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Especiais ENTREVISTA

VICEVERSA com KEILA MARTA, Crítica de arte e Analista Literária: 'Poesia & Morte'. 'Poetas e Catarses'. Literatura e Civilização'

É graduada em Pedagogia - UNOPAR e Letras Língua Portuguesa - UEMASUL

31/07/2020 19h06 Atualizada há 4 meses
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
Jornalista Mhario Lincoln e pedagoga Keila Marta
Jornalista Mhario Lincoln e pedagoga Keila Marta

VICE VERSA

MHARIOLINCOLN KEILAMARTA MHARIOLINCOLN

 

 

 

Mhario Lincoln 1 - As pessoas costumam confundir o eu, com o sujeito da ação político-social, poético etc. Como definir cada um, em separado?

KEILA MARTA: Para melhor responder a essa pergunta, o primeiro passo é tentar explicar o conceito da palavra eu que, se buscarmos em qualquer dicionário encontraremos dois significados: um pronominal quando alguém fala de si, e como substantivo masculino para se referir a individualidade humana. E se formos analisar de forma filosófica ou seguindo conceitos da psicologia perceberemos que o eu, é um personagem que o ser humano cria a partir de um referente que é o outro, e que é utilizado para se apresentar a sociedade. Por esse motivo nos deparamos com muitos personagens da vida real, com tantos eus que se misturam. Mas, é possível separar por exemplo o eu (pessoalidade), do eu poético, logo um é personagem da vida real o outro do mundo fictício. No caso do eu político em relação ao poético, estes podem até andar juntos, no entanto, acredito que seja necessário que o poeta saiba utilizar o tom certo da política como e com a linguagem poética. É importante ressaltar, que o sujeito saiba utilizar adequadamente esses eus em cada contexto, uma vez que se trata de uma vestimenta social.

 

ML- 2 - Como você, excelente analista e crítica literária, considera o excerto na literatura grega de um melhor significado ao conceito paidéico de educação, quando Sócrates, Platão, Isócrates e Aristóteles questionam-no e o elevam a um nível mais filosófico?

KM: É sabido por muitos que é na Grécia Antiga que se origina o papel do pedagogo, a função daquele que conduz a criança para algumas experiências com o conhecimento, os chamados mestres, obviamente numa realidade totalmente diferente dos dias atuais. A partir dessa prática os gregos passaram a vivenciar uma forma de educação mais avançada, o modelo paidéico de formação, baseado na relação direta com a cultura, cujos primeiros professores eram os sofistas, pessoas que tinham forte espírito de busca, e se tratava de um método bastante avançado para a época. Esse conceito se amplia em Sócrates, Platão e Aristóteles, no sentido de tal prática de forma orientada passou a conduzir os jovens ao pensamento crítico, e essas questões filosóficas se aliam a didática, e sempre no propósito de guiar o jovem ou discípulo para as boas virtudes.

 

ML- 3 - A geração de 1945 é considerada uma das mais importantes e produtivos para a Literatura brasileira. Também conhecida como terceira geração modernista. À propósito, em uma entrevista que fiz com o poeta João Bosco Vidal, ele afirmara não mais despontar grandes poetas como os do século passado. Concorda?

KM: Concordo, a primeira geração modernista criou uma base muito forte, que se desdobrou no decorrer de praticamente todo o restante do século XX, uma vez que os bons textos que tenho me deparado são de escritores veteranos, reminiscentes desse período, e lamentavelmente o texto poético como gostamos de ler tem se descaracterizado na forma de escrever dos poetas pós-contemporâneos. Já tentei entender se é uma questão de empobrecimento de linguagem ou se por um problema de adaptação da minha parte.

 

ML-4 - O que mais lhe chama a atenção e o que dá realmente força a uma poesia?

KM: Quando passo os olhos em um poema o que me chama mais atenção é o jogo de palavras utilizado para compor cada verso, e ao final da estrofe tiro minhas conclusões se o texto possui uma mensagem maior nas entrelinhas e a partir daí escolho se devo continuar ou não. Mas o que dá força a uma poesia é o poeta conseguir ser leve ou forte, fazendo a cadência certa a fim de que o leitor consiga perceber o jogo de ideias e tenha algum sentimento no decorrer da leitura, não necessariamente se faça depois grandes problematizações. Uma experiência de que sempre volta na minha vida de leitora, é que às vezes nas primeiras linhas percebo que o texto é denso demais, não possui sentimento poético, aí não tem como a leitura fluir, a não ser que seja obrigatória.

