*Mhario Lincoln
Acabo de chegar de um sebo à beira do calçadão da Rua XV, aqui em Curitiba e encontrei uma pérola. Não resisti. Em poucos minutos folheando essa obra prima do (ex-bom jornalismo da Veja), encontrei uma entrevista com Nelson Rodrigues, datada de 4 de junho de 1969, intitulada: "Eu sou um ex-Covarde".
Confesso que não gosto de certas produções de Nelson Rodrigues, apesar de ter assistido "O Beijo no Asfalto", "Vestido de noiva", "Anjo Negro", em superprodução do diretor Jul Leardini, aqui em Curitiba, no Teatro Guaira. Até mesmo "Os Sete Gatinhos", obra essa que me pertubou bastante pois revelou a mim, as camadas mais profundas da hipocrisia, decadência moral e desespero dentro da sociedade em que vivo. Além, o que me chocou foram as características de brutalidade e honestidade, criando um retrato vívido e perturbador que continua a ressoar com muita relevância, em mim, ainda hoje.
Por isso, deixam-me pra baixo certos romances, crônicas e contos de Nelson, publicadas jornais ou lidos páginas afora. Em meu bestunto, Nelson rodrigues poderia, se fosse o caso, se aproximar de nomes como Charles Bukowski, por sua escrita crua e sem censura que frequentemente incluia linguagem vulgar e temas adultos, ou mesmo Henry Miller, cujas obras explorava a sexualidade de maneira explícita, o que era controverso para a época em que foram publicadas. Nem mesmo Nelson Rodrigues seria "tão autêntico", dentro da linguagem nova, a partir dos anos 2000 até nossos dias, porque a 'juventude' está muito adiante de seu tempo e demonstra liberdades explícitas, o que, fatalmente, tira a originalidade desse escritor brtasileiro. E porque falo em juventude com liberdades explícitas?
Mutatis Mutandi, ainda serve para analisar certos pensamentos nelsinianos. Especialmente quando se vê um Nelson Rodrigues furioso com a juventude de sua época, esbravejada nessa entrevista que concedeu às páginas amarelas de 69, da revista VEJA.
Diz ele:
VEJA: E a juventude? Você abomina a juventude?
NELSON RODRIGUES: Não, eu amo a juventude como tal. O que abomino é o jovem idiota, uma das figuras mais sinistras da nossa época. O jovem, como o adulto, como o velho, comporta todos os tipos. O jovem pode ser um pulha, um santo, um herói, um covarde. A impostura mais sinistra do século XX - e de todos os séculos- é Poder Jovem. De repente, os mais velhos passaram a ver os jovens como o certo, o histórico, o sábio, o clarividente. O fato de um imbecil ter 17 nos transformou-se em um mérito formidável. O sujeito passou a ser seguido e respeitado, não por ter tais ou quais méritos, as por ter nascido em 1952. O fato de ter nascido em 1952 dava a esse idiota o direito de fazer história do Brasil, acima da inteligência, da experiência, da cultura, que porventura os mais velhos tivessem. De repente, sábios, filósofos, psicólogos, psicanalistas começaram a achar que porque sujeito nasceu em 1952 passava a ter todos os direitos e nenhum dever. Os mais velhos instalaram no jovem idiota um processo de paranoia: "O doutor Alceu e dom Helder estão dizendo que eu sou a história, que o mundo é meu, que eu não preciso aprender nada porque já sei tudo, porque nasci em 1952 e, portanto, sou formidável".
É o que aconteceu na França, quando o jovem idiota, durante um mês, humilhou e ofendeu a sua pátria. E o que fizeram na França? Arrancaram paralelepípedos, viraram carros e incendiaram lixo. Uma juventude tão inepta que escrevia nas paredes "É proibido proibir" e carregava cartazes de Lenin, Mao, Guevara e Fidel, autores das proibições mais brutais. Era a imaturidade erigida em virtude formidabilíssima, era o Poder Jovem que é o próprio culto à imaturidade".
O que Nelson Rodrigues diz abominar e cita a França como exemplo, são os chamados "Protestos de Maio de 1968", que começaram com uma série de manifestações estudantis na Universidade de Nanterre, espalhando-se rapidamente para outras universidades pelo país. Os jovens estudantes protestavam contra o sistema educacional conservador, as rígidas normas sociais e a falta de liberdade sexual e cultural. As manifestações estudantis ganharam força e se tornaram um movimento mais amplo que incorporou trabalhadores e sindicatos.
Com o slogan: "É proibido proibir" ("Il est interdit d'interdire"), simbolizando "o espírito de rebeldia contra todas as formas de autoridade e restrição", os manifestantes expressavam um forte desejo de liberdade, criatividade e inovação social. Tanto que chamaram para a mesma mesa, por exemplo, figuras revolucionárias como Lenin, Mao, Che Guevara e Fidel Castro, a quem Rodrigues afirmou na entrevista, serem, "autores das proibições mais brutais".
Destarte, lendo apenas esse trecho da entrevista de Nelson Rodrigues, a cabeça voou longe e trouxe esses detalhes que são necessários compreender e entender sobre o porquê o século XXI está sendo tão diferente do século XX, concorda?
*Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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