Terça, 01 de Setembro de 2026 07:41
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil NAURO MACHADO

"Nauro Machado por Nauro Machado", 89 anos depois.

Matéria e pesquisa da redação do Facetubes.

02/08/2024 16h35 Atualizada há 2 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Redação do Faceutubes
Arte: Mhario Lincoln
Arte: Mhario Lincoln

Nauro Machado. (Recuperado, em parte, da entrevista concedida à equipe do SIOGE, quando o poeta completou 50 anos).

 

"Sim, a poesia é dura e dura e consome toda uma existência. Por quê? Olhe para mim, leia os meus versos, veja a minha vida ou a parcela da minha vida tornada pública, e constante que se eu combati e combato o bom combate, deixei também, ao longo desse tempo, o legado inscrito - e não apenas escrito - no meu poema Calendário: "Escuta: o tempo passa! E o teu passou./ Passou o bonde, o colégio, a criança./ Já o adulto vai-se: estás chegando ao fim/ como um ronco doído em coisa podre,/ como um enlatado para ninguém./ Made in Brasil. Tonel à água lançado/ no porto-noite./ Minha família! Ó alma." (Nauro Machado).

Continua após a publicidade

 

Nasci em São Luís (MA) a 2 de agosto de 1935, filho de Torquato Rodrigues Machado e Maria de Lourdes Diniz Machado. Do lado paterno, herdei geneticamente a predisposição para os atavios da linguagem como elemento transfigurador do real, em cuja base se escora uma carga de conhecimentos humanos capazes de torná-lo apreensível e pesado pelo que dele - real conseguimos ou podemos apreender como corpo do nosso independente e alheio, mas sem o qual pairaríamos alhures de nós próprios, no desconhecimento daquilo que se feduziria à distância compreendida entre a ideia e o fato, entre o projeto e o nome coisificado.

Antes de mim, como depois de mim, se intercala o sonho vivido por outros e pelos outros intuído em realidade doutros.

Tenho um verso de poema ainda inédito capaz (sê-lo-á mesmo?) de ser a estrofe sintetizadora de uma dialética existencial talvez nunca ou impossível até mesmo de uma inicial tese do ser como vivência ontológica minha e a outrem intransferível:

"antes de eu ser não houve o Deus, que é um fim depois". Essa pré-disposição hereditária pela palavra, pelo ludismo do verbo enquanto meio de fazer-nos aparentados de quem conosco divide o capítulo carnal de um enredo que passageiramente desenvolvemos num determinado tempo, foi cumprido politicamente, sobretudo pelo meu pai e tios, figuras de relevo no panorama social-político do Maranhão, em todo o decorrer deste século. Eu também pretendi ser político numa dada altura da minha juventude: fui candidato a Vereador em 1962, pelo Partido Republicano, obtendo a segunda suplência, apesar de não haver feito uma campanha ostensiva ou do tipo daquelas das mãos pedintes: esquivo ao pedido subalterno de favores pessoais (já o fui com maior autenticidade antes) por uma barreira psicológica com que me construíram ostensivamente alheio e infenso a aberturas capazes de rachar-me ao meio, na base do meu intrapsiquismo original, cedo compreendi que a tarefa por mim a ser executada e que me privaria como até hoje me há privado, dos bons teria que desígnios dos astros zodiacais ser cumprida solitariamente, completamente a sós, comigo mais a solidão, esta prenda arrebanhada de algum reino primevo e ainda oculto à revelação, pela Palavra, dos seus místicos portais, da sua cama nupcial e do seu luto derradeiro. Esta, como a do amor, é uma batalha sem vencedor, conforme a axiomática asseveração existencialista sobre o dado factual daquilo que consigo carreia também o inomeado e o inarticulado entre duas colunas, sob cujas arcadas sombrias jazem pérolas de rios ou mares na intumescência dos órgãos abscônditos, a melodia pautada pelos sons de um instrumento sempre além de nossas mãos e dos nossos lábios. Do lado materno, a par da herança europeia de um sangue talvez minguadamente pobre, a humildade da perda que se soube um dia maior do que aquilo que hoje é: este silêncio miúdo,, cuja mutez ouvi nos olhos azuis de minha avó Nelly, cuja figura resignada, na antevéspera de sua morte, era a própria Pietá, implorando perdão pelo fato de ter sido feita da matéria com que é criada a substância medular abaixo de todos os sonhos. Não conheço, hoje, ninguém mais resignadamente mansa do que minha mãe.