 

ML-5 -Nosso conterrâneo, crítico literário e escritor maranhense Franklin da Costa, autor do incontornável “Literatura e civilização” (1978), disse: “ (...) a poesia, exige um modo de ler que o contexto atual dificulta com sua velocidade de comunicação, de apelos visuais e ruídos, jogando o sujeito para fora de si, não permitindo tempo-espaço para uma disponibilidade de silêncio interior”. Concorda?

KM: Concordo, que a poesia bem lida requer tempo, uma vez que estamos falando de um texto basicamente sonoro, muito delicado que cobra um ambiente propício tanto no plano interior quanto exterior, para se ler em silêncio ou para uma leitura em voz alta. Até porque é um tipo de leitura que se deve encontrar o tom certo, as pausas e as pontuações devem ser lidas adequadamente. Mesmo um poema concreto precisa ser bem olhado, sem pressa.

ML – 6 - Poetas e Catarses. Um dilema sem tamanho. Alguns admitem tê-la usado para produzir seus dramas ou comédias. Mas até hoje se discute em que patamar lógico encontra-se a Catarse. Contudo, lá pelo século XVIII, encontramos a célebre interpretação de Gothold Ephraim Lessing. Diz ele: “A catarse é um processo de transformação das afecções passionais em disposições virtuosas (...)”. Qual a sua opinião, poeta, e se a Catarse faz parte da sua produção literária?

KM: Acredito que a catarse esteja presente na escrita de muitas pessoas que carregam consigo pensamentos reprimidos, e conseguem passar o pensamento para o papel de forma libertadora até para o leitor que se identifica, pois a catarse funciona como um processo de cura e ao mesmo tempo pode funcionar como o propósito das tragédias gregas, por meio de situações trágicas levar o espectador a catarse, e com isso acontece um processo de identificação evitando que tais os atos sejam repetidos. Por diferentes aspectos, não vejo um processo catártico na minha escrita, pois eu busco escrever com os sentimentos que estão às claras, as boas percepções, gosto de escrever com leveza e harmonia.

 

   ML – 7 - Outro dia caiu-me às mãos, o livro de Sergio Bittencourt, de Vila Velha/ES. Chama-se “O Mundo Mágico da Poesia”. Ainda não o li. Mas o irei fazê-lo. Isso lembrou que poderia lhe questionar o seguinte: em algum momento, os textos que você escreve com muito esmero, já fizeram alguma mágica?

KM: Sem nenhum fato excepcional toda vez que termino de escrever percebo a magia que as palavras possuem, quando bem utilizadas. E a maior mágica que eles fazem é cair no gosto de novos leitores, isso me deixa muito feliz.

 

ML – 8 - Em algum momento você achou que sua profissão não lhe renderia frutos maduros? Quais foram os objetivos principais das suas escolhas?

KM: Eu sempre pensei que a minha formação em letras, seguindo essa vertente da análise e crítica literária pudesse me render algo em algum momento, no entanto, imaginava que seria um pouco mais para o futuro, e graças a Deus as coisas estão acontecendo num ritmo muito prazeroso.  E quanto as minhas escolhas os objetivos principais sempre foram: fazer o que me dar prazer, propiciar uma leitura prazerosa, com conhecimento, demonstrando que a literatura é construída de possibilidades e é possível explorá-la, eu aponto uma, a partir daí o leitor segue só. E utilizo a análise para ressaltar o que há de melhor seja em um romance, poema, crônica ou outros gêneros e que talvez não tenha sido percebido da mesma forma por outros.

 

ML – 9 - Em todas as produções humanas, há um ciclo onde se desenrolam o nascer, o ápice, a glória e a decadência. Um ciclo brutal e inilivrável para tudo, inclusive para a atual importância da poesia e da literatura em geral. Digo isso porque abri o jornal Le Monde (França) e li, em letras quase garrafais: “A poesia não se vende e, portanto, não tem mais importância. É claro que esse gênero literário não é o único que perdeu fatias de mercado na cena cultural atual (...)”. Está havendo, também, esse baque nas manifestações brasileiras?

KM: Com certeza no Brasil o mercado literário anda em queda, há muito o que fazer para conquistar leitores, principalmente de poesia, mas existem romances, pensados para os grupos de leitores dessa nova geração que estão super em alta. Isso se deve, acredito, ao fato de que no comum, as pessoas acima de 30 anos não têm muito o hábito de ler, enquanto o maior número de leitores está nessa faixa de 12 a 16 anos.

