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Imortal APB Paulo Rodrigues lançará um novo livro: "Cinelândia". Veja resenha.

Resenha escrita pelo historiador Baltazar Gonçalves. (original de: https://depoiseuconta.blogspot.com/)

20/11/2021 às 17h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: #Cinelândia. Divulgação
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Original de https://depoiseuconta.blogspot.com/
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Resenha de CINELÂNDIA, do poeta Paulo Rodrigues

Quando o poeta maranhense Paulo Rodrigues sai às ruas do Rio de Janeiro seus olhos são câmeras nas mãos, e na cabeça uma ideia toma forma viva: CINELÂNDIA.

A voz do morro rasgou a tela do cinema

E começaram a se configurar

Visões das coisas grandes e pequenas

Que nos formaram e estão a nos formar

CINEMA NOVO, Caetano Veloso

Livro de poemas curtos e cenas (infelizmente) cotidianas, é de leitura rápida mas que pede pausas pois é preciso digerir a beleza incrustada na miséria e resolver o dilema: o que se faz com o sereno incômodo que o Belo provoca em nós?

Esse livro do poeta Paulo Rodrigues tem estrutura simples, arquitetada em três momentos e dirigida como um filme: CLAQUETE - CENA 1 - CENA 2 - THE END. A beleza nos arranjos de versos sem rimas, mas de ritmos cadenciados, vem da feiura e da sujeira que os sistemas econômicos geram, dos maus tratos impingidos àqueles que estão à margem das margens, no cômodo de aluguel de onde seremos despejados, na calçada frente à igreja onde a classe média expia sua culpa, nas sarjetas ou no desejo de quebrar o oratório enquanto os outro rezam de joelhos porque AS MANHÃS NÃO TÊM OFERTAS, NEM PROMOÇÃO:

os filhos olham para a escada

há uma lesão na luz,

de todos eles

o mais velho desce primeiro

e pergunta:

apago as velas

ou quebro o oratório do quarto?

os outros ajoelharam;

amarraram as camisas,

seguram o terço da mãe.

 

CINELÂNDIA, p.61

Ao manusear a linguagem e as tecnologias da palavra, a sensibilidade do artista Paulo Rodrigues é combatente. Esse Drummond de Santa Inês nos inquire como o outro na primeira quadra do século XX: “Preso à minha classe e a algumas roupas, / vou de branco pela rua cinzenta. / Melancolias, mercadorias espreitam-me. / Devo seguir até o enjoo? / Posso, sem armas, revoltar-me?”. E como se respondesse a pergunta do poeta mineiro, o maranhense nos brinda com AS MANHÃS SÃO PORTA RETRATOS:

durmo entre dois filhos.

eles apertam-me

como um comício

aperta o povo.

abro os olhos,

ainda é madrugada.

encaro pés

que parecem um pouco com braços

mas não abraçam

a vida (contraditória).

fico no fundo da cena.

aguardo uma luz

que nasce do fundo

da rua.

CINELÂNDIA, p.19

Sem explicitar ideologias panfletárias, nas ruas becos vielas praças mocambos e quartos de despejo, a “rosa do povo” abre-se estandarte nos versos de Paulo Rodrigues denunciando a exploração predatória do homem pelo homem nesse zoológico pós-moderno: a Cinelândia é aqui, agora do outro lado rua onde o leitor está.   

O comum abjeto nas ruas tomado por normal, o ser humano exposto à degradação que a pobreza e a exclusão legam às comunidades em todo país; o poeta revela as misérias humanas: tanto nas relações de poder estabelecidas há séculos, quanto a impotência dos sujeitos-personagens feitos à semelhança do criador. Somos inseridos, no tempo de uma piscadela, no cenário ressequido de onde ATÉ O CÃO FOI EMBORA:

amanheci sem pipas no céu,

sem vento de praia,

sem uma flor na boca.

havia um piano abandonado

no meio da sala.

CINELÂNDIA, p.67

O conjunto de poemas do livro de Paulo Rodrigues é puro movimento, fotogramas do registro do real entrecortado pela subjetividade alerta, consciente dos pontos cegos de intersecção entre o que pode ser mudado e perdura arrebatador.

Na leitura de CINELÂNDIA continuamos o processo de edição das cenas e mergulhamos no interior da nossa própria experiência para trocar indignação e afeto, somos banhados por aquela luz difusa com que Felini projetou Satyricon e bebemos as imagens sem filtros criadas por Paulo Rodrigues.

O poeta recompõe cenas de curta duração, mas de alto impacto, seja pelo uso da linguagem ou pelas referências sem metáforas descuidadas com que escreve contraluz iluminando sobras. Impactado pelos efeitos visuais das imagens poéticas, o leitor certamente se sentirá como eu me senti, absorvido, porque...

há milhões desses seres

Que se disfarçam tão bem

Que ninguém pergunta

De onde essa gente vem

São jardineiros

Guardas-noturnos, casais

São passageiros

Bombeiros e babás

Já nem se lembram

Que existe um Brejo da Cruz

Que eram crianças

E que comiam luz

(BREJO DA CRUZ, Chico Buarque)

No Rio de Janeiro, o nome Cinelândia popularizou-se a partir dos anos 30 quando dezenas de teatros, boates, bares, cinemas e restaurantes instalaram-se na região entorno da Praça Floriano, no centro englobando a área desde a Avenida Rio Branco até a Praça Mahatma Gandhi onde antes ficava o Palácio Monroe. Os versos do poeta tomam a  referência “diversão e cultura” e nos entrega os destinos daqueles indigentes que só aparecem nas páginas policiais das notícias populares e obituários onde seu nome pouco ou nada importa. 

Os habitantes da CINELÂNDIA de Paulo Rodrigues são aqueles que foram proibidos de entrar na “disneylândia”, no “maravilhoso mundo do consumo”, esse livro dobra, cobra e cobre, desde as ruas de Santa Inês até os arcos da Lapa no Rio, nossa perplexidade e assombro deixando-nos frente ao Cristo; indiferente, mas ainda redentor.

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Baltazar Gonçalves é historiador, escritor poeta membro da academia Franca de Letras. Seu segundo livro de poemas "DEPOIS EU CONTA: DIÁRIO DOS MISERÁVEIS" foi lançado pela editora Penalux. 

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Serviço:

Direto com o autor no seu perfil do facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100004051167045

Ou no site da Editora: http://www.editorafolheando.com.br/pd-8bceaa-cinelandia.html?ct=&p=1&s=1

 

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