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Exclusivo: Ricardo Leão e o livro "Espelhos de Eva", de Sharlene Serra

Publicado com autorização do autor

25/01/2022 às 09h24
Por: Mhario Lincoln Fonte: Sharlene Serra
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Ricardo e Sharlene
Ricardo e Sharlene

EVAS, LILITHS E OUTROS ARQUÉTIPOS FEMININOS EM ESPELHO DE EVA, DE SHARLENE SERRA

*Ricardo Leão

Há cerca de 30 anos, a poeta e ficcionista brasileira, Hilda Hilst, provocou escândalo na literatura brasileira ao lançar a série de livros que compõem sua fase dita obscena, de literatura erótica e pornográfica. Com a publicação de O caderno rosa de Lori Lamb (1990), Contos d’Escárnio – Textos grotescos (1990), Cartas de um sedutor (1991), Bufólicas (1992), entre outros textos, Hilda incomodou o stablishment literário brasileiro, por conta de sua trajetória considerada erudita e hermética, o que a afastava de um público amplo de leitores, já as tiragens de sua obra eram pequenas e quase sempre em editoras independentes. Ao explorar o universo grotesco e repulsivo do mundo erótico, Hilda foi colocada no centro do debate literário e editorial brasileiro, pois com o repentino sucesso conseguiu desmascarar a hipocrisia não apenas dos editores brasileiros, mas sobretudo dos leitores que, ao não se dispor a ler e aclamar a literatura considerada “séria e erudita”, no entanto se dispõem a comprar livros recheados de erotismo e pornografia grotesca, que Hilda escreveu para escandalizar e vender. O debate em torno do fenômeno criado por Hilda suscita ainda hoje controvérsias em torno do público que se acostuma com o perfil de algumas escritoras em termos de produção, e ao mesmo que se choca com uma súbita mudança temática em suas obras, ao mesmo tempo em que também compra aquilo que acha condenável ser escrito por uma mulher, ainda mais quando a escritora em questão vem de uma carreira com temas considerados corretos e puros, como a literatura infantil ou infanto-juvenil de caráter inclusivo.

É o caso de Sharlene Serra, escritora maranhense que, após uma bem-sucedida carreira com livros infanto-juvenis de proposta inclusiva, pedagógica e de denúncia social, lança-se no território da literatura erótica com Espelho de Eva (2021), causando uma surpresa, entre seus leitores históricos, até então habituados com sua trajetória já conhecida, ao mudar muito radicalmente o perfil de sua temática em seu novo livro. No entanto, sem entrar no território do grotesco e do explícito, tal como fez Hilda Hilst, Sharlene utiliza a personagem Eva como uma espécie de mergulho no universo sensorial feminino, através de uma narrativa fluente e ligeira, ao fundir-se a outra personagem dentro do universo ficcional da personagem, Bianka Fernandes das Neves (rompendo, portanto, o limite interno da fabulação), a pretexto de utilizá-la como ponto de catarse para o relato de casos de abusos sexuais, racismo e outros preconceitos e violências. Ao longo da narrativa, Sharlene insere versos que retratam a intimidade erótica feminina, tratam de traumas oriundos da violência do patriarcado, costura ao longo de todo o texto as percepções e sensações engajadas com a experiência da libertação e da consciência existencial, através sobretudo do relato de Bianka. Assim, Eva e Bianka, mulheres de realidades e histórias totalmente diferentes, são unidas entre si, assim como às demais mulheres do livro, reunidas em “um mosaico de diversas/ mulheres em si”. 

E é nesse ponto que Sharlene Serra utiliza um recurso bem interessante em sua narrativa. O erotismo do livro não é direcionado ao tema do erotismo em si, como ocorre em muitas outras obras, nas quais os recursos estilísticos já são bem conhecidos e reconhecidos, clichês repetidos à exaustão, em que a linguagem erótica, na verdade, é apenas eufemismo de erotismo. Os livros ditos “eróticos”, ao estilo das Júlias, Biancas, Sabrinas, vêm recheados de falsas ousadias, como eufemismos para os órgãos sexuais, perfumes e odores irreais, descrições tórridas do corpo sem nunca descreverem de fato o que acontece a dois (ou mais). Essas fórmulas já são bem conhecidas da tessitura fabulativa das narrativas eróticas de vendagem massiva. Sharlene Serra, no entanto, opera em outra clave: o erotismo, jamais explícito e grotesco, é apenas o ponto de partida para falar da condição feminina e da violência sobre o corpo feminino, do patriarcado, dos traumas e, ao mesmo tempo, da liberdade que a mulher pode atingir ao liberar seu corpo para a sexualidade. No entanto, Eva não poupa o leitor ao trazer as memórias traumáticas de Bianka, ao desnudar que o mundo do chamado “erotismo” também carrega, como resultado das violências do patriarcado sobre a mulher, uma gama de cicatrizes, dores e experiências repulsivas. Na realidade, Espelho de Eva toca quase tangencialmente no tema do erotismo. O principal engajamento do livro é a traumática experiência feminina do machismo, a desigualdade das relações entre homens e mulheres, a liberdade sexual, o feminicídio, entre outros. E, sobretudo, como a cultura do machismo impede a mulher de ser realizada sexualmente na plenitude, em boa parte dos casos.

