Quarta, 02 de Setembro de 2026 22:25
(xx) xxxxx-xxxx
EXCLUSIVO

Posse de Rossini Corrêa na Academia Maranhense de Letras (Parte 02)

Ele foi eleito em 6 de outubro para a Cadeira 2 da AML e foi recebido pelo acadêmico Lino Moreira.

23/11/2022 15h38 Atualizada há 4 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Rossini Corrêa/academia marahense de letras
Rossini Corrêa
Rossini Corrêa

Parte (02)

O NOTÁVEL PATRONO 

Nasceu Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo a 14 de abril de 1857, nesta cidade de São Luís, filho de Emília Amália Pinto Magalhães e de David Gonçalves de Azevedo. A figura paterna, despedindo-se da atividade comercial, chegaria à condição de Vice-Cônsul de Portugal no Maranhão, participando da fundação do Hospital Português de São Luís e da instalação de Gabinete Português de Leitura e permanecendo no posto diplomático de 1859 até 1878, quando faleceu. 6 No ensejo do nascimento do primogênito do casal, a 7 de julho de 1855, batizado como Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo, o júbilo do pai de família foi tamanho, segundo Raimundo de Menezes, que resolveu ele tirar do ineditismo o livro que escrevera sobre a monarquia lusitana, intitulado Epítome Histórica de Portugal, fazendo-o publicar pela Tipografia de J.C.M. da Cunha Torres, situada à “Rua dos Barbeiros, no 8.”7 

Continua após a publicidade

Tratava-se da famosa Tipografia do Frias.8 Registre-se, de passagem, que há um equívoco na edição em papel bíblia da ficção completa de Aluísio Azevedo, promovido pela Editora Nova Aguilar e dedicada a Josué Montello, qualificado como “amigo muito amigo,” 9 qual seja, o da atribuição a este do que pertence àquele. O texto é o seguinte: “Recommendo aos meus filhos que tratem com muito carinho este livro escripto por seu avô, e publicado no Maranhão em 1855, isto é, no ano em que ali vim ao mundo. Rio de Janeiro, abril de 1904. Arthur Azevedo”. 10 Eis o engano: “Dedicatória de Aluísio Azevedo no único exemplar conhecido do livro Epítome Histórica de Portugal, escrito por seu pai e publicado pela Tipografia do Frias em São Luís no ano de 1855. (Coleção Manuel Portinari Leão)”.11 Quem, em definitivo, chegou ao mundo em 1855, ano da publicação do livro em questão, foi Artur Azevedo, responsável pela dedicatória e pelo autógrafo, e não Aluízio Azevedo, nascido em 1857, para quem é dispensável o benefício do desacerto editorial. 

Com amigos e amigas.

Interessa, sobremaneira, destacar que a mais preciosa herança, chave explicativa de todos - Artur Nabantino, Aluísio Tancredo, Américo Garibaldi, Maria Emília e Camila Amália - transmitida pelo historiador David Gonçalves de Azevedo aos descendentes, foi a paixão pela educação e pela cultura, no especial prestígio às letras e às artes. O concurso materno de Emília Amália Pinto de Magalhães foi positivo, descrevendo-a Dunshee de Abranches, resgatado por Jean- Yves Mérian, como “uma mulher culta”. 12 Maestria, portanto, conjunta, desenvolvida pelo casal formando pelo consórcio de Emília e de David, a merecer o reconhecimento de uma “das famílias mais cultas de São Luís.” 13 Os rebentos receberam, a princípio, educação doméstica, aguçando o gosto pela leitura, facilitada pela existência de livros em sua residência e do instantâneo acesso à biblioteca do Gabinete Português de Leitura. De mais a mais, precoce foi também a iniciação na língua francesa, facilitadora do contato com jornais, livros e revistas que constituíam o paradigma mundial de cultura. 14 David Gonçalves de Azevedo, em certeira intuição, estimulou a convivência dos filhos com o teatro, como pedagógica descoberta da arte de escrever e de representar, transformada em palco infantil a casa da família. 15 

