Quinta, 19 de Maio de 2022

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Internacional Swing&Jazz

AS CORES DO SWING. Livro de Augusto Pellegrini. Capítulo 10 – Certo dia de janeiro – Parte 2

Autorizado pelo autor.

04/05/2022 às 13h10 Atualizada em 04/05/2022 às 13h21
Por: Mhario Lincoln Fonte: Augusto Pellegrini
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Orquestra de Benny Goodman (Google).
Orquestra de Benny Goodman (Google).

Confirmado o evento, em poucos dias Goodman montou o repertório e revisou as partituras, utilizando os cadernos musicais de Fletcher Henderson, Jim Mundy e Edgar Sampson, cujas músicas já haviam se consagrado na época ao som da sua orquestra.

Goodman tinha algumas dúvidas sobre a sequência a ser observada e pediu a ajuda de Henderson, que às vezes exercia o papel de conselheiro para outros músicos. Apesar do pouco tempo disponível para fazer experiências, Goodman foi convencido por ele a incluir uma melodia que ainda não fazia parte dos seus shows – “Blue Room” (Richard Rodgers) – e a refazer algumas partes de “Stompin’ At The Savoy”, um dos hits preferidos da banda, cujo coautor, Edgar Sampson, também foi chamado para colaborar com algumas ideias.

O crítico e coprodutor Irving Kolodin teve a ideia de batizar o show com o nome “Vinte Anos de Jazz”, tomando por base o crescimento do jazz desde o final dos anos 1910 até aquele momento e levando em consideração o trabalho desenvolvido no eixo Chicago-Nova York pela Original Jass Band, por Bix Beiderbecke, Ted Lewis, Louis Armstrong, Duke Ellington e outros.

Fletcher-Henderson

A ideia foi aceita, mas na definição do programa, ficou claro que qualquer menção a estes artistas seria meramente informativa, pois não haveria tempo suficiente para que fossem preparados arranjos que pudessem homenageá-los dando ênfase às peculiaridades de cada um.

O máximo que a direção musical se permitiria fazer seria aceitar a participação, em alguns sets, de certos músicos que não integravam oficialmente a orquestra de Goodman, na condição de artistas especialmente convidados.

Assim, “Vinte Anos de Jazz” se resumiria ao swing, deixando o jazz tradicional de lado, interpretado por dois grupos distintos, ambos conduzidos por Benny Goodman e seu clarinete: a big band, com um estilo que se fizera nacionalmente famoso através do programa radiofônico Let’s Dance, e o quarteto formado por ele, Lionel Hampton no vibrafone, Teddy Wilson ao piano e Gene Krupa na bateria, que ocasionalmente se transformava em trio, sem a presença de Hampton.

As formações de trio e quarteto na execução do swing eram relativamente inusitadas, pois o público estava habituado a ouvir a forte sonoridade das suas melodias favoritas na interpretação de orquestras retumbantes, o que facilitava a dança e mantinha uma aparente coerência com o espírito da música.

Nas mãos de Benny Goodman, porém, o pequeno conjunto adquirira uma faceta interessante e digna de marca, pois conseguia associar uma forte tendência do jazz mais convencional ao moderno improviso individual, tudo isso sem abdicar do swing.

De fato, os solos de Goodman, Hampton e Wilson, tendo como fundo a bateria pesada de Gene Krupa, que vez por outra também fazia a sua exibição individual, criaram uma marca registrada que pouca gente teve a coragem – ou a competência – de imitar.

A força e o vigor da interpretação, no entanto, residiam no som da orquestra completa, que servia como apoio harmônico e melódico às intervenções perfeitas do clarinetista, às vezes alegres e brejeiras como devia ser o jazz, outras vezes solenes e comportadas como sugeria a sua formação acadêmica.

 Irving Kolodin.

O único provável problema para a realização do show poderia ter sido a divulgação, mas isto foi contornado com maestria pelos organizadores, que em menos de quinze dias colocaram o vibrante público do swing a par do grande espetáculo, usando como material de propaganda a própria fachada do teatro, além de homens carregando cartazes nas costas, garotos distribuindo folhetos, anúncios nos principais jornais da cidade e comentários boca-a-boca entre os apreciadores.

(Depois daquela noite, Benny Goodman voltaria a se apresentar no Carnegie Hall por mais vinte e duas vezes nos quarenta e quatro anos seguintes – seis delas executando música erudita – sendo sua última apresentação feita em 15 de junho de 1982, durante o Kool Jazz Festival). 

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O dia 16 de janeiro amanheceu gelado.

O sol aparecera tímido por detrás das nuvens escuras, mas apenas depois das dez horas, e havia uma previsão pouco otimista de alguma neve ao entardecer. O trânsito nervoso de Nova York já fazia entender, desde cedo, que aquele domingo seria especial, com muita gente se deslocando de um lado para o outro como formigas tresloucadas à procura de um rumo.

 

Os restaurantes abriram suas portas para receber um público comensal maior do que o habitual, e havia um comentário muito forte a respeito do swing que iria tomar conta da cidade tão logo começasse o anoitecer.

