Segunda, 15 de Julho de 2024 15:03
editor-sênior, jornalista Mhario Lincoln
Brasil Resenhas do MHL

O épico poema de Raimundo Fontenele me remeteu as minhas loucas paixões e doídas perdas

O poder dessa poesia - "Poema do Amor de Longe" - está em sua capacidade de transformar reflexões em formas de (ultra)reflexões, que não só comunicam, como também evocam profundamente sentimentos mais íntimos ... (MHL).

24/06/2024 07h19
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
Arte: MHL
Arte: MHL

O "Poema do Amor de Longe" ressoa profundamente com temas de perda, dor, e reflexão existencial. Tive que ler, em meu bestunto, diversas vezes para tentar analisá-lo dentro de minhas próprias expectativas. Mas consegui enveredar por duas lentes poéticas, somando-o à filosofia e à sociologia, com referências a dois pensadores do século XIX: Friedrich Nietzsche e Karl Marx.

 

Não fosse tais alicerces, talvez não teria saído do lugar porque o poema - bastante denso de emoções, espasmos ilógicos, introspecções e ideologia do amor parece que retiradas da mais profunda camada do inconsciente, começa com uma evocação de origem e amor perdido, utilizando uma linguagem que mistura elementos naturais e cósmicos, criando uma atmosfera onírica e etérea.

 

Aí, tenho que chamar para minha mesa, nosso conhecido Friedrich Nietzsche. Lembrei de "Assim Falou Zaratustra", onde ele escreve que "todo grande amor deseja profundamente o sofrimento e a transformação".  Essa citação ressoa com a dor e a transformação expressas no poema, onde o amor é uma força avassaladora que transcende o tempo e o espaço.

 

E o tal do "eu lírico" tão falado e escrivinhado por tantos que resenham trabalhos desta envergadura? Esse "eu lírico" experimenta também um amor que, apesar de sua intensidade, é marcado pela perda e pela saudade. As imagens de "palmeiras", "pássaros" e "gotas d'água" são símbolos naturais que representam a imutabilidade e a transitoriedade da vida e do amor.

Mas aí, pensei eu ter resolvido o enigma da esfinge quando acoplaram dezenas de outras ideias, ao reler pela quarta vez essa odisseia fonteliniana. (Quase Feliniana).

 

Daí, tive que pedir socorro ao incansável (e imortal) Karl Marx, quando ele argumenta em "O Capital", sobre as relações sociais, moldando profundamente "(...) a experiência humana". Na mosca, porque no poema, o amor e a perda são também manifestações das condições sociais do "eu lírico".

 

A fragmentação do "eu poético" e o sentimento de alienação ("estranhei na madrugada as batidas do coração") podem ser vistos como reflexos das estruturas sociais que criam divisões e isolamentos. A relação com a amada, que é ao mesmo tempo - íntima e distante -, espelha a alienação do trabalhador descrita por Marx, onde o indivíduo se sente "(...) desconectado do produto de seu trabalho e de sua própria essência(...)".

Bom, com essas duas colunas fincadas no solo de minha escrita, agora, posso garantir a impressionabilidade da obra, onde Fontenele captura emoções intensas e contraditórias através de imagens vívidas e uma linguagem rica em simbolismo. O uso de "desgarrado, sem pátria e sem amor" ou de sinestesias como "o perfume adocicado de beija-flor", criam uma linguagem exuberante, cheia de significados que me envolveram de tal forma excitando meu sensorial e emocional de forma abissal.

 

Ora, a repetição de temas como a busca, a perda, e a transcendência ao longo do poema me caiu como se fosse um ciclo interminável de desejo e sofrimento, ecoando a visão nietzschiana do eterno retorno, o que me faz afirmar que "Poema do Amor de Longe" é igualmente uma meditação lírica sobre a natureza do amor, da perda, e da existência humana.

 

Afirmo, com força de dragões, que o poder dessa poesia está em sua capacidade de transformar reflexões em formas de (ultra)reflexões, que não só comunicam, como também evocam profundamente sentimentos mais íntimos do poeta maranhense. Enfim, a lírica de Raimundo Fontenelle nesse espasmo lírico é uma exploração da condição humana em toda a sua complexidade e contradição, fato que me fez refletir diretamente sobre minhas loucas histórias de amor e doídas perdas.

Parabéns Fontenele,

Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.

