*Edmilson Sanches
Nasceu em 21 de junho, há 185 anos.
Ele nasceu com todas as pré-condições para dar errado na vida. Para não ser nada na vida. Para não ser notado, não ser visto nem admirado na vida.
Imagine alguém nascido assim: preto, pobre. Descendente de escravos. Pai preto e pobre, pintor de paredes. Mãe lavadeira. Morador de morro. Com problemas nervosos. Gago. Epiléptico. Sem estudo...
Imagine que a morte não o levou criança e ele “escapou” com vida ao duro período ali do primeiro aos cinco anos.
Mas, como desgraça pouca é bobagem e atrás do pobre corre um bicho, sem contar que além da queda vem o coice, aos seis anos, sua mãe morre.
Depois, morre a irmã.
Aos doze anos, morre-lhe o pai.
Fica com a madrasta. Viúva. Pobre. Ela se torna doceira em uma escola.
E o menino, órfão de mãe e pai, torna-se vendedor de doces na escola.
Nas “folgas”, o pequeno vendedor de doces, para ter alguma “educação”, espia as aulas ministradas para os estudantes. Depois, frequenta escolas públicas.
Com tudo isso “contra”, essa pessoa escreve. Torna-se fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
Escreve muito. Escreve bem. Escreve excepcionalmente bem.
Escreve em qualquer gênero. Contista, cronista, crítico literário, dramaturgo, folhetinista, jornalista, poeta e, sobretudo, romancista, romancista dos melhores -- senão o melhor -- do Brasil. E o maior escritor negro de todos os tempos, na opinião mais do que abalizada de Harold Bloom (1930-2019), historiador literário, escritor, professor, crítico literário e jornalista norte-americano, dos mais respeitados do mundo.
Não fez curso superior. Não foi à universidade -- mas seus livros estão em muitas delas.
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839 e renasce sempre.
Renasce a todo instante, com estudos nacionais e internacionais sobre sua obra.
Com publicação e republicação de seus livros no Brasil e no estrangeiro.
Com citação de suas frases nas redes sociais, nos grupos digitais.
Falecido em 29 de setembro de 1908, na mesma cidade em que nasceu (Rio de Janeiro - RJ), Machado de Assis tornou-se exemplo de qualidade como escritor e de superação como pessoa.
Já escreveram, e continuam escrevendo, quase tudo sobre ele.
Viraram de ponta-cabeça ele, seus livros e seus personagens... e até suas intenções explícitas ou submersas nas palavras dele e de seus personagens nas obras literárias que deixou.
Com menos de 70 anos de idade deixou uma vida que não morre...
...e uma morte que não se esquece -- porque sua obra é sempre (revi)vida.
Viva Machado de Assis.
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EDMILSON SANCHES
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