 

ML-10- Mônica Raouf El Bayeh, confreira da Academia Poética Brasileira, falecida no Rio de Janeiro, final de março, numa das últimas crônicas que escreveu para o jornal “Extra/Rio”, disse, em parágrafo final, “(...) Somos rabo de lagartixa, pode cortar que nasce de novo”. Então, quantas lutas enfrentamos para seguir em frente sempre? Como disse Mônica, "superando cada estrela morta, sufocado pelo próprio brilho"?

KM: Na minha concepção somos chamados a vida para acertar, mesmo quando as escolhas pendem para algo errado, que o erro seja do destino e não de nós mesmos. Então, se algo no meio do caminho não deu certo é preciso superar, avaliar os erros e acertos, juntar tudo que sobrou de bom e recomeçar.

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KEILA MARTA-1- Sua mãe Flor de Lys, foi um grande nome no colunismo social do Maranhão. Quais as influências dela para você e como foi crescer em meio a tanta efervescência cultural?

MHARIO LINCOLN: Minha mãe exerceu uma influência muito grande em minha formação. Fiz a faculdade de Direito a pedido de meu pai. Mas a imprensa e as artes sempre foram meu fraco. Desde pequeno entrevistava minhas irmãs menores (Cristina e Dalvinha) vestindo-as de ‘celebridades’, como se fosse num grande programa de televisão. Quando assisti pela primeira vez aos ‘reclames’ da “VARIG, VARIG, VARIG”, me apaixonei por aquilo. Usar a arte para fazer propagandas ‘humanas’, com a emoção, a família, o amor, para passar a mensagem, como aquelas que a VARIG usou ao inaugurar a rota para Tóquio e Portugal. Depois daquilo, levado pela minha mãe todas as manhãs para as redações do glorioso ‘Jornal Pequeno’, o matutino mais lido do Maranhão, onde ela escrevia uma coluna social, aprendi a me perder entre as máquinas tipográficas, a sentir o cheiro forte de tinta e daquele papel escuro, macio, onde tirei algumas cochiladas, deitado ali mesmo, sobre as resmas, quando me cansava de passear pelas oficinas. Por outro lado, quando o assunto é Arte, desde os meus 5 anos de idade assistia a grandes películas, quando, em todas as sextas, os filmes que iam estrear no sábado nos grandes cinemas de São Luís, eram projetados no terraço de nossa casa, à Rua dos Afogados, 530. Os convidados discutiam sobre literatura, através do cinema. “E o Vento Levou” me fascinava. “Dr. Jivago”. “Rim-Tim-Tim”. Às vezes, o filme era proibido, mas eu me pendurava na janela do banheiro do segundo andar para ver Boris Karloff atuando em “A Noiva de Frankenstein”. Então, desde cedo fui naturalmente sendo envolvido nesse mundo de arte e fantasia. E deu no que deu. (Risos).

 

KM-2- Academia Poética Brasileira é sem dúvida uma brilhante instituição, pois tem a finalidade de reconhecer talentos na poesia e outras áreas da arte, dando-lhes as devidas oportunidades. Mas em algum momento houve arrependimentos?

MH: Não houve nenhum arrependimento. Mesmo tendo sido muito criticado no começo, quando uma minoria de nomes ligados à literatura regional da cidade onde resido, afirmava que uma Academia deveria ser para ‘intelectuais de alto nível’. Como se essas pessoas pudessem julgar esse ‘alto nível’. A APB foi criada para garantir a participação efetiva de bons músicos e artistas, até então, sem oportunidade na grande mídia. Integram a APB muitos artistas, com imenso potencial, comprovadamente. Todos puderam mostrar talentos individuais incríveis e têm a chance de contribuir para isso através dos canais da APB, como a Plataforma MHLB (11 mil views mês, a média, by Google Analytics), além da iTV Artesanal e a Radioweb MLB. Esse trabalho acadêmico foi reconhecido por instituições nacionais e internacionais, apenas 4 anos depois de fundada. E isso não tem preço. Aqui, aproveito para deixar minha homenagem póstuma a três membros efetivos que foram fundar uma seccional da APB no Céu: a radialista e ativista cultural Helena Leite, o poeta, escritor e ativista cultural Samuel Barreto (ambos da seccional do Maranhão) e a psicóloga, poeta e escritora Mônica Raouf El Bayeh, da seccional do Rio de Janeiro.

