A BULA DOS SETE PECADOS: UM OLHAR PARA A EXISTÊNCIA
(*) Paulo Rodrigues
Mhario Lincoln é advogado, auditor fiscal aposentado, poeta e escritor brasileiro e presidente da Academia Poética Brasileira, instituição da qual sou membro com muito orgulho. Realizamos muitos eventos juntos em São Luís e também em Santa Inês, divulgando o trabalho cultural da APB.
Somos inquietos. Acreditamos que a literatura pode interferir na ordem social, alterar as rotas e até construir um país mais justo. Sonho? Talvez, mas é preciso sonhar. No entanto, vamos deixar de conversa. O assunto da vez é o livro A Bula dos Sete Pecados do Mhario. Uma coletânea produzida pela editora PalavraeVerso (120 páginas) em 2020.
O poeta é dono de um estilo leve, que observa as cenas do cotidiano para extrair delas o elixir da vida. Com a sapiência dos homens maduros, consegue a jogada certa com o melhor da linguagem. Li e reli os textos com a mesma empolgação, porque ficamos motivados para a leitura da obra.
Destaco ainda que o Mhario Lincoln trabalhou durante 40 anos como jornalista profissional em jornais e TV (entre eles, o SBT/Difusora). Talvez esta atividade deu a ele a capacidade de usar imagens profundas na construção no texto poético. Parece mesmo um passeio numa sala entre o cinema e a página poética.
O poeta vai buscar inspiração no cânone, reconstrói os passos do nosso maior poeta romântico:
A GONÇALVES DIAS
Gonçalves,
que Dias
o amor intenso,
mas proibido
na volta ao porto,
apenas teu corpo
carregado pelas brumas
da baía de São Luís
náufrago da paixão e dos oceanos
da incompreensão humana.
O diálogo é intenso, lírico, com uma intenção de remodelagem do sentimento poético sobre a morte de Gonçalves Dias. A intertextualidade é uma constante nos textos pós-modernos. Graça Paulino afirma: “a apropriação, enquanto prática intertextual, transita em muitas remodelagens de ideias e acontecimentos”. Acontece isso, nas reconstruções do poeta Mhario Lincoln.
Num outro momento do livro, o poeta recupera a libido da palavra com lances de linguagem, muito ligados ao vivido (dando mesmo concretude ao simbólico). Ele faz com galhardia o reviramento das nossas sensações:
por que amo tanto ciganas?
uma cigana
fata Morgana
rosto nirvana.
a alma engana?
o coração reclama
a libido inflama.
Mhario sabe incendiar o lirismo moderno com a raiz entomológica do verbo latino “vocare”. É uma invocação quase sinestésica, que estimula o leitor a continuar se desafiando na leitura do poemário. Faz excursões interessantes nas suas próprias comoções, nos apresentando reflexões interessantes sobre a existência.
Parabéns, Mhario!
TEXTO: Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia, especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018). Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório. É membro da Academia Poética Brasileira.
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