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O amor nunca será a “outra metade da laranja”

"Estudiosos de Bauman perguntam: "como ficam nossas relações? O quanto de atenção damos às pessoas que amamos? Será que realmente fazemos de tudo para que o amor dure?".

09/05/2022 às 11h20
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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ilustração: Canva
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*Mhario Lincoln

Quando William Shakespeare cunhou "(...) o maior sonho de alguém que não sabe amar, com certeza, é o amor (...)", nunca se poderia imaginar, que a partir daí se estaria alterando os conceitos poéticos sobre o verdadeiro amor.

Desmoronou a lenda de que “amar é encontrar a outra metade da laranja”. Veja Lao-Tsé, importante filósofo da China antiga, autor do 'Tao Te Ching', a obra basilar da filosofia taoísta, sobre o amor: "Aquele que tudo julga fácil, encontrará muitas dificuldades".

Pois bem! Os estudos dos arquétipos, numa linguagem sóciodinâmica de interrelacionamentos, mostra claramente o porquê de tantas separações entre casais, aparentemente felizes para sempre. Basta abrir os dados de 2019 e ler no item ‘divórcios’. Nesse ano, foram contabilizados 383.286 divórcios, segundo os dados da pesquisa Estatísticas do Registro Civil - Divórcios/Brasil.

Por incrível que possa parecer, nesse caso, o amor deixa de ser poético, romântico, paixão ou outra forma de ser. Torna-se algo preocupante, porque o amor não é apenas uma atração ou uma paixão ou algo que possa extenuar carências individuais. O amor é algo muito mais profundo.

Agora, cientistas chegam à conclusão lógica de que o amor é, na verdade, igual a uma impressão digital, individualizando cada indivíduo. Cada um tem um amor intrínseco pessoal e intransferível. Nós nascemos com uma maneira específica de identificar, receber e dar amor.

Todos os casais de enamorados, noivos ou ficantes, têm seus amores individuais, cada um. São mundos diferentes, alguns, com mochilas de acontecimentos ruins presa às costas, desde a infância, fato que influencia diretamente na maneira do outro ver a vida e a relação. Em outras ocasiões, os amores são tão individualizados que acabam escravizando os parceiros, onde um deles tenta impor, apenas, sua autodefinição de como gostaria de ser amado. Um absurdo!

E não interessam tantos cafunés, beijos, toques íntimos, igual gosto pelo mesmo filme ou pelo mesmo livro. Isso é supérfluo. O que vale mesmo é a reciprocidade e o apoio incondicional, diante de uma situação crítica em que possa viver a pessoa com quem se vive. Porque se não houver interesse, dedicação e merecimento (de ambas as partes), esse amor vai se diluir em algo passante, sem nenhum motivo para viverem em parceria.

Nesse caso, volta-se a discussão onde o sociólogo Zygmunt Bauman costuma ensinar sobre o Amor Líquido. Sim, ao ver os dados de tantos divórcios (após juras de amor, perante Deus e o Homem), acima descritos, como não pensar nesse amor líquido? Bauman afirma que não damos mais atenção um para o outro, especialmente pelas transformações constantes da sociedade, fazendo cada um - individualmente - ignorar os próprios relacionamentos e nem mesmo atentar ao fato de algo não estar indo tão bem, como antes.

E no meio de tudo isso, estudiosos de Bauman perguntam: "como ficam nossas relações? O quanto de atenção damos às pessoas que amamos? Será que realmente fazemos de tudo para que o amor dure?".

Ah, o Amor! Tudo muda quando a realidade se torna ponto chave de um relacionamento. O pior: quando não há interesse amoroso, os sinais de socorro, emitidos pela outra pessoa, nunca são entendidos, nem vistos, nem conceituados, nem atendidos, quando absorvidos.

Então, quando no relacionamento há um respeito e um entendimento que o amor de um não é necessariamente o amor da outra pessoa, o imaginário poético dá lugar ao amadurecimento lógico. Até mesmo o velho Kant tem participação nisso. Quer ler?

Pois bem. Quem conhece a obra "Fundamentação da Metafísica dos Costumes" deve ter lido que Kant ensina uma tese de racionalidade: "para que um ser racional sensivelmente afetado, queira aquilo que só a razão lhe prescreve como dever, é preciso certamente uma faculdade da razão de infundir um sentimento de prazer ou de comprazimento no cumprimento do dever”.

Bom lembrar que esse "sentimento" a que Kant se refere, é o "de respeito". É o sentimento de respeito que traz à tona ações de valor moral. Ora, o que é básico num relacionamento. Como se autentica um amor, seja ele como for, de quaisquer cores, gêneros ou dores? Indiscutivelmente pelo respeito individual. (Porque o sentimento de amar é individual). E isso tem que ser um dever. A partir daí, cumpre-se um ritual desconhecido de muitos, mas fundamental para todos: fazer o parceiro feliz, antes mesmo de sua felicidade pessoal e egoica. Segundo os especialistas e conselheiros sentimentais, essa é a chave do amor duradouro e verdadeiro.

 

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