Sexta, 23 de Outubro de 2020 05:12
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Brasil PAULO URBAN

Convidado. Paulo Urban, Causos da Psiquiatria - V - "PARA-RAIOS DE MALUCO"

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18/09/2020 12h23 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Urban
Dr. Paulo Urban
Dr. Paulo Urban

Causos da Psiquiatria – V

 

(por Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento)

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PARA-RAIOS DE MALUCO DE MALUCO

Setembro de 1996, umas 3 e meia da tarde. Sob forte tempestade, eu estacionava em frente ao único restaurante aberto da região que mantinha sem intervalo, do almoço ao jantar (quando então passava a servir somente pizzas), um buffet de saladas e pratos quentes, estilo ‘pese & pague’. Era o Che-la-lá da rua Domingos de Morais (há mais de uma década já cerrou as portas), um desses populares, refeições aceitáveis, enfim, o que tínhamos para o momento. Para quem voltava de um hospital lá da zona Norte onde eu trabalhara desde às 7h, a opção se fazia estratégica: era almoçar logo e tratar de em seguida descansar uma horinha ou mais na casa de meus pais, a 5 minutos do local, a fim de, então refeito, ingressar às 7 da noite num plantão psiquiátrico, noutro Hospital, num bairro vizinho.  

Sem ter um guarda-chuva, saí do carro às pressas cuidando não deixar nele minha maleta preta, das quadradas, típica ‘maleta de médico’, haja vista São Paulo não ser cidade tranquila, a cada dia mais dada aos furtos e arrombamento dos veículos. Entre trancar o carro e cruzar a calçada, já entrei ensopado no recinto. Fui direto ao banheiro tratar de me secar um pouco e enxugar a maleta. Bem observei, além do garçom de plantão, era eu a única alma vivente de todo o estabelecimento. Seus dois enormes salões completamente vazios e umas poucas luminárias acesas conferiam ares soturnos ao local.  

Após leve trato na toalete, dirigi-me ao fundo do salão principal, a conferir o que havia nos rechôs. Vários deles enfileirados, diferentes pratos quentes. Para minha sorte, bem servidos e ainda fumegando. Servi-me animado e busquei lugar num dos cantos do salão, pedindo ao garçom a bebida. E por estar ali sozinho, como de hábito faço nessas ocasiões, tirei um desses livros de bolso da maleta, poemas de Ricardo Reis, e pus-me a distrair-me assim um pouco enquanto iniciava meu almoço. Afinal, sem arte não se vive; fosse a vida apenas trabalhar, dormir e comer, que sentido mais teria?

Não dera ainda dois minutos, o garçom nem havia retornado, e eu o vi entrando. E vinha deixando um rastro de poças d’água atrás de si. Cabelos desgrenhados e encharcados, uns 30 anos aparentava, camisa floral todinha aberta, uma âncora tatuada no peito. Falava alto sozinho. Ao ver surgir o garçom que retornava com minha cerveja, gritou-lhe que os trovões eram são Pedro a arrastar móveis no céu, para, em seguida perguntar se ainda havia boia. E tendo visto os rechôs acesos à sua frente, foi direto à pilha de pratos e começou a sacar dela todos eles, um por um, fazendo com os mesmos uma nova pilha ao lado da primeira. Finalmente, chegando ao último prato da pilha, tomando-o para si, gargalhando, exclamou:

-- Hê, hê, hê... os últimos serão os primeiros... hê, hê, hê...!! – e pela primeira vez me olhou, como se procurasse aprovação.

