Quinta, 19 de Maio de 2022

Nuvens esparsas

Curitiba - PR

Internacional VICEVERSA (02)

Renata Barcellos pergunta para Mhario Lincoln

Parte 02

08/05/2022 às 11h36 Atualizada em 09/05/2022 às 11h58
Por: Mhario Lincoln Fonte: Renata Barcelos
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Mhario Lincoln & Renata Barcellos
Mhario Lincoln & Renata Barcellos

RENATA BARCELLOS - Mhario Lincoln é jornalista, advogado, escritor, poeta e presidente da Academia Poética Brasileira. Como representante de uma instituição e a partir de um dos pensamentos de Rubem Alves sobre ”a poesia salva e liberta”, qual sua percepção sobre a prática e a função de academias, associações e institutos na atualidade (sobretudo como foi a experiência no auge da pandemia)?

MHARIO LINCOLN - As Academias realmente academias, antes de visarem lucros, “joias”, mensalidades, anuidades ou apenas palco de egos exacerbados, representam muito para a comunidade em que habitam. Começo lembrando os pilares da Academia Francesa de Letras, os quais, se originam de um desejo intrínseco de conservar o que se pode chamar de Unidade Literária, sem quaisquer interferências político-sociais e com constância de propósitos. Assim, também foi constituída a nossa ABL. Todavia, não entro no mérito de analogias com a coirmã francesa, em razão desses pilares virem sendo, a cada tempo, diluídos. Tanto do lado francês, quanto do brasileiro. O que posso asseverar é a minha concepção ao fundar a Academia Poética Brasileira. Trouxe para seus Estatutos, o rigor da essência francesa, isto é, não ser a escolha dos membros, influenciada por discriminação de castas, amizades pessoais, escolas literárias ou intentas ideológicas. A meu ver, só nessa originalidade de pensamento e ação, que “a poesia salva e liberta!”. Não enxergo outra forma.

2- RB - A vaidade acadêmica é uma realidade. Infelizmente, cada vez mais presentes nos diferentes departamentos acadêmicos. Há um texto sobre esta temática disponível há um tempo: “Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica”, nesse link, (https://www.cartacapital.com.br/sociedade/precisamos-falar-sobre-a-vaidade-na-vida-academica/) como vê essa questão cada vez mais presente e polêmica no meio cultural?

MHL - Vejo com bastante tristeza. Tenho uma frase assim: "Toda vaidade é um blefe. Se olhar para os lados, sempre vai ter alguém melhor...". Portanto, a pior coisa com que tenho de conviver é com egos exsudados. Procuro ficar bem longe desse tipo de pessoa. Os anos passam e, por escolhas equivocadas, as Academias, as instituições de arte, vão ficando mais parecidas com partidos políticos, cuja ideia principal é desarticular o outro para desacreditar quem senta ao lado. Nem todos são vaidosos de forma cancrocida. Mas a maioria parece ser. Portanto, acaba por se enquadrar na máxima - “A soberba ou vaidade é o pecado capital que precede Lúcifer e responsável pela sua queda, mesmo porque, o Homem sempre será, por sua própria essência, um animal narcísico (…)”. E o pior: há dezenas de pessoas ao nosso lado, ávidas, o tempo inteiro, por elogios, a fim de colecionarem amostras da admiração alheia e com isso, camuflarem as próprias fraquezas. Na verdade, não existe polêmica, a meu ver. Mas sim, má escolha. Portanto, quem controlar essa tendência de ser narcisista, poderá ser mais feliz.

3- RB - Qual é seu processo criativo literário? O que te impulsionou a escrever as obras “A BULA DOS SETE PECADOS”, “VAMPIROS DE AREIA”, “SEGREDOS POÉTICOS, dentre as outras? O que da formação jornalística e de Direito influencia na sua produção?

MHL – Vejo muita gente falar das facilidades em fazer, escrever e construir. Comigo, não! Para chegar a entender um pouquinho de minhas atividades, li, reli, participei, discuti, aprendi, errei, voltei a errar: dores do crescimento, da evolução. Um esforço hercúleo para saber como e em qual caminho trilhar. Nesse ínterim, aprendi que nem toda intuição é sabedoria. Ouvi muito de alguns sabidos afirmarem ter “exercitado o cérebro porque o cérebro é um músculo. Quanto mais exercício, mais musculoso”. Não é bem assim, porque o cérebro nunca foi composto de miócitos, como os músculos. Porém, de milhões de neurônios interconectados por axônios e dendritos. E mais, tem-se que ensinar o cérebro a pensar, - e não a se muscular - pois é ele quem regula cada uma de nossas funções cerebrais e corporais, desde respirar, comer ou correr, até a capacidade de raciocinar, de se apaixonar ou de argumentar. Eu tive muita dificuldade em ensinar meu cérebro a pensar. Foram momentos de angústia, decepções e retornos. Senti emoções incríveis, boas, péssimas e cheguei à conclusão de que é a vivência (da vida) e seus altos e baixos, a melhor forma de ensinar o nosso cérebro. Alguns egoístas, se tornam notórios narcisos superficiais, exatamente por aprenderem para si, através de cultura de almanaque ou de leituras de manchetes, sem aprofundamento. Esqueceram que a cultura, a sapiência, a sabedoria, não diz respeito ao Homem físico. Mas ao Pensamento do Homem. O que ele repassa ao seu cérebro. Assim, a profusão do que o cérebro absorve, acaba fazendo o monge, da mesma forma que o axiomático "...cachimbo faz a boca torta". Destarte, para realmente ensinar o cérebro é necessário jogar fora o chamado “conhecimento de almanaque”, ou simplesmente “sabedoria de manchetes”. Felizmente, não existe mais a história de que “o Mundo é dos espertos”. Vivemos numa era virtual binária. Rápida e sem indulgência. Um tsunami galáctico. Um buraco negro, prestes a engolir quem não estiver pronto para viver neste futuro. Agora!

