Terça, 25 de Junho de 2024 08:42
editor-sênior, jornalista Mhario Lincoln
Brasil Crônicas

A bem-humorada crônica do professor-poeta Eloy Melonio: "Like nós Like".

Eloy Melonio é convidado da Academia Poética Brasileira.

11/06/2024 17h49 Atualizada há 2 semanas
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
Eloy Melonio
Eloy Melonio

LIKE NÓS LIKE

 

Não sei direito por onde começar esta conversa.

OK. Já sei! Vamos "apreciar as palavras" que passeiam por uma avenida de duas vias largas, indo e vindo.

Sim, eu e você num chat em bilinguês. E fique logo sabendo que "bilinguismo" é quando “um grupo social usa, natural e alternadamente, duas línguas: a nativa e uma estrangeira". Assim como acontece nas redes sociais e nos aplicativos de conversa.

E de tanta conversa, Debby e Saulo se conheceram recentemente e já estão saindo com frequência. Ninguém duvida que já deu match nesse namoro. Dizem até que já pensam em se casar. Se o enlace acontecer mesmo, terão de convidar seus friends, não é mesmo? E a nós caberá “save the date” e desejar que sejam felizes em sua home, sweet home.

"Não dá spoiler, vô!" gritou meu neto quando tentei antecipar “the end” de um filme a que planejávamos assistir juntos. E aí, o jeito foi calar-me para não "spoilar" nosso programa cultural.

Infelizmente, nessa mesma via passeia um tipo de gente que exala ódio, fazendo críticas sem critério algum. Senti isso na pele quando postei, num grupo de literatos no WhatsApp, uma foto seguida de um texto curto. Imediatamente, haters de plantão soltaram o verbo. E o verbo se fez grito. Tudo porque tinha um "político" no meio da foto. Minha intenção era simplesmente destacar um novo embaixador em Brasília (DF) que falava português com invejável fluência. Parecia-me um assunto interessante. Silenciei e não lhes dei o prazer de um feedback. “Sorry, guys”, pensei comigo e saí do grupo.

Foi na campanha presidencial de 2022 que “fake news” consolidou seu papel de vilã. Acusações voavam de uma via para outra da nossa avenida. Hoje existe até um site para definir se uma notícia é fact ou fake.

Na via dos negócios, empreendedores compartilham um mesmo espaço para executar tarefas específicas, num sistema chamado “coworking”. E também circulam por aí para fazer network e se tornarem mais conhecidos. E se “business is business”, não se pode esquecer de shopping, black Friday, Drive Thru, sale, free, cashback, entre outras.

 

Na via das antigas, passeiam gay, flashback, fashion, look, hit, coffee break. Algumas, como freeway, a toda velocidade; e, com o som nas alturas, highway, em sintonia com os Engenheiros do Havaí. Sem esquecer cash, ticket, VIP. A galera de mais idade ainda se lembra do “VIP Motel” (1960/70), o mais sofisticado “in town”, com ar-condicionado, espelho no teto e round bed — luxo e prazer numa só via!

Entre as novinhas, destaco bet, live, playlist, fitness, bullying, link. E aproveito para revelar que on e off (liga/desliga) agora desfilam com nova roupagem. Uma filha orgulhosa pode elogiar sua mãe numa foto da academia: “A mãe tá mais on do que eu”. Ou falar do pai e seu novo emprego: “Ele tá muito off, focado apenas no trabalho”. Em tempo: uma pessoa, contando por que tinha sido bloqueada por uma influencer, revela: “Isso tem uns doze anos. Foi antes de inventarem o termo “haters”.  

E as transmissões radiofônicas dos jogos de futebol das décadas de 1960/70?! Em campo: goalkeeper, back, corner, offside. Na música também convivemos com o Long Play (LP), Compact Disc (CD), hit parade. Antes dos notebooks, os cursos de inglês reuniam os alunos em “sing-along sessions” para cantar os hits do momento e relembrar pop songs, como "Yesterday", dos Beatles.