De mestre-escola em mestre-escola, passou Aluísio Azevedo, estudante rebelado contra a paideia da palmatória, por didatas da força e encontrou refrigério para a sua alma de artista como aluno do pintor italiano Domingos Tribuzi. 16 Desde a mais tenra idade, amava o discípulo o pincel e as tintas, mas o pai, como fizera com Artur Azevedo, o dirigiu ao comércio, segundo o sonho de que, de caixeiro chegaria a sócio de uma empresa mercantil. Sob a rotina de uma mal disfarçada servidão, conseguiu Aluísio Azevedo, passando de casa comercial em casa comercial, matrícula no Liceu Maranhense, dirigido por Francisco Sotero dos Reis, poeta, filólogo e historiador da literatura.17 Constituído um fundo de reserva, o jovem pintor e desenhista convenceu o pai, com a colaboração materna, a deixá-lo partir para o Rio de Janeiro, desejoso de estudar na Imperial Academia de Belas-Artes, se possível, a caminho do convívio com os grandes mestres das artes visuais da Itália. Na Corte já se encontrava Artur Azevedo, exonerado do emprego de amanuense no Palácio do Governo, como registrou Josué Montello, sob a acusação de autoria de versos satíricos, jogados da torrinha do Teatro São Luís, em desfavor de autoridades, entre as quais, o Presidente da Província Carneiro da Cunha.18 

Com familiares, amigos e parentes.

Desembarcou Aluísio Azevedo no Rio de Janeiro, levando consigo a experiência de jovem professor de português e de desenho em escola privada, retratista a óleo e por encomenda da elite maranhense, bem como de pintor terrificante de defuntos, como se antecipasse, no seu realismo mórbido, certos elementos do expressionismo.19 E mais: na bagagem da sua consciência, carregava o jovem artista maranhense um quê de revolta com a sociedade estabelecida, que aprendera a conhecer trabalhando quinze horas por dia, vivendo nos fundos das casas comerciais, em quartos sórdidos, e, sobretudo, quando esbarrou com um quadro cortante: um escravo no tronco em pleno convento de Nossa Senhora do Carmo, supliciado, gemente e... sorrindo.20 A Corte recepcionou o jovem artista maranhense como caricaturista de sucesso, poeta lírico, pensador anticlerical e semente a desabrochar para a aventura plural das artes. 

O retorno de Aluísio Azevedo a São Luís foi determinado pelo falecimento do pai, em 1878, abandonando, de forma abrupta, a sua vivência de ilustrador, cenógrafo e jornalista. Com ares de Don Juan tropical, desembarcou o jovem artista na Ilha do Amor, tornando-se amigo de Celso Magalhães, poeta, prosador e ensaísta formado na Faculdade de Direito de Recife, Promotor em São Luís, cujo périplo acompanharia: de acusador de Ana Rosa Viana Ribeiro, assassina do infante Inocêncio, por suspeita de que fosse filho de seu marido, o chefe do Partido Liberal, Carlos Fernando Ribeiro, futuro Barão de Grajaú a demitido a bem do serviço público, quando 

da ascensão do referido liberal, ou luzia, ao poder provincial, em notória vingança política, que o conduziu à morte, tuberculoso e indigente. 

Continua após a publicidade

A ambiência cultural maranhense dispunha de sólida tradição jornalística, conforme sumariou Joaquim Serra. 22 São exemplos da permanência dos debates literários, científicos, sociais, políticos e do pugilato das ideias, detestado por Machado de Assis, folhas como “O Arquivo”, “Semanário Maranhense”, “A Flecha”, “ O País”, “A Civilização” e “O Pensador”. Aluísio Azevedo mergulhou em águas profundas nas demandas anticlericais, positivistas, republicanas, estéticas e abolicionistas, cuja militância foi consignada por Ivan Lins na História do Positivismo no Brasil, o qual não apenas sugeriu o estudo de sua ficção à luz da influência de Augusto Comte, como resgatou o relevo do seu diálogo com Celso Magalhães e os versos da profissão de fé no soneto intitulado 

“RESPOSTA À CARTA EXMa VISCONDESSA XXX 

Viscondessa, perdão, se esta missiva, Pesada, como é, na sua essência, Importuna magoar Vossa Excelência Com um bafo grosseiro à sensitiva. 

Porém me cumpre declarar com urgência, Que, lendo a Filosofia Positiva, 

Se bem que aquele assunto não me sirva, sobremodo impressionou-me a tal ciência. 

