É neste ensaio que o lexicógrafo alagoano registrou o que seu olhar clínico percebeu na “Canção” gonçalvina, 111 anos depois da circulação dos “Primeiros Cantos”: a absoluta inexistência de adjetivos entre as 113 palavras do poema que abre a edição “princeps” do livro. Aurélio ainda ressaltou “a admirável técnica de repetição” na poesia.

Sobre essa “repetição”, Manuel Bandeira, o notável poeta, tradutor e crítico pernambucano, no trabalhoso e magnífico estudo “A Poética de Gonçalves Dias”, que integra seu livro “Gonçalves Dias: Esboço Biográfico”, de 1952, já antecipava “o partido que o poeta sabia tirar do estribilho” e dizia da “amorável musicalidade de muitos dos seus poemas [de Gonçalves Dias]”, entre eles a “Canção do Exílio”. Segundo Bandeira, “foi, sem dúvida, Gonçalves Dias o poeta brasileiro que mais profundamente e extensamente versou a nossa língua [...]”.

Para não tornar ainda mais exaustivas as exemplificações acerca da importância e da influência da “Canção do Exílio”, retornemos a Carlos Drummond de Andrade, o mineiro que foi considerado, em sua época, o maior poeta vivo do Brasil (depois de seu falecimento, em agosto de 1987, foi sucedido pelo pernambucano João Cabral de Mello Neto [1920-1999] e este, pelo maranhense Ferreira Gullar e, com a morte deste, em 2016, dizem as boas línguas que o informal título de maior poeta vivo estaria com o sóbrio, disciplinado, enfim, apolíneo Salgado Maranhão, não por acaso nascido na mesma Caxias de nós três  --  o poeta universal Gonçalves Dias, o federal Salgado Maranhão e Edmilson Sanches, inspetor de quarteirão...).

Mas... falávamos sobre Drummond e a influência ou respingos, nele, da “Canção do Exílio”. Em agosto de 1997, nos dez anos da morte de Drummond, o Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia publicou uma pequena coletânea de 11 poemas, dedicados ao poeta itabirano, com o título “Minha Terra tem Palmeiras”. Para agradável surpresa minha, fico sabendo, logo no início do texto introdutório do livrinho, que “‘Minha Terra tem Palmeiras’ foi o primeiro título pensado por Drummond para o livro ‘Alguma Poesia’, publicado em 1930”  -- e que li na adolescência, em edição da Nova Aguilar, em papel-bíblia, que reúne 15 livros de poesia e oito de contos e crônicas drummondianos, mais todo aquele aparato crítico e histórico daquela sessentã casa publicadora. 

Outra revelação sobre o título desejado inicialmente por Drummond para seu primeiro livro: “Embora tenha sido considerado por Mário de Andrade um GRANDE ‘ACHADO’  --  do qual ele CHEGOU A SENTIR INVEJA, como confessa em carta escrita a Drummond em torno de 1925 --, por algum motivo esse título terminou sendo abandonado” (maiúsculas por minha conta).

 

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