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Convidados da APB: mais um texto reflexivo da escritora Socorro Guterres

Socorro Guterres é convidada da Academia Poética Brasileira

05/09/2024 18h08 Atualizada há 2 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres
Socorro Guterres. (Divulgação)
Socorro Guterres. (Divulgação)

 

 Socorro Guterres


Graduada em Odontologia pela Universidade Federal do Pará.
Graduada em  Letras pela  Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 
Mestra e Doutora em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

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As paredes pedregosas subiam ao redor do imenso lago de águas doces, sumidouro que os maias acreditam sagrado. Como cheguei nesse local sozinha, na aventura do desbravar?  A agência turística enviara uma foto de esplêndidos cenotes na Península de Yucatan e adormeci sonhando com esse roteiro.  Num passe de mágica eu estava lá, sem guia na longa trilha, conhecendo a essência da natureza e a cultura do povo maia.

Decerto que Toh, o pássaro azul, me conduzia num canto hipnótico tal qual um flautista lendário.  Passei por velhas fazendas e também por cabanas de tetos de palha, mas esses recantos nebulosos não sedimentaram lembranças, até que surgiram os límpidos olhos d'água, cada vez maiores e cristalinos, a brotarem lágrimas dos deuses que, certamente, ainda choram pelas terras perdidas às invasões espanholas e, posteriormente, aos milhares de turistas que buscam conhecê-las. Contudo, no meu lúdico caminhar só havia a companhia de Motmot, a tal ave turquesa.

A degradação de rochas calcárias fez emergir as águas subterrâneas, assim como no sonho emergem os desejos mais ardentes. Acreditava-se que essas piscinas naturais eram portais para a vida após a morte e no onírico flutuar em que eu estava, em sono profundo, quem sabe estivesse nesse limiar?

Tentava não escorregar pelas pedras e alcançar o azul do poço, no abismo circundado de vegetação exuberante. Despi-me para entrar nas águas, numa repetição de ritos antigos em que o líquido vital levava à comunhão com as divindades. Na maioria das religiões a água é um símbolo etéreo. Cristo nos disse ser Água Viva e em cerimoniais do batismo a água é passagem para uma outra vida, a vida de graça. Assim, entrei no cenote, como a mergulhar na vida de Deus, na essência daquilo que buscamos compreender e alcançar.  Estava despida de tudo no encontro ancestral, remontando ao início.

Subitamente alguém recolhe a minha mão caída do leito, abro os olhos e me deparo com a tela em frente a minha cama, a qual retrata intensa cachoeira que despenca um barquinho sobre a cômoda de um quarto. Queda d'água que adentra por estranha janela entreaberta, de cortinas carmim, esvoaçantes, em noite de luar. Tendo ainda em destaque enigmático pássaro de bico longo e colorido, no surrealismo ilógico do sonho ou na realidade absoluta.  Submergi do inconsciente na clareza da manhã que já ia alta.  Alguns fios d'água do cenote traziam memórias esparsas. Olhei o roteiro turístico na cabeceira ao lado e circundei Yucatan.  Ela me aguardaria.

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DalmárioHá 2 anos atrásNatal RNParabéns grande amiga, Socorro Guterres.
Claudiana Meneses Há 2 anos atrásRio Grande do Norte Parabéns Socorro! Uma prosa belíssima, recheada de poesia.
Maria OdinéaHá 2 anos atrásSão Luis - MaTexto repleto de poesia ... e me levou junto a sonhar !
Milton BorgesHá 2 anos atrásNatal RnLindo texto. Parabéns amiga .
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