E desde então, querida Viscondessa, Por mais que jurem coisas do infinito, Dessa ideia não logram que me desça; 

Continua após a publicidade

Consenti, pois dizer o que repito, 

Inda que isso a vós mal vos pareça 

- Em alma, Deus e céus na acredito.” 23 

Aluísio Azevedo preparou o seu terremoto nada clandestino. Desta maneira, em 1879, pela Tipografia do Frias, publicou, sob a estética romântica, Uma Lágrima de Mulher: romance original e já em 1881, O Mulato, na explosão do naturalismo, com a influência próxima, de Celso Magalhães e remota, de Gustave Flaubert e Émile Zola. A edição de O Mulato aconteceu pela Tipografia de “O País”, jornal de Themístocles Aranha, pai de Graça Aranha, com tiragem de 1000 exemplares e propaganda pública do romance, 24 numerosa , em se considerando que São Luís contava, em 1870, segundo o Censo de 1872, encomendado por D. Pedro II a técnicos e a demógrafos alemães, com uma população de 31.604 habitantes, deles, 7.026 escravos e 24.578 homens livres, 25 muitos pobres e desvalidos, sem participação nas rendas concentracionárias da educação e da cultura. O jovem romancista desnudou o espírito de casta e seu racismo, postos a nu, do estamento rural do Maranhão e, em particular, da burguesia mercantil de São Luís, provocando estrépito na província, talvez sem precedentes, como resgatou Josué Montello, em Aluísio Azevedo e a Polêmica d´O Mulato.26 Foram, aqueles, tempos de definição de destinos: o de Celso Magalhães, quando do Processo-Crime da Baronesa de Grajaú; 27 o de Aluísio Azevedo, no ensejo da revelação do rés-do-chão moral da burguesia ludovicense, aliás, em nada diferente da elite brasileira. Ao primeiro, coube a imolação; ao segundo, restou a partida. 

O retorno do jovem romancista à Corte foi para o árduo trabalho no batente de jornal, nas atividades teatrais e na construção de uma obra de ficção, que o tornaria um dos fundadores do romance brasileiro. Em Portugal, escreveu Valentim Magalhães: “Aluísio Azevedo é no Brasil talvez o único escritor que ganha o pão exclusivamente à custa de sua pena, mas note-se que apenas ganha o pão: as letras no Brasil ainda não dão para a manteiga – como aqui também, creio eu”. 28 O legado do escritor maranhense compreende, na sua versão mínima, treze romances e uma fortuna crítica composta pelas vozes mais elevadas da crítica brasileira, de Franklin de Oliveira a Antônio Cândido. O argumento de Guilhermino César para O Mulato, tem validade para os romances com os quais desejou Aluísio Azevedo realizar a construção de um painel da sociedade nacional, a exemplo de Casa de Pensão e O Cortiço: estão situados “entre os poucos livros perenes da língua portuguesa.” 29Assistia razão ao mineiro do Rio Grande do Sul. 

Posse prestigiada.

Por estímulo de Graça Aranha, prestou Aluísio Azevedo concurso para Cônsul, no Ministério das Relações Exteriores, servindo, entre outros países, na Espanha, no Japão, na Itália, na Inglaterra, no Paraguai e na Argentina. Foi criado em torno do escritor maranhense, certo apressado consenso, de que a análise psicológica sucumbiu frente aos painéis sociológicos, reinando os personagens coletivos em sua obra romanesca. Não é verdade. Aluísio Azevedo trouxe para a literatura brasileira, conferindo-lhes cidadania, aqueles desqualificados como rafameia, pela preconceituosa elite nacional, abordando-os psicológica e socialmente. Outra postulação foi a de que, cansado de “vender miolo de cabeça para comprar miolo de pão,” 31na expressão de Humberto de Campos, recordada por Josué Montello, o funcionário diplomático teria deitado em berço esplêndido e esquecido as letras. Oliveira Lima buscou diversa explicação, logo ele, que detestava tudo que cheirasse a Joaquim Nabuco e a Graça Aranha,32 qualificando o absorvido diplomata Aluísio Azevedo como um Cônsul de excelência, em uma época na qual os Consulados brasileiros sobreviviam desaparelhados de tudo. A obra aluisiana mereceu os cuidados bibliográficos de M. Nogueira da Silva, anjo da guarda da vida e da obra de Gonçalves Dias,33 que entregou pronta a sua pesquisa, para Lúcia Miguel Pereira escrever a biografia do autor de Os Timbiras. 34 Está por ser reunida em livro a contribuição do Aluísio Azevedo artista visual, poeta, contista, cronista e teatrólogo, ora homenageada com a leitura do soneto 

“POBRE AMOR 

Calcula, minha amiga, que tortura! Amo-te muito e muito, e, todavia, Preferia morrer a ver-te um dia Merecer o labéu de esposa impura! 