Nessa avenida virtual, quase me esqueço de uma palavrinha inquieta: rush (pressa). Porque parece que toda hora é "rush hour" neste trânsito louco dos nossos dias. E de outra muito especial — pet friendly —, atribuída aos espaços públicos que abriram suas portas aos dogs, cats e outros pets fofinhos.

Um amigo elaborou uma lista de palavras comuns em "portenglish". Que tal, então, tentar traduzir algumas delas? Gospel, bullying, diet, freezer, fast food, deadline. Não se espante se você cruzar com um tal de "Zé" fazendo delivery no seu bairro ou condomínio.

Quem não se lembra do grande sucesso dos Zecas mais queridos deste país? Nessa “vibe bilíngue", "Samba do approach" deu um tom especial às cenas de "A cor do pecado" (GLOBO/2015). Diz aí, Baleiro; canta aí, Pagodinho: "Venha provar meu brunch/ Saiba que eu tenho approach/ Na hora do lunch/ Eu ando de ferryboat".

Uma leva de cantores trafegou pela via "vermelha-azul-branca" no início da década de 1970. Era comum ter pseudônimos “in English”. Um deles, Mark Davis, encantava os apaixonados com "Don't let me cry". Outros, como Terry Winter (Summer Holiday), Morris Albert (Feelings), a banda Light Reflections (Tell me Once Again) também sacudiam o "hit parade" da época. Poucos anos depois, esses singers reassumiram seus nomes verdadeiros. Não sei se Fábio Júnior se lembra que um dia ele já foi Mark Davis.

Perto da “finish line”, que tal um pouco de humor?

Conta uma “old joke” que um casal brasileiro em Nova York, recusando a oferta de um "street vendor", solta seu bilinguês: “Like nós like, mas money que é good nós não have”.

E, enfim, peço-lhe que deixe o seu “like” se você gostou desta nossa conversa.

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(*) Eloy Melonio é professor, escritor, letrista e poeta

11 comentários
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Fabienne MatosHá 2 semanas São Luís, MATop! Vou usar na aula de inglês para mostrar a influência desse idioma no mundo, pois isso não só acontece em nosso país; e isso se deve em razão da globalização oriunda dos avanços tecnológicos, que fizeram com q essa língua se tornasse o meio de comunicação universal, ou seja, a língua dos negócios, das transações política, das conferência internacionais e mais.
RicardoHá 2 semanas São Luís -.Ma.Muito bom Eloy, é isso mesmo! Parabéns!!!
Professora Lina SoaresHá 2 semanas São Luís MaPelo que se vê, caro Eloi, a influência americada é tão grande hoje em vários países da América Latina. No Brasil é maior. Até hoje eu peço Jeans. Ou um burger. É bom isso? Não. A cada dia a língua portuguêsa original vai se deteriorando e a gente vai perdendo a identidade. Fazer o quê, né, se até os professores de português já aderiram à invansão linguista americana. Mas tem uma atenuante, inclusive no MA. Palavras indígenas, francesas... etc. Não tem para onde correr.
Maria das Dores Lira/Marcio LiraHá 2 semanas São Paulo SPOutro dia fiz um pedido para um logista de um shopping, aqui em São Paulo, que estava despreocupadamente olhando o celular e me ignorou totalmente. Disse pro meu mnarido (sem querer) assim: ela está completamente off. Meu marido me olhou e demos uma grande risada.... Adorei a cronica.
Prof. Klaus Nicodemos de Souza NevesHá 2 semanas Professor Catedrático de Eletrônica APLICADA/SPMuito bem escrita essa crônica, sr. Eloy. Mas faltou informar que hoje em dia não acontece mais esse tipo de coisas. Em raras exceções, com os mais velhos, acima dos 80 anos. Isso, se não tiverem a habilidade de usar os trocentos apps de tradução imediata que os celulares usam ou aparelhos de bolso também usam. Então, como crônica de humor, até passa. Mas afirmar que isso acontece hoje, com base em uma historinha divulgada em 1988 pelo Pasquim, extinto, é banalizar a evolução da Humanidade!
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