 

KM-3- Em uma de suas frases diz: ‘toda liberdade plena é plenamente frágil’. Para você o que é liberdade? Existe um limite como prevenção dessa fragilidade?

MH: Acredito ser a liberdade ampla, ininterrupta, desfraldada, desalinhada, descuidada, desorientada, iludida, sem fins práticos para o indivíduo ou para a comunidade, algo fragílimo.  O conceito básico de liberdade é aquele em que o indivíduo tem direito de agir, segundo o seu livre arbítrio, contudo, desde que não prejudique terceiros, pelo menos, os que estão fora do contexto das discussões. Exatamente aí é que eu começo a vislumbrar o limite. Quando a liberdade ampla e irrestrita abalroa a liberdade do outro, não é mais liberdade. É imposição! “Fazer o outro pensar como o impositor, com a desculpa de ganhar liberdade”. Mesmo porque a liberdade sem diagnóstico é irresponsável. E sendo assim, de uma dicotomia inconteste. À propósito até li recentemente uma frase de Irma Jardim: “Liberdade é ter a coragem de ir contra tudo e todos para buscar o que te faz feliz”. Alguns podem até conceituar tal atitude de ‘liberdade’. Eu, não! Acho-a de um egoísmo indecifrável.

 

KM-4- Nas suas redes sociais e outras páginas relacionadas, se percebe um Mhario bastante eclético. Qual a análise do atual jeito de fazer jornalismo e o que mais pesa quando se avalia um jornalista tradicional de carreira e um youtuber?

MH: No meu início profissional diagramava com o chumbo quente, expelido pelas máquinas de linotipia, no final dos anos 60. Nem pensava nessa evolução tão rápida, em poucos anos. Quando dei por mim, lá estava a ‘nova maneira de se fazer jornalismo’. Porém, achava muito difícil sair da velha ‘Remington’ e assumir o teclado de um computador Apple, para entrar na era moderna. Hoje, beirando os 70 anos de idade notei que as coisas não são assim, feito ‘coisa velha’ e ‘coisa nova’. Há, na verdade, uma ‘mudança constante’. Essa é a tese (que eu abraço) de Pierre Lévy, (“O Que é Virtual?”, Lévy, Pierre, Rio de Janeiro: Editora 34, 1996). Antes, estava obcecado e dizia sempre, ‘preciso mudar’, para me adaptar ao ‘virtual’, ‘redes’, Orkut. Isso, com o advento da internet, rede a qual conheci no começo dos anos 80 e passei a usá-la de forma constante. Ano passado, entrevistado num programa de rádio em minha terra natal, São Luís-Ma, alguém me perguntou se eu estava adaptado ao ‘jornalismo moderno, cheio de peripécias ‘novas’, como ‘ctrl/C’ e do cvtrl/V’”? Fiquei realmente sem resposta por alguns instantes. (Ele até levantou o BG). Mas tive que responder e tentei explicar que a moderna internet é bem real. O virtual nada mais é do que pura evolução. O virtual nunca será oposição ao antigo. E para explicar isso há uma expressão cunhada por Lévy: ‘virtualização’. E o que é essa virtualização? É a evolução (e não mudança abrupta), nem contraposição do real, que sempre existiu no mundo, pois integra a própria ascensão da espécie. Então, quando você me pede para avaliar ‘um jornalista de carreira com o eu-youtuber’, poderia responder com essa expressão de Pierre Lévy: “virtualização”. Obrigado por me ter dado a oportunidade de responder, através de você, a tantas pessoas que costumam perguntar sobre.

  

KM-5- Mhario poeta, escritor de vários estilos, jornalista, presidente da APB, sempre envolvido com muitas atividades. Dentre estas, qual é a sua melhor versão e a mais desafiadora?

MH: A mais desafiadora das minhas atividades é lutar sempre pela certeza de que minhas ações e a de todos os que estão envolvidos nelas, servem para dinamizar o setor de literatura, dentro de uma coletividade bombardeada diariamente por notícias tão avassaladoras. No momento em que você publica belas poesias, vídeos, músicas, obras de arte e textos realmente muito bem escritos, o retorno é de que nossas atividades estão servindo a um bom propósito. E você, Keila Marta, faz parte desse universo.

