
Natal dos Invisíveis
Jorge Cruz – Olinda 23/12/2021
A voz chegava de mansinho e dizia: “Vim te ver”.
Aquilo me assustava, abria os olhos e não via nada. Como esse nada fosse comum em minha vida. Voltava a fechar os olhos. Assim eu não via o tempo passar. A fome era o meu despertador e tentava me levantar. Precisa acabar com aquela dor da fome. Olhei com surpresa e lá estava um saco com comida dentro. Ainda quentinha. Quem será esse anjo? Será aquela da voz?
Como e volto a fechar os olhos. Agora sem fome, espero por mais um dia. Espero o que? Não sei. Dias, meses, anos e a mesma coisa. Por que insisto em ficar vivo?
A voz apareceu novamente: “espero que esteja bem”.
Sobressaltei-me e num pulo me sentei. Procurei a quem me disse isso e mais uma vez o saco com comida estava lá.
Pensei que já estivesse morrido e que era normal isso no mundo dos mortos, mas vejo as pessoas passando na calçada. Os mesmo olhares: pena, desprezo, raiva, aqui e acolá compaixão, mas os olhos de quem eu procuro nunca os encontro. É. Não morri ainda...que pena!
“Feliz aniversário”.
Agora é demais! Quem foi? Procurei e nada. Como assim?! Aniversário de quem? Ao meu lado um bolinho, graciosamente decorado com glacê. Sim. Ainda me lembro o que era glacê. Depois de tanto tempo. Aniversário!? Seria o meu? Perguntei a uma pessoa que passava que data era hoje. Ela quase não me respondeu. Olhou-me com desprezo como quem diz: “pra que um mendigo que passa o dia todo dormindo quer saber a data?” Abusado respondeu: “24 de dezembro” e depois, meio que tocado pela lembrança da data, soltou um “feliz Natal” entre os dentes de um sorriso forçado.
24 de dezembro, realmente era o que diria ser o meu aniversário. Tempos atrás eu comemorava com minha família. Sim, tinha família. Esposa e filha. A memória falha e não lembro bem dos seus rostos. Também, depois de tantos anos de alcoolismo e drogas diversas, minhas lembranças ficaram borradas. A saudade veio levemente apertar o meu peito...Ah, melhor assim! Viveram com certeza muito melhor sem mim. Afastei o pensamento de família pra longe.
Saboreei o bolo mimoso. Estava uma delícia. Voltei a fechar os olhos. Queria que este dia passasse o mais rápido possível.
“Feliz Natal”.
Com um bote estendi a minha mão para segurar quem era a voz, antes que ela desaparecesse. Agarrei um braço, fino, pensei. Abri os olhos ainda deitado. A moça estava espantada. Arregalou os olhos e quase caiu sentada.
_ Então é você o meu anjo? Disse para a moça assustada, mas que logo se recompondo do susto confirmou.
_ Sim sou eu mesma. Desculpa se lhe acordei tão cedo. É que eu trabalho muito cedo e é a única hora que eu tenho de vir lhe trazer alguma coisa.
_ Por que você faz isso?
_ Então, não se lembra de mim? Disse a moça mais linda que eu já tinha visto.
_ Desculpa, não sei quem você é. É de alguma igreja? De vez em quando eu entro em uma para me proteger do vento frio.
_ Pai, eu sou Lívia, sua filha. Da moça surgiram duas lágrimas que correram suas faces e pingaram na calçada.
Então, aquelas lembranças que lhe apertavam o peito, vieram mais fortes. Misto de alegria e dor, ternura e vergonha. Depois de tantos anos à revia. Minha pequena Lívia, hoje uma mulher lindíssima.
Escondi o meu rosto com meus trapos.
Ela se lembrou que era o meu aniversário. Que ironia nascer no mesmo dia do Cristo 25 de dezembro.
_ Desculpa, tenho que ir. Vou trabalhar. Feliz aniversário e feliz Natal.
Balbuciei algumas palavras desconexas pois a garganta estava fechada.
_ Amanhã venho te ver de novo.
Amanhã não estarei mais aqui, pensei eu. Vou me afastar, pois invisível eu sou e quero permanecer assim.
Fui para outro lugar. Com o coração partido em mil pedaços. Fujo.
Dias depois: “Te encontrei novamente”
De olhos fechados pude sentir que a minha invisibilidade não estaria mais me escondendo.
Que seja então a Tua Vontade.
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Joema Carvalho, especial de Natal
Natal
lugar
onde brota
origem
gens que se agregam
constituem unidades
semelhantes
unidas por desafio
se fazer melhor
no contraste
visões idênticas
confusas
ego
dor
de geração
em geração
necessidade
nascer de novo
fazer novo
o de sempre
renascer
sentido
da origem
empatia
equilíbrio
deixar ser
fluxo contínuo
realizações
berço sagrado
que nos acolhe
mãe terra
estrela guia
que nos faz curvar
diante do superior
do acaso e sincronicidade
da arquitetura
da criação
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Joema Carvalho, Curitiba – PR, engenheira florestal, doutora, perita. Autora do livro Luas & Hormônios, selecionado e editado pela Secretaria do Estado da Cultura (2010). Participação em várias coletâneas nacionais e internacionais e em projetos literários.
Contato:
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Livro da autora
https://www.amazon.com.br/Luas-Horm%C3%B4nios-Joema-Carvalho-ebook/dp/B08P1Z987P
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