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Escritor premiado Paulo Rodrigues (APB/MA) resenha novo livro de Sebastião Ribeiro

Publicação autorizada pelo autor, vice-presidente regional da Academia Poética Brasileira, no Maranhão.

25/11/2021 às 10h23
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
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Rodrigues e Ribeiro.
Rodrigues e Ribeiro.

INCISÕES POÉTICAS

“esquadro de sobras

um rio que mendiga

possuído por olhos”.

Sebastião Ribeiro

     O poeta contemporâneo maranhense, Sebastião Ribeiro, é uma voz importante desta quadra histórica. Sabe traçar imagens (em forma de cangapés), retira os excessos da metáfora, buscando a limpidez da linguagem. É um poeta maduro, certamente.

     Lançou o livro MEMENTO na Livraria e Espaço Cultural AMEI, no São Luís Shopping, dia 12 de novembro de 2021. Eu o recebi na última segunda-feira, não consegui esperar. Parei a leitura de A Guerra do Fim do Mundo do peruano Mario Vargas Llosla para iniciar uma viagem tocante pelo poemário, editado pela Penalux, com 108 páginas vibrantes.

     O poeta e ensaísta Bioque Mesito comenta no texto de orelha: “o livro tem que ser lido sob a ótica do estranhamento. Digo isso, por MEMENTO não se limitar a versos que muitos leitores estão acostumados, versos de soar romântico ou que traduzem o bem-estar da vida”. É verdade, há um elo entre a construção poética e a realidade que provoca o alargamento da percepção do leitor. Um trabalho sintático próprio, uma dicção incisiva.

      Chamou-me a atenção, o poema Yousuke Yamashita:

Se estou  

              o músico insistente

              na última nota pétrea

              perfurante

              /

              sou o piano aberto

              flamejante

              querendo voar 

(SEBASTIÃO RIBEIRO, 2021, p. 47)

    O poeta faz a transfiguração das emoções humanas no instrumento musical: “sou o piano”, num ato de ruptura com o racional, porque a máquina quer voar. Yamashita teve uma forte influência do jazz, logo vibrou com a dissonância do universo.

    Sebastião usa o desconcerto, a insistência do músico para provocar o corte com os versos que finalizam o texto: “sou o piano aberto/ flamejante/ querendo voar”.

     Muitos aspectos da obra revelam o universo da poética incisiva de Sebastião. Ele caminha num corpus distante do trivial, faz o corte certo na linguagem, por isso no ensina “há incêndios no/ peito e no espaço/ indagando meus/ taquicar/ dias”.

      É certamente, leitura obrigatória.

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Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia. Especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018). Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório. Venceu o prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro Cinelândia. É membro da Academia Poética Brasileira.  

e-mail: [email protected]

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