Mhario Lincoln*
Comprei o livro de minha amiga Bilah Bernardes – “Sentimento Dividido”, maravilhosa poeta mineira e comecei a ler, neste último final de semana.
Livro de tamanho pequeno, é de leitura rápida e emocionante. Um livro que cabe na palma de minha mão, contudo, com um poder tão intenso – “Hoje minha insônia/ tem nome de gente”. Tão cheio de coragem - “Escolhi perder o relacionamento amoroso/ construído/ em trinta e oito anos/ de vida./ Escolhi ganhar (...)”.
Tão cheio de interpretações sobre a banalidade do mal – “De tanto ver/ a morte estampada na TV/ ela não me surpreende mais”. Tão cheio de ativismo: “ensurdecedor o barulho dos canhões/(...) Ensurdecedor o grito do Mundo/ (…) Ouçam o silêncio!/ Ouçam o que ele grita/ Ouçam o que ele denuncia!”.
Um pequeno tesouro em que passam e repassam momentos íntimos, “...nossa primeira vez não tem pressa”. Ou momentos pueris, ”… meu pai nunca precisou falar/ te amo!/ Seu olhar de ternura dizia/ As histórias contadas/ a atenção total/ diziam.”
Ainda momentos físicos, “aos setenta/ Quando sou organismo,/ a caminhada fica lenta (...)/ Quando sou coração/ não há bússola que diga siga”.
Bilah Bernardes é assim. Uma poeta com ideias e sentidos misturados às desilusões, razões e força, “...A tua traição/ foi levar meu sol”. Ainda: “… minha porção filha/ já buscou asilo/ agora leva conforto”. A autora nos remete a abissais buscas existenciais, “…Cio de versos diversos/ no ventre juntam palavras/ nascem poema e poeta”.
Construções que revelam uma autêntica feitora de imagens a nos exigir interpretação pessoal: “Do outro lado/ da margem/ o desejo”, ou, ainda, “Escrevo para falar/ do abismo/ da queda sem chão/ do medo da divisão/ e das coisas divididas/ e do fim”.
O interessante é que tudo isso cabe na palma da mão, seguindo o mesmo instinto de Paulo Leminsk: “A estrela cadente/ me caiu ainda quente/ na palma da mão”.
Portanto, o livro “Sentimento Dividido”, inclui-se numa prateleira restrita às pequenas-grandes obras que florescem de forma a nos levar a um imaginário único, como no livro de bolso “Amavisse e outros poemas”, de Hilda Hilst e Elisa Von Randow.
No fundo, ler Bilah Bernardes – em quaisquer que sejam as medidas do seu coração – sempre alvoraçam o quieto, desnudam o silêncio, reencarnam intuições, abalam a nervura escondida na alma, de forma a impactar todos os raios que sustentam a sensatez humana.
Por isso, nada mais justo do que relembrar um pequeno poema de Mônica Raouf El Bayeh, patronesse da Cadeira de nº 20 da Academia Poética Brasileira:“(…) Na palma da minha mão/ Onde começo e termino/ Sou todo o infinito/ E as estrelas que imagino”.
Parabéns Bilah Bernardes, com seu livro que coube na palma da minha mão, senti-me também, todo infinito.
Mhario Lincoln é Presidente da Academia Poética Brasileira.
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