Que te não enterneça esta loucura, 

Que te não mova nunca está agonia, 

Que eu muito sofra porque és casta e pura, Que, se o não foras, quanto eu sofreria! 

Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses 

Com teus beijos de amor, meus lábios tristes, 

Com teus beijos de amor, as minhas faces! 

Persiste na moral em que persistes. 

Ah! Quanto eu sofreria se pecasses, 

Mas quanto sofro mais porque resistes!” 35 

A GALERIA EGRÉGIA 

O patrono da Cadeira no2 nesta Casa de Antônio Lobo, Aluísio Azevedo, na Academia Brasileira de Letras foi fundador da Cadeira n0 4. O escritor maranhense recebeu, merecidamente, a láurea acadêmica, com a ressalva de que, em nível da sociedade civil, muitas vezes, há a cobrança de que as eleições entre literatos sejam justas, quando sequer os Tribunais de Justiça o são, de maneira cotidiana e permanente. Sem embargo de declaração, agravo de instrumento ou recurso inominado, o que ninguém poderá recusar às Academias, todas, é o direito de escolha. Onde houver excesso de desvio na curva, o direito de espernear será legítimo, na expectativa de que o tempo reponha o devido em seu lugar. Não é o caso, quer da Cadeira no2, quer da Academia Maranhense de Letras, regra geral, procedente em suas escolhas: 

razoáveis, admissíveis e segundo o referido direito - o da escolha para o convívio - como pontificou o decano plural José Sarney. Neste sentido, festejo a Casa de Antônio Lobo pela eleição do jurista, pensador e Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, belíssimo ser humano; do jurista, poeta e Conselheiro Daniel Blume; do engenheiro, Cônsul, e escritor José Jorge Leite Soares; e do professor, jurista e Homem de Estado Flávio Dino, todos, afinal, espíritos de Príncipes Renascentistas, como o foi o poeta, pensador e ensaísta, ser humano da melhor estirpe, o melhor dos Braga, Fernando Braga dos Santos. 

O fundador da Cadeira no2 foi Domingos Quadros Barbosa Álvares, nascido em São Bento, em 1880 e falecido no Rio de Janeiro, em 1946. O polímata em questão escreveu crônicas, contos, ensaios e romances, como escritor, lamentavelmente, mais inédito do que édito, deixando por publicar os livros: romances, O Lucas Sampaio e Sinhá Limeira; crônicas, A Esmo; Jardim Zoológico, fabulário; e Os Tipos Ecianos e Henriques Leal, estudos. Domingos Barbosa dirigiu a Imprensa Oficial, foi Secretário da Casa Civil, no Governo de Benedito Leite e Deputado Federal, aplaudido pela arte oratória, de Demóstenes, na Grécia e de Cícero, em Roma. Destacam-se, entre os éditos do pioneiro em questão, Mosaicos, O Dominó Vermelho, Contos da Minha Terra e Silhuetas, sobretudo de contos e o estudo Os Irmãos Azevedo (Arthur, Aluísio e Américo,36 contribuição à interpretação do complexo parental de talento, com participação decisiva na afirmação e na projeção das culturas maranhense e brasileira. 

Fernando Ribamar Viana sucedeu a Domingos Barbosa, como autor de Folhas Soltas, livro de sonetos que li vezes infinitas, quando criança, na estante nutrida da casa de minha avó paterna, Izabel Couto Corrêa, mãe de filhos inteligentes e ilustrados – Wilson, Walter, Williams, José, Luiz e Francisco, com culta presença na vida cívica, política, jurídica e jornalística do Maranhão. Escreveu ainda Fernando Viana - médico de formação e de prolongado exercício, professor universitário e, como Domingos Babosa, parlamentar, só que Deputado Estadual Constituinte, em 1946 - Bocage- uma vítima de sua época, 37 em visitação erudita à cultura ibérica, em mais uma convergência com seu amigo e meu antecessor Fernando Braga. Jornalista, como Domingos Barbosa, Fernando Ribamar Viana, pai de uma plêiade de talentos, versejava como quem respira, do que são testemunhas os livros Seara e Passarela & Outros Perfis, este, assinado sob o pseudônimo de Feliciano Ventura, retratando a si mesmo e aos demais, entre eles, Fernando Braga dos Santos, no soneto 

FB 

Baixote e gordo, o olhar risonho e franco, (Como a escola da Alsácia, de Junqueiro) 

Este, errando o caminho, entrou pra um banco E, em vez de verso, conta o vil dinheiro. 

