
INCISÕES POÉTICAS
“esquadro de sobras
um rio que mendiga
possuído por olhos”.
Sebastião Ribeiro
O poeta contemporâneo maranhense, Sebastião Ribeiro, é uma voz importante desta quadra histórica. Sabe traçar imagens (em forma de cangapés), retira os excessos da metáfora, buscando a limpidez da linguagem. É um poeta maduro, certamente.
Lançou o livro MEMENTO na Livraria e Espaço Cultural AMEI, no São Luís Shopping, dia 12 de novembro de 2021. Eu o recebi na última segunda-feira, não consegui esperar. Parei a leitura de A Guerra do Fim do Mundo do peruano Mario Vargas Llosla para iniciar uma viagem tocante pelo poemário, editado pela Penalux, com 108 páginas vibrantes.
O poeta e ensaísta Bioque Mesito comenta no texto de orelha: “o livro tem que ser lido sob a ótica do estranhamento. Digo isso, por MEMENTO não se limitar a versos que muitos leitores estão acostumados, versos de soar romântico ou que traduzem o bem-estar da vida”. É verdade, há um elo entre a construção poética e a realidade que provoca o alargamento da percepção do leitor. Um trabalho sintático próprio, uma dicção incisiva.
Chamou-me a atenção, o poema Yousuke Yamashita:
Se estou
o músico insistente
na última nota pétrea
perfurante
/
sou o piano aberto
flamejante
querendo voar
(SEBASTIÃO RIBEIRO, 2021, p. 47)
O poeta faz a transfiguração das emoções humanas no instrumento musical: “sou o piano”, num ato de ruptura com o racional, porque a máquina quer voar. Yamashita teve uma forte influência do jazz, logo vibrou com a dissonância do universo.
Sebastião usa o desconcerto, a insistência do músico para provocar o corte com os versos que finalizam o texto: “sou o piano aberto/ flamejante/ querendo voar”.
Muitos aspectos da obra revelam o universo da poética incisiva de Sebastião. Ele caminha num corpus distante do trivial, faz o corte certo na linguagem, por isso no ensina “há incêndios no/ peito e no espaço/ indagando meus/ taquicar/ dias”.
É certamente, leitura obrigatória.
-------------------------------------------------
Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia. Especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018). Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório. Venceu o prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro Cinelândia. É membro da Academia Poética Brasileira.
e-mail: [email protected]
Mín. 13° Máx. 20°