(...) Minhas primeiras impressões poéticas datam de um tempo em que não havia lógica ou instrumental psicológico qualquer para organizá-la racionalmente pelo conduto normativo da palavra. Pelo tato, pelo olfato, pelo manuseio labial de substâncias cujo gosto tem o sabor coisificado de objetos historicamente humanos, ainda sem a postura e a classificação com que eu os nomearia ou catalogaria depois; pelo visual embuçado e embaçado das névoas em que a manhã se faz, rompendo os pesadelos do nada este in paralelo ao ente pelo inchar do açúcar com que outras mãos me banquetearam no aniversário onde crescia predisposto para a apreensão individual do que fosse meu: meu sexo, minhas angústias, meus medos, minhas esperanças, minha verdade suísmo de Kiekgaardiana subjetividade; pelo proustianesco odor de uma memória cheirando alhures, na tarde em que, bem me lembro, vi uma velha cozendo no crepúsculo a por-se além do Bonfim hanseneano, olhado da casa de meu pai, onde eu observava diariamente a baía de São Marcos e os barcos trêmulos que por ela seguiam em demanda de portos ou ancoradouros mais pobres e miseráveis, pela velha e belíssima escrivaninha onde rascunhei os meus primeiros versos, quando saindo do lar paterno (tinha eu uns doze anos) caminhei em torno do Largo do Carmo, àquela hora deserto (era tarde de sábado) com a sensação íntima de que algo em mim, minha melhor e mais verdadeira parte, estava plena e cheia de algo a que não poderia definir, mas que ali estava, me elevando ou tirando do centro de mim mesmo, conquanto fosse eu ainda mais eu e melhormente eu o que de mim saía de dentro do meu ser, me unindo ao todo, ou tirando do Todo uma parcela dele, a menor que fosse, para fazer-me parte do universo e de uma perfeição talvez só afiançável pela ideia de um bem que um dia me foi dado possuir e contemplar e que agora, naquele instante, era o rateio socratiano da visão de outrora, talvez em Deus mesmo eu me banhara.

Continua após a publicidade

(...) DEUS - R. Deus é o litígio sangrento de minha alma. É o boxeur com quem luto no ringue da existência. É a poliédrica Face do indivisível e Uno. É o círculo cujo centro está em todas as partes e o ponto terminal no fim de todo início, exceto na minha possibilidade de vê-Lo, de cheirá-Lo, Deus é o desafio encarnado de um Verbo no espaço cego da mutez mais vasta na boca do Nada que se anseia às portas do Tudo. No entanto, no terrível que É: "(...) pouco importa a Deus o que chamamos de alma!"

(...) Minha poesia é o poder alguém pesar-se na balança da existência e dizer com certeza: "eu peso tantos quilos". A dificuldade, por acaso difícil, do que somos e dizemos, é a dificuldade própria e correspondente a cada qual ente o que vê, ouve, pega, cheira, lê, ou seja, o mais ou menos da sua capacidade intelectiva ou da sua compreensão vivencial. (...)

Minha poesia é elaborada mentalmente, pedra a pedra, segundo por segundo, numa exigência interior cada vez mais obsediante. Construo o poema quando estou andando ou deitado, quando assisto a um filme e uma súbita imagem me leva a situações por mim talvez vividas anteriormente ou subconscientemente buscadas, quando sozinho num quarto tenho a sensação íntima de que tudo é falho na passagem de um tempo que talvez sonhamos, quando almoço e janto e uma música estranha em mim aflora trazendo o cardápio de banquetes por outros nunca provados, quando sinto a fome alheia e cheiro a fumaça dos ambientes interiores e miserandos, quando a autoanálise me leva a um estado de semitorrar, tudo isso revolteando no trotar de ritmos que se acumulam e se avolumam trazendo subitamente o primeiro verso e a intuição formal do poema finalizado, completo, como um mundo colocado sobre o mundo, e alheio a qualquer deterioração visceral e humana.

------------------------------

Pesquisa realizada pelo grupo de estudos do Facetubes, sob a direção do jornalista Mhario LIncoln. (www.facetubes.com.br)

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Raimundo FonteneleHá 2 anos atrásBarra do Corda Maranhão É o mais profundo estudo da alma humana, enterrada por mitos e símbolos da nossa cultura ocidental num cemitério povoado por loucos, hipócritas, ladrões, falsários, toda espécie nojenta que a escória humana pôde produzir. Uma alma que a si mesmo se vê na luta contra esses males que o homem fábrica, engendra e cria. Parabéns, grande Mhario, por nos presentear o Nauro nesse seu dia: descarnado e puro, um profeta e poeta que morreu de encanto.
Joizacawpy Há 2 anos atrásSão luís O que dizer? Perfeição sobre o que é o ato de escrever, a poesia está em tudo, mas nem todos conseguem enxergá-la como poesia. E para o poeta todo momento é propício para composição de um poema, quase uma obsessão que nos acompanha aonde quer que formos.Nauro sempre foi genial.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 06h01
15°
Chuvas esparsas

Mín. 12° Máx. 19°

15° Sensação
2.57 km/h Vento
97% Umidade do ar
100% (21.89mm) Chance de chuva
Amanhã (02/09)

Mín. 11° Máx. 18°

Tempo nublado
Quinta (03/09)

Mín. Máx. 22°

Tempo limpo
Ele1 - Criar site de notícias