Poeta alma de lusa (sem tamanco!), 

É-lhe mansa a poesia, qual ribeiro 

A cujas águas, num silêncio branco, 

Debruçam-se as ramadas de salgueiro... 

Em começo, discípulo de Augusto, Foi, afinal, com grande esforço e custo 

Que dele se desfez... hoje é pessoa 

Que faz versos pessoais unicamente, 

Muito embora, ao fazê-los tenham em mente 

O homônimo, o outro - o de Lisboa...” 38 

A sucessão hereditária de Fernando Viana transcorreu por meio de mais um descendente talentoso, no caso, Waldemiro Antônio Bacelar Viana, que a legitimou com a construção de uma significativa obra literária. Bacharel em Direito com vasta experiência enquanto gestor e assessor na burocracia de Estado, em especial, junto a órgãos culturais, educacionais, jurídicos e administrativos, quer estaduais, quer federais, Waldemiro Viana não se descuidou da sua vocação de escritor, publicando, entre outros livros, Graúna em Roça de Arroz, A Questionável Amoralidade de Apolônio Proeza, O Mau Samaritano, Passarela do Centenário e Outros Perfis, A Tara e da Toga, O Pulha Fictício, A Vez da Caça e Maria Celeste da Terra e do Mar. Homem de espírito crístico, o prosador em questão cumpriu a regra estampada em Efésios 6:1-3: “ Honra teu pai e tua mãe para que tudo te ocorra bem e tenhas longa vida sobre a terra.” 39 Proclamou-o Waldemiro a propósito de Fernando Viana: “ meu pai me ensinou a ser justo.” 40 Eis tudo: sentenciou Aristóteles - na Justiça toda a virtude se encontra resumida. 41 

Novamente houve o signo e o império da amizade, com a sucessão de Waldemiro Viana por Fernando Braga, igualmente Bacharel em Direito e Pós-Graduado em Direito Penal pela Universidade de Paris-Sorbonne. Autor numeroso, o melhor dos Braga deixou inéditos três livros de poemas, um volume de memórias, no superior estilo evocativo, de Bernardo de Almeida, em Éramos Felizes & Não Sabíamos. 42 Entre os éditos são de se destacar, entre outros, Silêncio Branco, Chegança, Ofício de Medo, Planaltitude, O Exílio do Viandante , Campo Memória, O Sétimo Dia, Poemas do Tempo Comum, O Puro Longe, Magma e Sabolim, todos de poesia. Ensaísta, Nando, como os íntimos o chamávamos, publicou Elmano, o injustiçado cantor de Inês, para ser econômico, lançado festivamente em Portugal. Quando o melhor dos Braga, encantado, se transformou em estrela e em saudade, a pedido do poeta Roberto Franklin, escrevi o seguinte texto: 

“APOLOGIA DE FERNANDO BRAGA 

Dizia Aristóteles em uma passagem da Política, que na harmonia e na rítmica há uma possível analogia com a condição humana. Recordou o Estagirita, então, que muitos entre os filósofos definiam a alma como uma harmonia. Talvez coubesse acrescentar: ou uma 

desarmonia. Fernando Braga, para mim sinônimo de amizade, compadrio e irmandade, cedo partiu para o Etéreo, levado pelas águas de março deste emblemático ano de 2022. A esperança de vida, regra geral, se encontra em elevação, em consequência de múltiplos fatores, um dos quais, o progresso científico. Ancorados na variável em questão, sonhávamos nós com o já saudoso ensaísta, poeta e memorialista ludovicense nonagenário, senão centenário. 

Como não é possível combinar com o imponderável e o homem, segundo certa tradição existencialista, é o seu projeto, exposto a ser rompido em qualquer tempo, Fernando Braga – que a Lino Moreira, Mário Luna Filho, Roberto Franklin, Reynaldo Soares da Fonseca e a mim revelou a expectativa de, no sábado, estar em casa, nele já estava na Eternidade. Os que ficamos, sob a rubrica das grandes amizades – José Sarney, Joaquim Itapary, Venâncio Gomes, Rosa Machado e Ana Luiza Almeida Ferro, sem o impossível olvido de Américo Azevedo Neto – herdamos a responsabilidade para com a memória bragueana. 

