Sobre o livro "A Bula dos Sete Pecados", do poeta Mhario Lincoln.
Resenha: Keila Marta. (Keila Marta Melo Grama é Analista, consultora e ensaísta literária. Graduada em Letras Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa – Uemasul. Membro efetivo da Academia Poética Brasileira).
Querido Mhario, foi com grande alegria e contentamento que pude ler, apreciar e analisar cada detalhe do seu livro, A Bula dos Sete Pecados, mesmo sem poder folhear, sentir o cheiro do papel novo, mesmo na frieza da tela do celular ou do computador tive o prazer de sentir a energia das suas palavras.
Logo na capa, o livro chama a minha atenção, por apresentar uma ilustração sutil e bastante simbólica. Por sua vez, o título na posição inferior as imagens, passa a ideia de complementaridade, possibilitando uma leitura imagética e de antecipação, como um enigma.
Em um primeiro olhar, falar da sua escrita parece tarefa fácil, posso afirmar ela é enxuta, no entanto tem acabamentos de mestre. Algo semelhante ao que faz o artesão, ao pegar um material denso, como a madeira, esculpe, flores, pássaros, pessoas e outros detalhes, dando a ela refinamento. Desse modo, o tom das palavras depende muito de quem as delineiam, por isso, as suas são suaves como plumas.
É, portanto uma leitura fluida, prazerosa, onde os pequenos pensamentos, poemas e crônicas abordam temas universalmente comuns aos sentimentos e atitudes humanas, quase sempre direcionando a atenção para o clássico. Ou seja, A bula dos sete pecados, convida o leitor a ir mais longe.
Essas observações se confirmam na nota Releituras, pois o poema Estranhas Frutas aborda uma temática pontualíssima que é o preconceito racial e de forma bastante enriquecedora tem como referente uma clássica música negra norte-americana eternizada na voz de Billie Holiday, uma grande artista que sofreu na pele os efeitos das desigualdades, que segundo Zuza Homem de Mello¹ ela foi “montando as durezas da vida para poder colocar para fora tudo nas canções que cantou” até mesmo nos detalhes expressivos do rosto.
Desse modo, o poema reafirma a estranheza, que a presença negra causa aos olhos do preconceituoso ao dizer logo no primeiro verso, “Árvores do Sul produzem uma estranha fruta”, e apresenta em seguida a perpetuação do sofrimento que é passado de geração em geração, “Sangue nas folhas e nas raízes”.
Folhas (novas gerações)
Raízes (origem, ancestralidade)
E, é uma constatação, o sangue humano manchou árvores na história recente dos Estados Unidos até meados do século XX, homens negros perderam suas vidas, pendurados como “frutas”,
Corpos negros balançam sob a brisa do Sul
Estranha fruta pendurada nos álamos
Cena bucólica do valente Sul.
Além do mais, todo o movimento de problemas e saídas, ganha corpo através de um eixo norteador, que é demonstrado através do bom sentimento de quem escreve pensando nas pessoas e para as pessoas, desde o prefácio até a última linha. Mhario Lincoln, redige para entreter e automaticamente educa, e com alguns versos mais intimistas fala de si e dos seus.
É imprescindível dizer, que o poeta brinca com os efeitos e sentidos de sonoridades das rimas, fazendo uso de recursos estilísticos por meio das figuras de sons, como a aliteração presente no poema “Eu e Minhas Ciganas”, que acontece através das repetições das consoantes m e n, de forma que todas as palavras no fim de cada verso se harmonizam com o substantivo cigana.
Por que amo tanto, ciganas?
Uma cigana
Fata Morgana
Rosto nirvana.
A alma engana?
O coração reclama
A libido inflama
[...]
Enfim, por meio desse livro outras pessoas têm a oportunidade de ter a companhia da boa literatura e de quem teve uma infância bem vivida, como descrita no primeiro texto do prefácio, e consegue ao longo dos anos manter a alegria, a generosidade e o entusiasmo. Mhario é sem dúvida um exemplo de pessoa que se confirma a mensagem que Ziraldo transmite com o personagem O menino maluquinho, que a criança intensa, realizada no seu dia a dia, continua sendo feliz na vida adulta.
Gratidão por me proporcionar esse contato com um livro seu, ainda inédito.
Keila Marta
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Nota:
¹Fragmento retirado da fala Zuza Homem de Mello ao canal Casa do Saber disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oZcGlGcurL8
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