MUITAS VOZES: THANATOS E ASAS DO GULLAR
“e ninguém vive a morte, quer morto quer vivo, mera noção que existo, só enquanto vivo”. (Ferreira Gullar)
Convidado: PAULO RODRIGUES – Professor de Literatura, poeta, escritor autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017) e Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018).
Muitas Vozes (54 poemas sobre a vida, o trágico, infância, São Luís e a morte), fora editado em 1999. Faz parte da longa caminhada do poeta, em direção ao processo que o transformou na mais importante voz da poesia brasileira. Além disso, apresenta o barulho da metamorfose, na linguagem do autor de Poema Sujo.
O homem José de Ribamar Ferreira atravessou o século XX e início do XXI com uma capacidade de mudar, de transformar-se, de se pensar, pensando o universo infinito. Essas reflexões estão tatuadas na sua escrita. O título estudado nesta resenha comprova isso. Muitas vozes é um conjunto amplo, polifônico, questionador sobre a existência.
Ele carrega o pensamento na ponta da palavra. Perece mesmo que sente as vibrações dos penhascos, as pequenas aflições cotidianas, os passos do poeta e do mundo em câmera lenta. Elabora pensamentos que não deixam de sentir, com uma linguagem límpida.
É um autor que explora com profundidade a clareza das cenas humanas. Tudo nele parece simples. Tudo nele é profundo como no poema TATO:
na poltrona da sala
as mãos sob a nuca
sinto os dedos
a dureza do osso da cabeça
a seda dos cabelos
que são meus.
a morte é uma certeza invencível!
mas o tato me dá
a consciente realidade
da minha presença no mundo.
As pegadas do Gullar vão ficando pelo caminho. Deixam, portanto, o caminho para a volta. Fazem referências ao vivido para denunciar a visão dele sobre a morte. Não existe dor, nem incompreensão nos versos. O eu poético busca em Thanatos, símbolo exuberante da morte entre os gregos, a expressão robusta para o tema.
Estamos presentes e fortes no palco, mas seremos derrotados!
Sócrates definiu a filosofia como: “a preparação para a morte”. Parece que sem a ‘indesejada’ não existiriam as indagações. Gullar não buscou na poesia a sua preparação para o fim. Tão pouco queria uma poesia aflita como os escombros que irão nos soterrar.
No poema MAU DESPERTAR o autor consegue estender o rosário do homo universalis. Atinge o Sono, irmão de Thanatos. Ambos são inimigos implacáveis da nossa possível realização:
saio do sono como
de uma batalha
travada em lugar algum.
não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho riscado de hematomas.
zonzo lavo na pia
os sonhos donde
ainda escorrem
uns restos de treva.
Thanatos possui uma urna e uma borboleta. Julga-se que na urna contêm cinzas; a borboleta, sempre que possível, abre o voo (símbolo da esperança). O poeta sai da batalha do sono, derrotado. As cinzas são lavadas na água corrente: uma imagem do permanente e da mudança. Mesmo zonzo, os sonhos ainda escorrem, na manhã.
É comum neste poeta, a revisitação dos pontos fortes da sua poesia como podemos perceber no poema THAT IS THE QUESTION:
dois e dois são quatro:
nasci, cresci
para me converter em retrato?
em fonema? em morfema?
aceito ou detono o poema?
Busca aqui um clima de dificuldade para aumentar o questionamento de Shakespeare. Na realidade, ele nunca aceitou as imposições do mundo, nem as suas próprias imposições. Detonou as formas poemáticas ao longo de mais de vinte lustros de atividade literária.
Encerro com uma frase muito repetida pelo Gullar: “a morte é o nada”. É mesmo, mestre!
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