Temerário, esqueci alguém? Sim. Paulo de Tarso Nascimento Moraes. Recordo-me, de passagem, que conheci Fernando Braga quando eu, adolescente, cursava a primeira série do ginásio no Colégio Zoé Cerveira, de Nadir Adelaide do Nascimento Moraes. Ali estava o poeta perto da cantina, sentado em uma escada, benjamim da turma, cercado por meu mestre Nascimento Morais Filho, seus irmãos, João José e Paulo Nascimento Moraes, Lopes Bogéa e Amaral Raposo. Seguimos irmanados vida afora, em uma amizade que não terminou quando Andreza Maria, filha de poeta, chorando, a mim me confessou – ‘Meu pai te amava’ – para que, junto à sua mãe, Patrícia de Nazaré, em lágrimas, lhe respondesse: ‘E era correspondido’. 

Entre idas e vindas, Brasília foi o nosso destino comum, e juntos sempre estivemos. Gregário, Fernando Braga pertenceu à aristotélica família das almas harmônicas, vivendo sob uma permanente paixão maranhense, à volta de Lourenço Vieira da Silva, Wolney Milhomem, Clóvis Sena e do seu segundo pai, Joel Barbosa Ribeiro, mais tarde, Luís Carlos Bello Parga, à frente de todos, Nunes Pereira. 

A poesia foi a digital da existência bragueana. Ensaísta de qualidade e memorialista de fôlego, em tudo que o intelectual maranhense escreveu há o halo molecular da poesia. É como se eu pudesse vocalizar que o menino da Rua do Passeio era, naturalmente, poeta. Aquele que, no verdor dos anos, foi levado ao Rio de Janeiro por seu tio Pedro Braga e ali conheceu Manuel Bandeira, com o mestre conversou sobre literatura e a ele declamou os seus primeiros poemas. Aquele que, frequentando a casa da educadora Nadir Adelaide do Nascimento Moraes, essa o recebia, desafiando-o: ‘Vou mandar buscar cerveja, mas só se tu sentares aqui e escreveres uma poesia’. E o poema nascia, por ser, nele, uma forma de respiração como condição de vida. 

O novo imortal da AML.

Crescido no convívio com as gerações maranhenses pretéritas, Fernando Braga reteve, na esfera das evocações pessoais, a riquíssima crônica da vida literária ludovicense, tornando-se, desta maneira, um sedutor memorialista. As braguenas Conversas Vadias estão repletas de vivências, resgastes, registros e iluminações, sob a razão sensível de afetuosas interpretações, em que desfilam Erasmo Dias, Astolfo Serra, Fernando Viana, Clarindo Santiago, Fernando Perdigão, Luso Torres e mais outros e outros mais, muitos, por convívio pessoal e alguns, por episódios relatados a si, cercados todos pelo cuidado da pesquisa. 

De qualquer forma, Fernando Braga garantiu, por meio do convívio com as gerações precedentes, a acessibilidade às lembranças da boêmia intelectual da Belle Époque ludovicense, ou do que dela foi, no tempo social, prolongado, tornando-se senhor de um manancial de reminiscências valiosas para o Maranhão e a sua história cultural. Quando publicadas, as Conversas Vadias constituirão um livro para ser colocado na estante, ladeado por Galeria e Éramos Felizes & Não Sabíamos, de Bernardo de Almeida; As Lâmpadas do Sol, de Carlos Cunha; Diário de Campo, de Ubiratan Teixeira; Sol a Sol, de Arlete Nogueira da Cruz Machado; e, entre outros, Passarela & Outros Perfis, de Fernando Viana e Páginas de Crítica, de Erasmo Dias. 

Com a paciência de artesão, deixou Fernando Braga organizado o conjunto de sua obra literária, tanto a édita, quanto a inédita, em verso e em prosa, reunindo poemas, crônicas, críticas, ensaios, memórias e estudos jurídicos e políticos. Sucede que o menino da Rua do Passeio, fiel a si mesmo, sem demissão de sua íntima vocação, muito trabalhou a palavra e o pensamento, legando à causa da cultura o testemunho de sua passagem perduradoura pela vida terrena, em tesouro do espírito a ser compartilhado, agora sob a curadoria de sua amada filha Andreza Maria Braga dos Santos. Estimo que as instituições de cultura maranhenses, as quais albergaram a presença bragueana, sem dúvida, concorrerão para a publicação do seu fulgurante patrimônio literário. 