O garçom e eu, que acompanháramos toda aquela complicada manobra, num rápido entreolhar, creio assim, pensamos a mesma coisa acerca do sujeito. E o moço pôs-se então a se servir, enquanto cantava numa animação fora de conta:

 

Eu não sou daqui,

Marinheiro só;

Eu não tenho amor,

Marinheiro só;

Eu sou da Bahia,

Marinheiro só;

De São Salvador,

Marinheiro só;

Lá vem, lá vem,

       Marinheiro só ... “

 

Voz horrível, mas a cena causava espécie. De novo trocamos rápido olhar, eu e o garçom, disfarçando a vontade de rir. E tendo pesado seu prato, por sinal típico ‘prato de trabalhador’, mediu todo o salão como se procurasse onde pudesse sentar-se, até que, decidido, vindo em minha direção, puxou a cadeira em frente à minha e, sem sequer pedir licença, sentou-se comigo. Virou para o garçom e explicou:

-- Vou sentar aqui mesmo, com meu velho amigo doutor, que ele é médico e assim aproveito pra me consultar enquanto almoço, que o bom mesmo é unir o útil ao agradável, matar logo dois coelhos numa só paulada.

O garçom surpreso, eu incomodado, e o impertinente, mirando firme os meus olhos, franzindo a testa, pondo ênfase no olhar como se buscasse enxergar ‘através de mim’, indagou:

-- Que o senhor é médico, não é? Tô certo ou tô errado?

Fiz que sim com a cabeça, cara de poucos amigos diante daquela investida que me roubava um dos poucos momentos de privacidade que eu poderia ter num dia assim tão cheio de trabalho, lamentando principalmente perder ali a minha pretendida leitura.

-- Também, pudera, né doutor? Com essa maleta aí do seu lado, até meu cachorro saberia.

Ele tinha toda razão.

-- Esses médicos são tudo a mesma coisa. Basta ver um que você já conhece a classe toda. A propósito, o senhor não devia estar de branco?

-- Não costumo usar branco, apenas avental de trabalho – respondi a contragosto.

-- Que mal lhe pergunte, qual sua especialidade? Deixa ver se vai servir pro meu problema... uhm, uhm, já sei, o senhor tem cara de ser ortopedista.

-- Psiquiatra.

-- Ôxi! Agora melhorou! Que os meus ossos ultimamente andam mesmo uma loucura! Ficam estralando sozinhos, doutor. Estralam que nem marimba, mas o que mais estrala mesmo é o meu pescoço. Mas as costas estralam também, e ainda essas pernas que deram agora para andar por si mesmas, e me levam pra cada lugar que eu jamais iria... pra falar a verdade, nem sei como foi que eu vim parar aqui.

A essa altura eu só não queria dar-lhe corda, mas ele já chegara com a macaca toda. Admiti: impossível livrar-me dele. O almoço seria uma pândega. E a absurda descrição de seus sintomas prosseguia:

-- Até quando vou ao banheiro fazer o número 2, estralo também, estralo lá no último ossinho, bem no fiofó, que tem osso lá também; tem não, doutor? Olha só, tem dia que eu nem tô me coçando nem nada e meu pescoço começa a estralar e se põe a girar sozinho, desgovernado; já teve vez também que acordei com meu pescoço girando. É assim, ó, óia só pro senhor vê.  

E levando as mãos à cabeça, fazia que forçava o pescoço o mais que podia, primeiro para um lado, depois para o outro, ensaiando com exagero umas caretas a dar ideia de ser grande a tensão:

-- É como se fosse um esprito entrando na minha cabeça e possuindo meu pescoço. Que nem acontece com essas pernas que deram agora pra andar sozinhas. Daí meu pescoço fica assim, ó, girando que nem pião. Minha mãe me disse que teve uma vez, eu era criança ainda, ele chegou a dar a volta toda, que nem aquela menina do exorcista. O senhor viu aquele filme? Mas aí ela me levou pra benzedeira e nunca mais que meu pescoço girou sozinho. Mas, agora, tá voltando a acontecer... então, doutor, o senhor entende também de espiritismo, essas coisas do além?

Neguei com a cabeça.

-- Diz pra mim, mas pode ser sincero, que eu prefiro a verdade: eu tô com algum encosto, é coisa do tinhoso, ou é só problema de cabeça mesmo? De ortopedia que não é, até porque no pescoço tem mais carne do que osso, né doutor?

-- Pelo menos até agora, não ouvi estralo algum.

-- É porque tá molhado, doutor; quando chove é assim, mas deixa secar pro senhor ver como estrala.

