Segunda, 15 de Julho de 2024 15:05
editor-sênior, jornalista Mhario Lincoln
Brasil Especial APB

De Sharlene Serra: "Mês de junho: UM MOSAICO DE EMOÇÕES"

Meu pai: 02 de junho completarias aqui, 79 anos. 15 de junho, 11 meses sem sua presença física. (Sharlene Serra).

15/06/2024 15h06 Atualizada há 4 semanas
Por: Mhario Lincoln Fonte: Sharlene Serra
Sahrlene Serra (APB), com o pai.
Sahrlene Serra (APB), com o pai.

Mês de junho : UM MOSAICO DE EMOÇÕES

 

O mês de junho se apresenta para mim como um mosaico de emoções, com suas festas juninas, fogueiras , manifestações folclóricas  encantadoras,  com sua tradição, preservação e valorização das crenças e da cultura popular, foi neste mês rico de cultura que o meu genitor nasceu e completa mais um mês da sua partida. É como se o calendário se transformasse em um espelho da alma, revelando a dualidade da existência humana. De um lado, a lembrança  dos aniversários, das músicas, dos arraias, dos momentos, dos risos, do outro, a tristeza profunda da partida, a ausência sentida, o nunca mais ver, as histórias silenciadas, a lágrima insistente,  a festa monocromática, e o olhar hipnótico para o nada.

Neste mês fui  convidada  a navegar duplamente em um mar de sentimentos, onde a alegria e a tristeza coexistem, se entrelaçam e se transformam. Mas despertei  e agradeci, agradeci... celebrei  a  vida do meu pai com gratidão, reconhecendo a beleza, a preciosidade, os desafios e aprendizados de cada momento vivido, a oportunidade de ter a sua companhia  por 78 anos de forma intensa e  honrar a sua memória propagando o que existe em mim que tanto o orgulhava.

Agora faço este convite: que possamos  lembrar, celebrar a vida e a honrar a partida. Porque a vida é um ciclo e as nossas ações são determinantes para que a partida se transforme em saudade e a saudade é a manifestação real do amor. “ Só quem ama, sente saudades” Neruda nos ensinou. E o amor, esse sentimento sublime é a força que nos impulsiona a seguir em frente, a celebrar a  vida e  eternizar a memória daqueles que amamos, mesmo que a dor da partida insista em nos acompanhar. No dia 02 de junho, fiz este texto “ Tríade indissociável : Parkinson, poesia e Saudade do qual compartilho com vocês:

 

Naquela mesa ele sentava sempre e me dizia sempre o que é viver melhor, naquela mesa ele contava histórias que hoje na memória eu guardo e sei de cor....Naquela  mesa todo dia 02 de junho nos  reunimos para parabeniza-lo por mais um ano, hoje a mesa está vazia, pai.

A noite cai e com ela, a quietude do quarto. A luz da lua invade a janela, desenhando sombras nas paredes. Converso com as lágrimas, com silêncio e busco o abraço das nossas lembranças, das conversas, dos risos, da história que esta eternizada em mim. Não estou mais velando seu sono, mas continuo a de mãos dadas com a saudade e lembro Pai da nossa convivência com o Parkinson, este foi o nosso desafio, a força que reside na resiliência, na capacidade de encontrar mesmo com  sofrimentos, o apoio para que pudéssemos nos firmar nos momentos mais desafiadores.

E conseguimos! Aprendemos junto o ritmo do parkinson.

Caro leitores, imagine-se dançando ao som de uma melodia ritmada, seus pés deslizando pelo chão com leveza e graça, seus braços se erguem no ar, em um movimento fluido e sem esforço tocam no céu. A música preenche o ar, você as sente em cada movimento do seu corpo e ela contagia todos ao seu redor.

De repente, a música diminui o ritmo. Seus movimentos não são mais os mesmos e se tornam mais lentos e rígidos. Seus pés parecem chumbados ao chão e mesmo você querendo, seus braços se recusam a  erguer.

- O que está acontecendo? Por que meu corpo não me obedece?

Essa é a  pergunta e a sensação que muitas pessoas com Parkinson enfrentam diariamente. A doença degenerativa rouba a fluidez dos movimentos, transforma a dança em um passo lento e oscilante.

 Meu pai, conviveu durante anos com o Parkinson...

 

NOITELOGANDO...

 

O momento desmaia reflexivo

perplexa acendo a luz

converso com meus medos

transformo-os em coragem...

 

A fé  aperta minhas mãos e registra suas digitais.

O Parkinson cochila, tem sono leve

escondo-o do invisível.

 

Em mim, tudo é  rio

inundo-me e

nado, para alcançar

outras margens...