Ao longo da narrativa de Espelho de Eva, diversas histórias femininas são costuradas ao universo da experiência erótica e sexual. A metáfora do espelho, retirada de Lewis Carrol em Alice no país das maravilhas, atravessa toda a narrativa, na medida em que cada mulher que surge é um reflexo de Eva. E, nisso, emblemas arquetípicos saltam à vista. Eva é a primeira mulher bíblica, na mitologia judaico-cristã ocidental (embora Lilith seja mencionada na tradição judaica, originalmente no Talmude hebraico, como a primeira mulher, e até a Idade Média citada como a primeira mulher de Adão). Bianka das Neves é paradoxalmente uma afro-brasileira, porque Bianka se origina do italiano bianca, bianco, que quer dizer branca/o, alva/o, mas que se insere melhor no sentido de “cândida”, “pura”, embora violentada e conspurcada pela violência, pelo abuso, pelo estupro, o que é um paradoxo interessante no jogo de sentidos onomásticos da narrativa. Outros arquétipos reluzem no texto, como Maria Luíza, cujo nome refere-se ao mesmo tempo à Virgem Maria e a Lúcifer (essa interpretação devo ao escritor José Neres) ou Dona Angelina, uma óbvia referência ao angélico, à pureza, Martha (cujo significado é “a que há de ser morta”), Vinícius (cujo significado é “vinicultor”, “o que cultiva vinho”), entre outros aspectos hermenêuticos da história que se conta. Cabe ao leitor explorar essa gama de significados e sugestões, e envolver-se pelo relato do texto.

E para não ficarmos no clichê de que a literatura erótica não tem lugar em nossa literatura, é bom lembrar que grande parte dos escritores brasileiros dedicou-se ao erotismo de alguma forma em suas obras. Desde Gregório de Matos, que escreveu muitos versos eróticos e pornográficos, até Hilda Hilst, muitos se aventuraram pelo terreno do erótico. Os leitores atentos de Machado percebem extensas notas eróticas em Dom Casmurro, quando Bentinho descreve as sensações perturbadoras que o percorrem ao tocar os braços de Capitu, Sancha e até mesmo de Escobar. Há muitas cenas eróticas em O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Sem falar de um livro extensamente erótico, inclusive pelo título: A carne, de Júlio Ribeiro. Não é possível falar de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, sem mencionar a tensão erótica entre Diadorim e Riobaldo. Carlos Drummond de Andrade explorou diversas vezes o tema em sua obra, particularmente em seus poemas rejeitados de O amor natural (1992). Há muitas facetas ditas “picantes”, outro eufemismo para o erotismo, na obra de muitos autores consagrados, como Carlos Heitor Cony, Érico Veríssimo, Ferreira Gullar, Marques Rebelo, Autran Dourado, Murilo Rubião, Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles, entre muitos outros. 

A primeira escritora brasileira dita “erótica” foi Gilka Machado, com seus poemas ostensivamente sugestivos. Mas é possível também mencionar Francisca Júlia em versos de poemas como “As centauras”, entre outros. O tema sempre foi abordado de maneira velada e até mesmo conservadora pela historiografia literária brasileira. Mas sempre esteve presente, porém pouco mencionado, sobretudo em salas de aula, onde é, literalmente, um tabu. Quase nenhum professor se atreve a mencionar o aspecto erótico dos escritores, embora estejam diante da insaciável curiosidade dos adolescentes e jovens. E todos esses livros falam de assuntos relativos ao tema, que são cruciais ao debate social, porque denunciam a violência, a falta de liberdade, o preconceito, entre outros traumas de nossa sociedade. Sharlene, como escritora que abraça o gênero em uma sociedade altamente conservadora e hipócrita, como é a maranhense desde a publicação de O mulato, de Aluísio Azevedo, atreve-se a rasgar o véu de silêncio que reveste o tema, unindo-se ao cenário de outras escritoras que resolveram demonstrar que o tema é urgente, sobretudo em um meio tão provinciano como é o Maranhão, em pleno século XXI. Ao mesmo tempo, atinge o centro do debate em torno do gênero, em escala nacional.

É preciso, por último, distinguir literatura erótica de simples obscenidade, que, conforme a leitura de Espelho de Eva revela, não é o caso da escritora maranhense. Conforme mencionei linhas atrás, o erotismo é apenas o trampolim para que Sharlene Serra possa falar de assuntos mais prementes da pauta feminina e feminista que ela abraça. Espelho de Eva é, ao fim das contas, uma narrativa de feminismo pragmático e contemporâneo, pois fala da mulher comum, de todos os dias, em sua permanente luta para conseguir liberar-se das garras da violência do patriarcado, a fim de encontrar a condição de dignidade e igualdade que deve pautar a relação entre homens e mulheres, entre pessoas de todas as sexualidades, etnias, crenças e gêneros. Por essa razão, Espelho de Eva soma-se às demais vozes que clamam por um mundo mais justo para as mulheres, sobretudo as vivas e as que ainda hão de nascer e explorar a vida, por inteiro.

Ricardo Leão. Poeta, ensaísta e professor

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