De toda a minha turma de faculdade, era eu um raro caso, senão o único, de haver ingressado na medicina tendo já, de antemão, escolhido a especialidade que de fato abraçaria. A clareza era tal que, lembro bem, desde os idos de colégio, quando professores e colegas me perguntavam para qual carreira eu prestaria vestibular, era psiquiatria, e não medicina, a resposta que lhes dava. Desde aquela época, meus colegas eram testemunhas, tudo que era tipo de maluco eu atraía. Coisa de aura, um mistério magnético. Rogava a lenda que, onde quer que eu estivesse e houvesse um doido à solta num raio de um quilômetro à minha volta, ele acabaria me encontrando. Lei cósmica, verdadeira e imutável. Atestada e comprovada pelo transcorrer dos anos. Bastava haver qualquer atividade extraclasse, esses passeios e visitas a museus e outros programas culturais que a escola vez por outra realizava, e não tardava muito para que algum lunático viesse trocar ideia comigo. Diferentemente da maioria dos colegas, nunca tive medo nem receio ou preconceito quanto a esse tipo de gente, até o apelido de ‘para-raios de maluco’ recebi. E dando prova à tradição, desde o 1º ano de faculdade, toda vez que algum paciente demostrava não bater lá muito bem da cachola, era um tal de ‘chama o Paulo pra conversar com ele’; ou de ‘leva ele pro Paulo, que ele gosta’...; eram os ditos que se ouviam.

Estendendo-me a mão, interrompendo minha breve reminiscência, quis saber:      

-- Qual sua graça, doutor? Nosso papo está tão bom que daqui a pouco vamos estar conversando por mais de três horas e corre o risco de um não saber ainda o nome do outro...

-- Paulo - respondi, não querendo nem imaginar o que já seria passar meia hora ali conversando, quando o plano era ser breve a fim de poder ainda dormir uma horinha, quem sabe, antes do próximo plantão.  

-- Pois, o meu é Norberto. Mas como venho da Paraíba do Norte, pode me chamar de Norterto.

-- Prazer, Norberto.

-- Norberto Norterto, o que está sempre por perto.

-- Percebi.

-- Se algo não der certo, chame o Norberto! Se algo está quebrado, deixa que eu concerto.

Eu não sabia se ria ou chorava.

-- Mas também tem essa, ó: chame o Norterto, o homem certo que é de sorte; medo mesmo, só da morte.

Taxativamente, era o fim de meu sonhado momento de paz e silêncio. E ele engatara nas rimas:

-- Norberto Norterto... o que me faz ser mais esperto? Esse meu coração, que é sempre um livro aberto.

Bastante criativo e intuitivo, assim me pareceu o sujeito. Embora falasse bobagens a rodo, fora diretamente ao ponto, sim, sua última rima me cantara a bola: se algo havia àquela mesa que não estava aberto, era o meu coração. Melhor abrandá-lo e aceitar a inopinada companhia, refleti. Já não adiantava querer mudar o acontecido, nem eu seria desrespeitoso com o rapaz; afinal, não era esta justamente a minha sina? Meu para-raios seguia firme e operante, magneticamente funcionando, ainda que à minha completa revelia... fácil compreender: 1) esse zureta passava pelas proximidades 2) dado à tempestade, resolvera abrigar-se no restaurante 3) só podia mesmo ter vindo parar em minha mesa 4) era conformar-me e pronto ... ora, por que seguir contrariado? Resolvi entregar os pontos. Guardei de uma vez o livrinho na maleta e assumi simplesmente conversar, sentir o prazer da refeição em companhia.

O maluco à minha frente, sem etiqueta alguma, pegando no garfo como se usasse a marreta, ia pondo grandes montas de comida pela boca. Tão esfomeado estava que por alguns instantes permaneceu em silêncio, devorando seu prato como se há dias não comesse. Às tantas, olhou pro lado e encontrou o fio do ventilador de parede suspenso, caindo solto por cima da tomada. Era um desses trambolhos antigos, havia uma meia dúzia deles pelo salão, outros tantos no salão contíguo, todos desligados posto que, além de o recinto estar praticamente vazio, com a chuva a temperatura caíra bastante. E bastou ele enfiar o plugue na tomada que o monstrengo pôs a girar suas hélices, causando além da ventania sobre a mesa, um forte ruído, mais parecia artefato com defeito que, num crescendo, foi ficando ensurdecedor.