Quando da fundação da Academia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política – AMCJSP, em companhia dos ilustres confrades João Batista Ericeira, Sérgio Victor Tamer, Raimundo Palhano e Jhonatan Almada, eu constatei a comum alegria com que a trajetória braguena foi recepcionada no rol dos pioneiros da novel instituição cultural. Quanto à Academia Maranhense de Letras – AML, com certeza, foi uma paixão de toda a vida do menino da Rua do Passeio, afinal, a Casa de Antônio Lobo recepcionara aqueles intelectuais menos jovens, de que fora o benjamin: Astolfo Serra, Fernando Viana, Amaral Raposo, Nascimento Morais Filho, Antônio Almeida, Erasmo Dias, Paulo Nascimento Moraes e, para não ser exaustivo, Nunes Pereira, duas vezes eleito... Consumada a vitória bragueana no ano de 2021, o pressionei, amorosamente, para que tomasse posse logo, sem saber que o coração generoso do jurista Reynaldo Soares da Fonseca oferecera-lhe a possibilidade de que tomassem posse juntos. Com a saúde debilitada, o poeta ora chamado saudade, confessou-me que só pretendia fazê-lo no segundo semestre de 2022, quando a astenia passasse e o fôlego estivesse recuperado. As águas de março não permitiram e o levaram para o mar da Eternidade. 

Foi quando, quase desolado com a ironia do destino, como também ficou Lino Antônio Raposo Moreira, o seu Simão Cirineu na eleição acadêmica, recebi uma mensagem de Whatsapp de um Príncipe Renascentista chamado poeta e jurista Daniel Blume, no fatídico dia 11 de março: 

- “Perdemos um grande amigo e poeta. Perdemos Fernando Braga.” 

- “Verdade, Daniel. Te queria um grande bem. Meu amigo e compadre da vida toda. Estou de coração partido.” 

- “Ele sempre falava de você e de Luna como irmãos. Mantive contato recente com ele, pois queria tirar a Ordem dos Advogados Portugueses. Estava auxiliando. Ele me disse que iria morar lá com a filha.” 

- “Verdade. Sonhou com o retorno às origens paternas, Sim. Mário Luna e eu constituíamos a sua irmandade mais íntima, onde também estava, como irmão mais velho, Joaquim Itapary, a quem chamava carinhosamente de Quincas.” 

- “Sim. Pena que não chegou a tomar posse na AML.” 

- “Muita pena. Um sonho acalentado por 53 anos. Insisti muito para que ele tomasse posse logo. Ele pensava em assumir só depois da renovação do prazo de 6 meses, no fim deste ano. Aqui aconteceu assim, com Marco Maciel. A Academia Brasiliense de Letras – AbrL deliberou por considerá-lo empossado e depois declarou vaga a sua Cadeira, para a qual se elegeu Hugo Napoleão, com posse marcada para 8 de abril próximo.” - Sim. Boa ideia.” - “A intriga do bem funcionou. Nada melhor – como disse Joséphe Sièyes sobre Napoleão Bonaparte – do que colocar a causa certa, na mão do advogado certo, no lugar certo e na hora certa. Parabéns! Foste protagonista de um ato de justiça literária para com Fernando Braga. Ele, da Eternidade, te agradece. E seus amigos e familiares também. Abraço afetuoso do Rossini Corrêa.” - “Ideia sua. Fui apenas o executor. O Poeta merece todas as nossas homenagens.” 

- “Brilhante, extraordinária executor! O Poeta merece todas as nossas homenagens. Tu também, por seres dez.” 

Continua. Clique aqui PARA LER (A última parte): https://www.facetubes.com.br/noticia/3275/discurso-de-posse-do-imortal-rossini-correa-parte-01

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 19h01
15°
Tempo limpo

Mín. 12° Máx. 19°

15° Sensação
2.06 km/h Vento
90% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (03/09)

Mín. 10° Máx. 22°

Tempo limpo
Sexta (04/09)

Mín. 13° Máx. 25°

Chuva
Ele1 - Criar site de notícias