 

O livro de poesia, preocupado, chora...

mas, incansavelmente, ora.

 

Ásperos  tempos...

Saudade dos tempos veludo...

 

Tempo, não demora! 

Chuvo buscando o sol,

a lua me acolhe em seus braços

e  me abraça

feito lençol.

 

E  foi nesse abraço que fomos acolhidos, durante anos.  A poesia surge como um refúgio, um bálsamo para a alma. Nela, buscava ver  o Parkinson não como uma limitação ou a doença degenerativa que tanto nos preocupava, mediante a energia mental aprisionada em um corpo desobediente,  mas passei a vê-la como uma fonte de aprendizado. É como se fosse um convite para explorar a fragilidade da vida, a beleza das pequenas coisas, os passos lentos, a pausa, os detalhes, apreciar a caminhada, o mar , a resiliência, a força do amor e a esperança que brota mesmo em meio à escuridão.

Assim, a dança da saudade se transforma em um bailado de poesia, onde o corpo e a mente se unem em uma celebração da vida, em um agradecimento por cada dia vivido, por cada sorriso compartilhado, pelo passos na praia, pela sabedoria transmitida e por cada verso escrito.

 

A poesia, como uma psicóloga renomada, acompanhava-nos dia a dia. Mas o Parkinson não concede trégua. sua voz pai cada dia mais baixinha e eu capacitada por Deus, conseguia entender,  sua comunicação aos poucos diluindo...  e como se comunicar era algo vital para o senhor...

Então, passei nesses momentos a buscar uma força interior , a entender até o que não se entendia, a dar perguntas para as abstratas respostas e observar criar histórias de esperança para lhe ver sorridente, mesmo tento que enxergar poesia na lágrima caída.

E na sabedoria de quem sempre foi inspiração para mim, falando-me sobre remédios, disse: O mundo precisa de remédios. Mas não estes, mostrando para os que tomava diariamente... e eram tantos...

E ele continuou: - o mundo precisa de pessoas que curam, que possibilitam sensações prazerosas, que dão as mãos, passeiam, que respeitem crianças, idoso. E disse desse jeito: - “Filha, tu é meu remédio!”  e eu escrevi este poema:

 

"Seja cura!

Seja amor terapia,

seja remédio.

seja vida

doando vida,

assim como o sol,

a lua , como o

canto dos pássaros,

a brisa e o mar.

Seja aroma de paz

ou ervas medicinais,

seja o néctar dos

sonhos e os sorrisos

contido em nossos

sinais vitais.

 

A luta contra o Parkinson é diária, mas a vitória não se resume à cura (não existe cura) uma doença degenerativa nos limita, pois insiste em querer tirar a nossa esperança, mas nos ensina a importância do agora, do momento vivido: É sobre abraçar o dia a dia, adaptar-se, reinventar-se. É sobre encontrar a luz que existe mesmo na escuridão.

A poesia se torna uma testemunha dessa jornada, um farol na tempestade, um canto de esperança para si mesmo e para todos aqueles que enfrentam desafios semelhantes.

 

Sharlene Serra com o pai.

 

 

ESPERANÇAR

 

Olhar para céu

desenhar nas nuvens

escrever no sol feito

folha de papel

 

A chuva ser tinta

pintar a vida

em aquarela

brincar de ser

menina

 

Relação filha e pai

mãos entrelaçadas que

não se soltam jamais.

 

As nuvens encharcadas

começam a chorar.

 

Dialogo com meus medos

as palavras faltam ar.

 

A noite dorme febril

no amanhecer sonolento

avisto o mar calmo mesmo

turbulento.

 

Nebulizar

oxigenar

Suplico o ar.

 

De noite a poesia nos coloca

no colo e canta canções de ninar.

 

Poetas a(dor)mecem

abraçados no esperançar.

 

Sharlene Serra

 

 

É meu pai, continuamos juntos, com as nossas mãos entrelaçadas com a poesia.

Naquela mesa, naquela rede, naquela praça, naquele mar...

 

2 comentários
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Uimar JuniorHá 4 semanas São LuísEu que perdi a pouco minha mãe e até agora estou sem.palavras para expressar toda minha dor e diante do seu texto , que é de muita riqueza e beleza, pude acompanhar cada sentimento de dor e amor. Só quem perde pai e mae sabe a dor que sentimos. Belo texto.
Luís BastosHá 4 semanas São PauloLi e reli. Encantado. Cada palavra repleta de muito sentimento. Gravem este nome: Sharlene Serra uma escritora onde as palavras a reverenciam. Seu pai com certeza sentia muito orgulho desta filha-poetisa.
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