Gritou:

-- Olha aí o avião dos Mamonas!

-- O quê? – não sabia se havia ouvido direito, mas era isso mesmo, ele repetiu:

-- O avião dos Mamonas Assassinas.

O ventilador bem mais barulhento agora. O acidente que vitimara a banda ocorrera há poucos meses. Precisei falar mais alto:

-- Pois é, uma tragédia sem sentido. Cinco jovens irreverentes e talentosos, estavam fazendo enorme sucesso quando houve a queda do jatinho.

-- Era um dia de tempestade, como a de hoje.

-- Sim, bateram contra a Cantareira. Lamentável acidente. 

-- Foi acidente não, doutor – gritou ele.

-- Como não? – gritei de volta - dos mais terríveis, inclusive.

-- O que foi que disse, doutor? Fala mais alto porque o ventilador está ligado. 

-- Disse que foi um acidente horrível. Sete pessoas morreram, banda, piloto e copiloto.

Esses impensáveis flashes da vida: dois desconhecidos um do outro ocupando a mesma mesa de um restaurante malgrado a centena de outros lugares vazios e que, em vez de conversar, punham-se agora a gritar a fim de que pudessem ser ouvidos, ambos debaixo de um estrondoso ventilador de parede ligado em dia que nem calor havia, observados pelo garçom de plantão, a essas horas pasmo e interessadíssimo na conversa, até agradecendo por ter sido o infeliz escalado para atender os retardatários da tarde, tão absurda era a cena que rolava à sua frente.

-- Acidente nada – gritou de novo, desligando o ventilador.

E pôs-se a comer bocados enormes até que o as hélices do dinossauro estacionassem por completo. Silêncio no recinto, levou as mãos em concha em torno da boca e, desprendendo-se da cadeira, corpo inclinado sobre a mesa, bem pertinho de mim, soprou baixinho:

-- Foi o japonês!

-- O quê?

-- O japonês! – repetiu.

-- O guitarrista? Que que tem ele?

Olhou para um lado, para o outro, acomodou-se de novo na cadeira, e chamou o garçom:

-- Faz favor, você pode ir lá fora ver se a chuva já parou?

O garçom não fez lá uma cara boa, mas não buscando contrariar o cliente, foi dar uma olhada no tempo.

E levando o indicador à boca, pedindo-me silêncio, olhou então por todo o salão a conferir se ninguém nos espreitava. E arrematou:

-- Foi o japonês, doutor, não conte para ninguém, mas foi ele que matou a banda toda.

-- Claro que não, rapaz.   

-- Não dá pra confiar em japonês, doutor. São tudo karateka, kung-fu, faixas-preta, essas artes fatais.

-- De onde você tirou essa?

-- Ué, é dá pra confiar num povo cuja escrita são aqueles rabiscos do demônio? Pior que isso, que se lê de trás pra frente? Coisa do capeta, só pode. Olha só, doutor, acompanhe o raciocínio.

-- Pois...

-- Primeiro o japonês entrou no avião levando consigo uma arma de fogo escondida na mochila. Ele havia sido kamikaze na outra encarnação. Basta olhar pra ele que logo se percebe, aqueles olhos puxadinhos, igualzinho o dos kamikazes. Daí, quando ninguém esperava, todos assim meio dormindo, ele tirou a arma da bolsa, pôs um silenciador no cano e saiu matando um por um. Depois, como bom kamikaze, suicidou-se, pegou o manche e atirou o avião contra a montanha. E foi aquela explosão!