 

KM-6- Recentemente foi publicada em HQ seu conto ‘Vampiros de Areia’. Como é essa experiência com a Literatura Fantástica e qual a repercussão desse lançamento? Levando em consideração que se trata de um livro híbrido, (romance x HQ), esse formato se torna mais atrativo?

A ideia foi de minha editora, a confreira Vanessa Musial. Ela vislumbrou a possibilidade de adaptar o conto para HQ. Foi uma experiência fantástica (https://www.palavraeverso.com/shop), que me deixou bem feliz, pois essa obra é a primeira que escrevo no gênero da Literatura Fantástica. Quanto ao formato, é bem atrativo, haja vista que muitos romances clássicos têm sido adaptados para os quadrinhos, facilitando ainda mais a leitura.

 

KM-7- Alguns dos seus poemas são bastante saudosos. A saudade é uma palavra poética?

MH: Pablo Neruda diz que a saudade é como uma solidão acompanhada. Acho que é isso. A minha solidão está ligada mais ao que vivenciei no meu passado profissional. Pessoas que conheci, trabalhos que fui muito feliz em fazê-los, cargos públicos que a mim foram confiados e as respostas positivas deles. Hoje minha solidão de não mais participar ativamente da vida comunitária, como fiz por longos 45 anos, dá-me saudade. E por que solidão? Não é solidão de pessoas. Mas solidão de ações, entende? Sou muito ativo. Quero fazer tudo ao mesmo tempo. Quero sempre permanecer ao lado de pessoas que decidem. Porém, esse aparente ‘sossego solitário” traduz saudades. Isso pra mim é saudade; não de amores. Ah, os amores profissionais, de experiências de vida etc! Não me dão saudade porque não os perdi. Estão muito bem guardados e tratados no aconchego de meu coração. Mas as ações pertinentes, sim.

 

KM: 8- Desses anos fazendo entrevistas, entre tantos ilustres e anônimos, teve alguma que foi inesquecível?

MH: Entrevistei uma centena de personalidades políticas, sociais, artísticas. Todavia, foi com Martha Rocha, em 1982, a conversa mais expressiva, pois ela passava por momentos existenciais fortíssimos e não dava entrevistas, fazia um bom tempo.

 

KM-9- O meio literário (ou artístico) de modo geral é carregado de certas bandeiras ou ideologias. Como você observa essa realidade?

MH: Minha ideologia sempre será em prol das letras. Tudo, no fundo, é arte. E como arte, ela está diversificada em vários momentos. Gonçalves Dias escreveu poemas lindos com referência à guerra entre tribos indígenas. Maiakóvski traduziu em poesia a dor de um período difícil na Rússia. Alan Poe enfatizou a sua desgraça com contos aterrorizantes. Quantos poetas construíram suas obras tendo como base fatos reais, como a escravatura? “Stranger Fruit” que eu escrevi a versão e publiquei no meu livro A BULA DOS SETE PECADOS é um grito contra a segregação racial americana. E por aí vai.

 

KM: 10-    O livro A Bula dos Sete Pecados contém poemas, reflexões, textos bastante atraentes, numa mistura de temas atuais e clássicos. Na sua vida de leitor como se deu sua relação com a literatura clássica?

MH: Foi sempre intensa. Ler Shakespeare é intenso! Ler Margaret Mitchell, de “E o Vento Levou” é intenso! Ler Friedrich Nietzsche, “Assim Falou Zaratustra” é intenso! Ler Chico Xavier, “Parnaso de Além-Túmulo” (poesias dos espíritos) é intenso! Por essa razão, ao escrever “A Bula dos Sete Pecados”, preferi não seguir um gênero, nem uma linha. Lembra das tábuas de pirulitos, vendidos pelos antigos pregoeiros de São Luís? Pois bem, essa é a ideia. A cada pirulito que você consegue tirar daquele buraquinho (e sem saber), vai ter um sabor. Maracujá, Coco, Melado, Paixão, Tristeza, Saudade, Loucura, Insensatez, Paixões Avassaladoras... e minha bela infância. Sem muitas opções. Mas belíssima infância em que, descalço, empurrava meu barco de papel pelas sarjetas e esperava que encontrasse meus sonhos, antes de se perder nos sumidouros que o levariam para a maré de meu outono, descendo a ladeirona da rua dos Afogados, em São Luís do Maranhão, onde nasci. É isso!

 

KEILA MARTA (*) imortal – Academia Poética Brasileira, Crítica de arte e analista literária, graduada em Pedagogia - UNOPAR e Letras Língua Portuguesa - UEMASUL

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