Desde o início da tarde o público fazia fila na frente do Carnegie Hall para comprar ingressos, e antes do anoitecer o teatro já estava totalmente lotado, misturando o inevitável público do swing com alguns dos sisudos frequentadores da casa que estavam pagando para ver a novidade. Havia um frenesi no ar, emoldurado pelos letreiros luminosos que faziam da Midtown Manhattan um espetáculo à parte.

Edgar Sampson.

Na rua, vendedores ambulantes de castanhas tocavam o seu negócio em meio ao vapor dos caldeirões para aquecer um pouco o estômago dos entusiasmados fãs, e centenas de retardatários encapotados, usando chapéus e luvas, tentavam em vão adquirir o seu ingresso para adentrarem o recinto.

Na esquina do outro lado, remanescentes natalinos representando o Exército da Salvação entoavam os seus hinos enquanto solicitavam aos passantes alguma contribuição para os menos afortunados.

Dentro do teatro, o público aguardava ansioso pelo início do espetáculo, devidamente sentado nas poltronas numeradas e nos camarotes. Alguns poucos que conseguiram burlar a exigência da lotação máxima se acomodavam nos corredores, cena incomum de se ver naquele lugar.

Todos tinham a consciência de que iriam assistir pela primeira vez a um show de jazz – na forma de swing – no templo máximo de Nova York, e sabiam também que, desta vez, não lhes seria permitido dançar, pois o regulamento do teatro e até mesmo a própria falta de espaço físico tornavam este desejo impossível.

Quando as luzes da plateia começaram a ser reduzidas e os três toques tradicionais da sineta anunciaram que o espetáculo estava para ser iniciado, fez-se um silêncio profundo.

As pesadas cortinas de veludo escarlate foram se abrindo lentamente, apresentando os músicos da orquestra devidamente alinhados nos seus lugares. A tensão aumentou e o público irrompeu num prolongado aplauso quando Goodman, muito elegante no seu traje de gala, entrou no palco. O maestro parou perto do centro, ficou de costas para os seus músicos, agradeceu o carinho de todos de um modo firme e sorridente, esperou pelo arrefecimento das palmas, fez um gesto com a mão esquerda, e deu início ao tema “Don’t Be That Way”.

Enquanto a música coloria o ambiente, Irving Kolodin, que não cabia em si de contente, se agitava na coxia.

À medida que a orquestra fazia soar a sua bela e consistente melodia dentro da magnífica acústica do teatro, Kolodin se congratulava consigo mesmo por ter sido um dos organizadores do espetáculo. Talvez a sua alegria não tivesse muita conexão com a música em si, mas sim com a repercussão histórica que ele adivinhava o espetáculo viria a ter, além do sentimento do dever cumprido e da farta bilheteria que ele e seus sócios – Geraldo Groode e Steve Hurok – iriam conferir.

Durante as duas horas e meia de espetáculo, o teatro ficou impregnado com a magia do clarinete de Benny Goodman e com a excelência dos seus músicos, tanto na apresentação do quarteto como no desempenho da orquestra. O show teve ainda a participação de outros músicos convidados, como o sax-tenorista Arthur Rollini, o pianista Jess Stacy e o cornetista Bobby Hacket, ou “tomados por empréstimo” de outras orquestras, como o sax-barítono Harry Carney, o sax-soprano e alto Johnny Hodges e o trompetista Cootie Williams (todos de Duke Ellington) e o contrabaixista Walter Page, o sax-tenorista Lester Young, o guitarrista Freddie Green e o trompetista Buck Clayton (da orquestra de Count Basie). O próprio Basie também marcou presença, ao piano.

Lionel Hampton.

O show seguiu num crescendo – e parecia que já não mais fazia frio em Nova York – mantendo o público entusiasmado e se agitando nas poltronas, dançando de uma maneira cômica e comportada sem sair do lugar.

As músicas iam se sucedendo – “I Got Rhythm”, “Swingtime In The Rockies”, “China Boy”, “Honeysuckle Rose” – ao mesmo tempo em que a orquestra crescia no seu desempenho e o público acompanhava com gritos e palmas, coisa rara de ser vista no teatro.

Do lado de fora, a multidão que se formara para tentar em vão obter o seu ingresso ainda permanecia aglomerada, ouvindo um resto de som que chegava abafado vindo do lado de dentro do teatro, que invadia a Sétima Avenida como uma alegre música celestial.

A principal obra do trompetista Louis Prima, “Sing, Sing, Sing” – que tradicionalmente fechava as audições de Goodman na época – ecoou pelo teatro, dando cores finais a um dos shows que marcaram época na história da música norte-americana.

Bônus-Vídeo: 

Benny Goodman/ Álbum/ Sing, Sing, Sing (Parts 1 & 2)/ Compositores/ Louis Prima/ Licenciado para o YouTube por UMG (em nome de CM ANGEL (A91)); MINT_BMG, SOLAR Music Rights Management, Sony Music Publishing, UMPG Publishing, UNIAO BRASILEIRA DE EDITORAS DE MUSICA - UBEM, LatinAutor - SonyATV, CMRRA, LatinAutorPerf e 7 associações de direitos musicais

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