-- Amigo, até não me importo que um desconhecido se sente comigo a conversar, mas daí a dizer-me tais disparates, sinceramente, acho que não mereço. Coitados dos meninos, dos fãs que repentinamente ficaram órfãos da banda, de seus familiares... não se brinca assim com a morte nem com a dor dos outros, sabe? Foi uma convulsão geral quando morreram, todos sabem das condições ruins daquele voo em meio à tempestade, também o quanto eram amigos queridos os integrantes da banda, inclusive, o japonês, de cujo nome não me recordo agora. A propósito, os japoneses são povo muito sábio, e respeitoso também. 

-- Kamikase, doutor. Tudo premeditado.

O garçom vinha voltando...

-- Ademais - completei - tamanha falta de lógica a sua: por qual razão alguém se valeria de um silenciador a dar tiros num avião, lá nas alturas, onde ninguém mais senão os presentes escutariam os disparos?

Assumindo ares mais sérios, como se me revelasse o pulo do gato, completou:

-- E a caixa preta, doutor? E a caixa preta? O senhor bem que podia ir dormir sem essa, hein? Como não pensou nela? O japonês planejou tudinho, tim-tim por tim-tim, que eles são inteligentes, isso eles são... o japa não quis que ficassem gravados na caixa os tiros que ele deu.

Experiência clínica, verdade é que não adiantava discutir com gente assim. Entretanto, não me parecia maldoso o rapaz, era só mais um desses birutas que atraio sempre. Mas, para minha sorte, chegava o garçom com a melhor das notícias:

-- Parou sim de chover. Nenhum pingo lá fora.

Senti um alívio. Agora esse chato se vai, pensei. Seu prato estava limpo, comera aquela verdadeira montanha em questão de minutos. Foi quando ele disse ao garçom:

-- Ótimo! Mas eu vou ficar aqui conversando com meu velho amigo doutor, que eu gosto mesmo é de andar debaixo da chuva. Assim que começar a chover de novo, não deixe de vir me avisar, sim?

Vi que o garçom engoliu a resposta que pensou em dar ao desaforo. Olhou-me desconcertado. Fazer o quê? Aproveitei então a chance:  

-- Pois, eu não; prefiro andar sem chuva, e já estou de saída.  

-- Peraí, doutor, aproveitando que o ventilador secou meu pescoço, vê só como ele estrala.

E virando rapidamente a cabeça de um lado para o outro, parecia um boneco marionete, ora me apresentava o perfil esquerdo, ora o direito... fez isso algumas vezes... e não é que ouvi mesmo uns estalidos? Que habilidade doida era aquela?

-- O amigo devia fazer isso na TV, nesses shows de calouros; talvez até ganhe algum dinheiro - sugeri.

-- Mas que doença é essa que eu tenho, doutor? Pescocite estralante, estralatite pescoçosa ou... o que seria? Tem cura?

-- Doença nenhuma, tem gente estranha assim, uns mexem a orelha, outros nascem com um olho de cada cor... o amigo aí, se não estiver de algum modo me enganando, tem a habilidade ímpar de estralar o pescoço. Assim, nunca vi. Mas preciso mesmo ir embora – disse, já me levantando.  

-- Quanto lhe devo pela consulta, doutor?

-- Ora, claro que não me deve nada, nem houve consulta alguma.

-- Então, já que não preciso pagar pela consulta, sem querer abusar de sua generosidade, o senhor não poderia também pagar meu almoço? Não trago um puto de um centavo comigo; na verdade, quando olhei pela porta e o vi sentado sozinho bem no fundo do salão, pensei assim comigo mesmo: Norberto, seu esperto, eia aí a sua melhor chance de comer algo hoje na companhia de alguém que possa, quem sabe, abrir também seu coração.

De novo ele acertava o alvo. Um sujeito fora de propósito, entretanto, carismático. Pedi-lhe a comanda que marcava o peso e o valor a ser pago e dirigi-me ao caixa, no outro salão. Enquanto pagava, ainda podia escutar Norberto lá de nossa mesa, cantando ao garçom:

 

“Mina, seus cabelo é da hora
Seu corpão violão
Meu docinho de coco
Tá me deixando louco

 

Minha Brasília amarela
Tá de portas abertas
Pra mode a gente se amar

Pelados em Santos... ”

 

 

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