4-RB - Em novembro de 2006, o STF garantiu o exercício da atividade jornalística aos que já atuavam na profissão. Isso independentemente de registro no Ministério do Trabalho ou de diploma de curso superior na área. Foram 8 votos a 1. Dessa forma, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram que o diploma de jornalismo não seria obrigatório para exercer a profissão. O que pensa sobre esta decisão? Há consequências disso na atualidade?

MHL – Sim. Eu trabalhei no jornal desde os meus 14 anos. Ascendi de fotógrafo de “presunto”, até colunista diário, escrevendo uma página inteira. Foram mais de 20 anos consecutivos, em dois grandes jornais de minha São Luís. E mesmo assim, em 1974 fiz vestibular. Primeiro, aprovado em Direito. Depois em Comunicação Social. Iniciei meu curso superior em Jornalismo, porque queria alcançar um pouco mais do que minha vivência no campo. Queria compreender as fases acadêmicas. A história, estudar os grandes mestres do jornalismo. A gente sempre tem que ir mais longe e nunca se acomodar com as benesses da Lei. E tais períodos em que cursei foram benéficos para o meu crescimento profissional.

5- RB - Em “O direito à literatura”, Antonio Candido, nos diz que “...escrever liberta, nos salva”. Gostaria que comentasse esta sua própria declaração: "Enquanto o artista coloca na tela a visão interior de como vê determinado momento da paisagem, faço do livro essa caixa forte, onde deposito milhares de experiências pessoais. No fundo, esse ato de escrever acabou aliviando boa parte de minhas angústias, tornando-as mais leves. (Mhario Lincoln)”.

MHL - Na verdade, escrever é algo de grande significância na minha vida. Quantas vezes o fiz apenas por satisfação pessoal. Quanto mais escrevia, mais chances de aprendizado e de um “ufa, consegui”, passavam pela minha história. Vanessa Musial, minha editora do livro “A Bula dos Sete Pecados”, ao analisar essa minha frase, enunciado da pergunta, escreveu: “(...) Mhario Lincoln, através de sua poesia visceral e intimista, convida o leitor a uma bela contemplação da vida e do universo através das palavras. Nada escapa aos olhos do poeta: desde as lembranças de sua infância em São Luis até reflexões sobre o amor e a vida e morte são temas de sua poética (...)”. Realmente ela conseguiu captar o meu “pro modus”. A autenticidade de meu pensamento. Por outro lado, em uma de minhas obras na área jurídica, o desembargador Aluízio Ribeiro da Silva, meu prefaciador, na análise do meu livro “Teoria e Prática do Inquérito Administrativo”, escreveu: “O Dr. Mhario Lincoln, neste livro, acaba de mostrar que tem uma bela reflexão a respeito da abrangência do ser. Ou seja, aquilo que torna possível múltiplas concepções jurídicas a partir da publicae rei. Ou seja, é seguidor do heideggerianismo, em toda sua plenitude. Usa esse aprendizado para exibir sua prática no dificultoso julgar e punir dentro das lides do Inquérito Administrativo”. Como se vê, sinto-me deveras honrado com tais ideias que complementam minha seriedade incansável em tentar escrever dentro das normas a que eu sigo.

06 – RB - E, para encerrar, como surgiu o projeto Facetubes?

MHL - O www.facetubes.com.br é, sem dúvida, hoje, um trabalho aprimorado. Desde 2004, eu e o jornalista Batista do Lago, implementamos em Curitiba, talvez, uma das primeiras plataformas independentes de notícias. Na época, chamou-se “Portal Aqui Brasil” e já trazia a possibilidade de inclusão de Vídeos, Rádio e Jornalweb. Nos 3 primeiros meses foi um quase fracasso. Acho que a imprensa virtual se chocava com os meios de comunicação (normais) ainda vigentes e com muita força. Algum tempo depois, com muito sacrifício e dedicação diuturna, o “Portal Aqui Brasil” tornou-se a plataforma informativa de significância no Brasil e em algumas partes do Exterior. Com quase 8 meses, atingimos 100 mil acessos, comemorados com a edição de um livro especial contendo crônicas de nossos colaboradores. Um sucesso, sem dúvida. Com essa experiência, durante a pandemia, decidi abrir a plataforma Facetubes. Não foi difícil, pois eu tinha guardado uma imensa lista de leitores e vários colaboradores. Contactei com eles e assim, o nosso trabalho ganhou fôlego e está entre nós há mais de 2 anos, em efetiva produção de conteúdos, dando a todos nós que o fazemos, uma imensa alegria, haja vista a grande credibilidade que possui, não só dentro do país, mas fora dele. Vale ressaltar, ainda que o Facetubes é produzido sem nenhum fim lucrativo, nem publicitário. O único propósito é levar a Literatura, a Arte e a Música, brasileiras, até onde a internet possa chegar.


***
(Aproveito para agradecer imensamente a sua atenção, Renata Barcellos, que deixou de lado seus inúmeros afazeres para participar desta marca registrada do Facetubes, o ViceVersa. Um grande abraço).

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