NE: A Academia Poética Brasileira, no uso de suas atribuições estatutárias, após discussão e aprovação, CONCEDE à professora, escritora e poeta CERES COSTA FERNANDES, a COMENDA CHARLIE CHAPLIN, por seu incentivo à Literatura, em Redes Sociais, por ela titularizada. Destarte, logo abaixo de sua crônica escolhida, o Diploma pertinente. Parabéns!
Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
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O MÊS MAIS BONITO
Convidada Especial: Ceres Costa Fernandes
Diz Aluísio Azevedo, em O Mulato, que junho é o mês mais bonito de São Luís. Concordo ao pensar no alvoroço dos arraiais, no som dos tambores que se ouve ao longe, reproduzindo-se como cantos de galos em gigantescos e longínquos quintais, anunciando as brincadeiras de bumba-meu-boi em toda a Ilha. Nesses dias, paira um frisson contagiante entre os jovens e entre os mais velhos que conservam na memória dos corpos os meneios das danças e as batidas dos pandeirões e das matracas. Ao chamado das toadas, reúnem forças esquecidas e mergulham o corpo e a alma nas brincadeiras.
Mas a beleza de junho referida por Aluísio não é a da festa popular, e sim a do clima, diz ele: “Aparecem os primeiros ventos gerais, doidamente, que nem um bando solto de demônios travessos e brincalhões que vão em troça percorrer a cidade, assoviando a quem passa, atirando ao ar o chapéu dos transeuntes, virando-lhes do avesso os guarda-sóis abertos, levantando as saias das mulheres e mostrando-lhes brejeiramente as pernas. Manhãs alegres! O céu varre-se nesse dia como para uma festa, fica limpo, todo azul, sem uma nuvem. A natureza prepara-se, enfeita-se; as árvores penteiam-se, os ventos gerais catam-lhe as folhas secas e sacodem-lhe a frondosa cabeleira verdejante...”
O trecho é ufanista, eufórico, contrastante com o olhar pesado de crítica e ironia com que o jovem Aluísio vê sua terra natal (não tão diverso do de Eça de Queirós quanto à sua Lisboa). Não esqueçamos que Aluísio seguia fielmente a estética do naturalismo, avessa a “patrioteiras” e bairrismos. O tom negativo do romance deve-se, também, às rusgas e arranca-rabos em que o autor se meteu com os clérigos e representantes da sociedade local.
É nesse descrever o clima da Ilha que Aluísio me confunde. Desde muito, ouço falar: abril, chuvas mil; maio, chuva e raio; junho, chuva em punho. E as chuvas, o tempo carregado de nuvens, pouco vento e muito calor, estão aí para desmentir o autor de O Mulato. Junho, em São Luís, ainda é mês de chuva e calor.
Lembro-me de domingos desiludidos, em plenas férias de julho, com chuvas, ainda que fracas e esparsas, quando meu pai declarava que não iríamos à praia: o tempo não estava bom. Esse veredito assemelhava-se a um anúncio do fim do mundo.
Agosto sim, e aí vou discordar de Aluísio, é o mês mais bonito. É o mês das serenatas, dos ventos, dos redemoinhos, da temperatura amena, dos luares enormes, marés altas e pores do sol inigualáveis.
Em dias mais calmos vividos em nossa cidade, era possível chegar do trabalho, pegar os filhos em casa, atravessar a única ponte e, em minutos, já na ponta semideserta, estacionar onde se encontra, hoje, o Iate Clube, assistir de camarote ao pôr do sol e esperar para ver as luzes da cidade acenderem-se. Crivada de luzinhas, São Luís colonial das casas construídas em diferentes planos de terreno que se superpõem, vista á distância, assemelha-se a um presépio. No alto, na ponta que, altaneira mira o mar, destaca-se a alva imponência do Palácio dos Leões. Um deleite para o olhar!
Ver as luzes da cidade se acenderem! Parece coisa de matuto. Até pode ser, mas de uma matuta com desejos de incentivar nas crianças a apreensão do belo. Não fui agraciada com algum filho artista, vai ver que o DNA não ajudou, mas espero que as luzinhas desses momentos, meia volta, ainda se acendam lá dentro deles.
Fica a dúvida: junho já foi mesmo agosto em São Luís? Segundo Aluísio, sim. Em 1881, pelo menos. Daqui a 139 anos, que mês será agosto, por aqui?
Referências
(Recuperado da página da Academia Maranhense de Letras)
Nasceu em Salvador-BA, em 28 de dezembro de 1942. Filha de Francisco Costa Fernandes Sobrinho e de Maria Isabel Soares Costa Fernandes. Permaneceu naquela cidade até os dois anos de idade, quando veio para ao Maranhão. Estudou o primário em São Luís, no Colégio Santa Tereza, das Irmãs Dorotéas, e parte do secundário no Rio de Janeiro, no Colégio Sacré-Coeur de Jésus, onde era interna. Interrompeu os estudos, aos 15 anos, para casar-se. Completou-os, bem mais tarde, nos cursos de Madureza dos 1◦ e 2◦ graus, realizando as provas no Liceu maranhense. É Licenciada em Letras – Inglês e Português – Universidade Federal do Maranhão – UFMA (1974) e Mestra em Letras – pela Pontifícia Universidade Católica – PUC –RJ (1987). Possui os seguintes cursos de especialização: Especialização em Metodologia do Ensino Superior, Semiologia Aplicada à Literatura e Ensino à Distância.
Foi professora da TV Educativa do Maranhão (1973-82) e é professora aposentada do Curso de Letras da UFMA (1975-96), onde ministrou Inglês, História da Literatura, Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa. Nessa mesma Universidade, exerceu a chefia da Divisão de Estágio Curricular (1978), o cargo de Pró-Reitora de Graduação (1993-96) e o de Assessora de Relações Internacionais (1997-98). Após a aposentadoria federal, desempenhou, no Governo do Estado, o cargo de Assessora Especial de Educação da Gerência Regional de São Luís (1998-2003) – equivalente à época a uma Secretaria, com as 192 escolas estaduais existentes nos quatro municípios da Ilha de São Luís, sob sua responsabilidade. De abril de 2003 a dezembro de 2008, exerceu a função de Gestora de Programas Especiais do Governo do Estado, desenvolvendo o Projeto Saúde na Escola, um programa educativo de melhoria de qualidade de vida dos alunos do ensino fundamental das escolas estaduais em 25 municípios-sede das Regionais. A partir de 2005, o programa foi estendido a mais 86 municípios de mais baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Maranhão. Diretora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho desde 2009, ali realiza o Café Literário, evento que já se tornou parte da agenda cultural de São Luís.
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