 

O POEMA

Poema do Amor de Longe

Raimundo Fontenele

Arrancado do pó e do hálito soprado
arrastei-me para o silêncio na madrugada chuvosa,
gotas dágua caíam de um céu pré-existente,
bem antes que o mundo houvesse.
Vieste a mim, por buscar-te
talvez entre as copas das palmeiras,
onde o pássaro cantava.
O amor. Cego assim. Doído ou doido.
Isso e as outras estrelas, tão sujas,
esteladas ou estrelares,
e os teus castanhos olhos, puros.
Fui. Um parênteses. Um combo de coisas
novas, conosco havidas,
assim esta tua sombra a sorrir-me na luz.

II

Não se maldiga da sorte, a morte é passageira,
outra vida te espera muito mais verdadeira,
e de onde nada esperas, eis tua fortaleza.
Eis tua casa forte, teu amor esperado,
a mulher que amaste num longínquo passado,
é a flor que agora colhes no jardim ao lado.

A flor que vira rosa e tem espinhos
que se cravam na carne lentamente.
Não somente na carne, mas também na alma,
e o coração solfeja, num ritmo alucinante,
melodias tristonhas de canções ardentes.

III

Amei a tua boca e os pássaros,
e os teus lábios de mil novecentos e
oitenta e quanto,
ou foi depois?
Frutas no prato. E a tua mesa,
unhas e medos, tudo junto.
Foi-se o domingo e a tarde,
que prometiam tanto.

IV

conchas de cristais
em tua mão de ouro.
contido zelo em
penumbras de aço.
juntar-me a ti, após,
num só abraço.

os lábios sinto
sem as palavras.
o mundo estranho
mudo. só muros
recortando
corpo e alma.

ervas para o chá,
hortelã. e gozo
as primícias do dia.
fugiu de mim a Musa
ardente. oh, noite
temo o seguinte.

nutrir o amor com quê?
sílabas anônimas,
palavras incompletas?
Musa, vê-me o aflito
palpitar do pulso:
é o que ouso. e posso.

os passarinhos, lá fora,
despertam a manhã
como podem. com o
canto. eu, não. a cama
não suporta o que grito:
teu nome em chamas.

Eloi, Eloi, Lamá
Sabactani? 

V

a dúvida é duvidar se houve ou há
o mesmo amor de antes, ou se já
tudo passou, se foi ao Deus dará.
sem rima ou remo, só a inominável
dor, lição de versos mudos, onde a
palavra calou todas as falas. pois,
para além do silêncio, tudo acaba
e nada ao tempo resiste, só a fala
tateia entre dentes. a língua? cala.
mas o olho a si mesmo se vê no
vão da sala, onde o espelho me vê.

VI

que maravilha, esse amor. e sete
vidas de gatos, de Jacó, Raquel 
e Lia, eu também as daria
em torno a ti. voo de pombas
sobre a relva verde. ervas
medicinais que a tudo curam.

a lua, então, fulgura. pálida
de neve, e de amargura
faço as minhas preces
subirem até o sol de julho.
ali te enxergo e vejo
o que espero cumprir-se
qual promessas de amor:
aqueles dias idos de agosto.

VII

onde andará aquela que amei?
no bosque ou na avenida se
derramam seus passos
até as estrelas. posso vê-la,
sozinha, e posso tê-la
em meus tristes sonhos.

onde andará aquela que amei?
branca sereia, e eu num barco torpe
não fui a lugar nenhum
a procurá-la. e agora a solidão
cai como pedra, ou treva
ou como terra que já não se vê.

onde andará aquela que amei?
quanto a mim, descubro
telhados. pulo de aviões
sem paraquedas, avanço 
aos trancos e barrancos
da doce juventude.

aquela que amei, está aqui.
dentro de mim, colada à
minha pele. tempestuoso
amor que bate-bate. voo
de pássaros às cegas, e sei
o quanto dói o que me negas. 

VIII

parte-se-me o coração
como nuvens, aos pedaços.
inquietude bebe sombras,
leva borrões, manchas
do que ficou  e findou-se.

o poema é coisa viva,
rasteja, se mexe feito cobra
e vibra silente. armadura
para conter a lágrima,
e viver o que ainda existe.

IX

estranhei na madrugada as batidas do coração. loucamente apaixonado, e aí eu podia, tinha só 30 e tantos anos e ela estava bela, o  domingo que veio dela me encharcou de luz. os dias adivinhavam o que eu queria,  as noites sabiam o que eu não sabia, e é que ficaria sozinho, com as estrelas desgarradas e meu mundo desmoronando. chutei tudo que aparecia pela frente: balde, pedra, lembrança, soluços.
atormentado pelo poder do amor,  me perguntava porque ela saiu assim de mim, arrancando as palavras da minha boca, deixando que, caído, eu arrastasse a cara na poeira do chão e mergulhasse de vez numa sofreguidão de copos, cigarros e drogas pesadas. o sangue vermelho das veias misturado com o branco das anfetaminas. as pupilas dilatadas dos olhos fitando o colorido violento dos quadros de grandes artistas fixados nas paredes da imaginação. os cogumelos colhidos no campo me levando para viagens de cartões postais e angústias do fim do mundo.

mas antes, muito antes, eu senti seu perfume adocicado de beija-flor, toquei seus cabelos como quem segura liames que nos ligam ao céu e a beijei com desmaios e devaneios, respirei dentro de sua respiração ofegante, morto de desejo e de silêncios, a vida se partindo como vidros quebrados.  e ela ali, comigo e longe, afastando-se. e ela ali, comigo e distante, com a brancura do seu corpo deixando-me sozinho na encruzilhada da perdição. e ela ali, comigo e sumindo para sempre.

X

Desgarrado, sem pátria e sem amor
ainda chamo seu nome vez em quando.
Mas lembro: movia-me nas pedras,
melancólico e só, quando sorria.

Sem ela, por onde andei e o que fiz
foi um plantio do inútil, um não viver
com máscaras no rosto, ondas do mar
que vi, ao longe, vida de espuma.

Ave, Maria, mãe dos esquecidos do tempo.
Ave, Maria, mãe dos perdidos nas trevas.
Ave, Maria, mãe dos iludidos na terra.
Ave, Maria, mãe, só penso nela.


Ó Senhor, pai dos amantes abandonados.
Ó Senhor, pai dos desesperados.
Ó Senhor, pai dos ludibriados.
Ó Senhor, pai, perdi-me dela.

Agora digo adeus ao sonho que se vai,
ela quebrou meu coração com pedra, 
afogo as mágoas no rio Uruguai,
até queimar meu coração de luz.

Viver de amor, sofrer, morrer de amar.
Viver de amor, assim vou me acabar.
Longe de mim, ela se fez de surda
e muda. E a minha vida mudou: infinda.

a poesia enlouquece.
cava nos dentes rombos de palavras.
percebe na relva os orifícios da dor,
por isso escrevo o proscrito,
o que não é amor,
o que geme sozinho.

a poesia o amor o proscrito,
a dor os orifícios os dentes:
percebo na relva
que quem geme sozinho
perdeu-se pelo amor
de uma mulher."

10 comentários
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Leocádio MartinsHá 3 semanas Brasília DFÊita compadre. Um tormento esse amor pra ti, né?
Lúcia Nascimento e SilvaHá 3 semanas Rio de Janeiro/ Bacabeira(MA).Oi Mhario. Quanto tempo. Mas estou de volta e leio esse magnífico poema de nosso irmão comum. Fontenele utiliza uma linguagem lírica e imagética, criando atmosferas intensas e evocativas. Seus poemas são repletos de metáforas, símbolos e sensações sensoriais. Ele mergulha na subjetividade, explorando o eu lírico e suas experiências. Por isso, Mhario, eu o reputo o melhor do Maranhão, hoje! Axé! Eparrei.
Luis CrispimHá 3 semanas Porto Alegre RGSCaro senhores, permito-me identificar esse épico poema do respeitável poeta intimista, professor Raimundo Fontenelle, a quem conhecir na flor de seus 18 anos, esvuassante e inquieto, na praça Deodoro, em pleno efervecência do centro de São Luís, como uma transcendência do religioso para se torna uma meditação poética e filosófica sobre a existência, o amor e a busca por algo maior.
Professor Marcelo CantanhedeHá 3 semanas Literatura: Universidade. Parnaíba. PiauiA excêntricidade de Raimundo Fontenele está na sua cultura. Boa, Má, Difícil, Exuberante ou Interpessoal. Mas é cultura! E não contracultura que os baluartes da maranhencidade imbecil costumam tentar fazer. E nem isso - a contracultura - o fazem de forma eficaz.
Carmen Regina DiasHá 3 semanas Cascavel3. (...) Quanta sensibilidade! É, mestre, você nos ensina a cada linha sua, a cada verso, cada parágrafo, cada instante... Gratidão.
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