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Especiais CONVIDADO ESPECIAL

Convidado Especial. Paulo Urban. Causo: "O Louco da Concessionária"

Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento

14/10/2020 18h54
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Urban
Paulo Urban. (Crédito foto de Maíra Meyer)
Paulo Urban. (Crédito foto de Maíra Meyer)

Causos da Psiquiatria – VII

(por Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento)

www.amigodaalma.com.br [email protected]

 (Crédito foto  da Capa de Maíra Meyer)

  

O LOUCO DA CONCESSIONÁRIA

  

Guiomar havia subido fazia menos de meia-hora para a enfermaria psiquiátrica, 2º andar do HSPE (Hospital do Servidor Público Estadual). Passara antes pelo pronto-socorro, ao qual dera entrada sob ultimato de seus familiares: dois irmãos, o pai, e a esposa, que o trouxeram para avaliação. Pouco mais dos 40, pai de 3 filhos, casado há 20 anos, professor de geografia da rede estadual. Malgrado a vida pacata e modesta em todos os quesitos, para desespero de sua esposa, também professora da rede pública, Guiomar comprara na última semana nada menos que quatro carros ‘zero km’. Uma frota! Todos eles Chevrolet Kadett, cada unidade comprada numa concessionária diferente. Nem vaga havia em sua garagem para guardar sequer dois desses carros.     

Era março de 1992. Eu cursava meu 2º ano de residência médica em psiquiatria. Chamado a entrevistar o paciente, dei com um leão enjaulado. Ansioso, Guiomar andava aflito dando voltas pela sala, circulando em torno da mesa enquanto ia xingando a esposa, vociferando contra seu pai e seus irmãos que o haviam ludibriado ao trazê-lo ao hospital. Ao ver-me entrar na sala de consultas, protestou indignado:    

-- Tremenda injustiça, doutor! Bando de ingratos! Então é assim que me tratam esses traidores!  

Tentei apresentar-me, mas o moço a praguejar sequer me ouvia.  

-- Faço tudo por eles. Sou excelente pai e um marido exemplar, nunca traí minha mulher... em contrapartida, o que recebo? Internam-me na psiquiatria, como se eu fosse um doido ou coisa parecida. Mas isso não vai ficar assim não, doutor.  

O homem estava irado, explosivo, um TNT em pessoa. Dava murros na parede a fazer estremecer os móveis. Por questão de prudência preferi manter a porta do consultório entreaberta, para o caso de ver-me obrigado a sair pedir ajuda aos enfermeiros.   

-- Calma, amigo! – falei, guardando dele certa distância a manter-me fora do raio de seus golpes - Por favor, procure acalmar-se, sim?  

-- Acalmar-me como com uma família dessas? Hipócritas!   

-- Quem sabe eu possa ajudá-lo de algum modo, para isso estamos aqui. Procure acalmar-se um pouco, sim? Primeiramente, a fim de esclarecermos as coisas, por que não me conta direitinho o que se passa? Se puder me explicar o porquê de seus familiares o terem trazido ao pronto-socorro, já seria um bom começo. 

-- Uns mal-agradecidos, doutor! 

Guiomar bufou, respirou fundo, bateu sobre a mesa, fez um instante de silêncio e se sentou. Era um começo. Tomando fôlego, prosseguiu:  

-- Um bando de cretinos, doutor. Todos eles. Imagine, só, minha mulher hoje cedo ligou pro meu pai e mandou pôr meus irmãos na conversa. Não quis saber do que falavam, mas rapidinho estavam todos os três lá em casa com uma história de que tinham que me levar ao cartório. O tonto aqui acreditou, até porque tem mesmo uma partilha aí rolando, mas o que se deu foi isso, trouxeram-me à revelia para cá. Pior de tudo é que o complô estava armado, ação premeditada, pois o médico lá de baixo, aquele incompetente, foi logo entrando no papo e não é que resolveu me internar? Surreal, doutor, um absurdo!  

-- Mas essas coisas não se dão assim à toa, Guiomar; de fato, ninguém deve ser internado sem razão clínica que o justifique. Que motivo haveria para que o médico lá de baixo se convencesse de ser você um caso assim, de internação?  

-- Pois não acabei de dizer ele entrou no jogo deles? Tudo armado, tudo premeditado contra mim, doutor. 

-- Olha só, vejo aqui em sua ficha que o amigo é professor, leciona Geografia; portanto, pessoa minimamente razoável. Não é possível que não tenha sequer mínima ideia a respeito do que esteja acontecendo.  

-- Pois vou meter processo em todo mundo, doutor; esses traidores! Só porque comprei quatro Kadettes zerinho fazem isso comigo. O senhor acha certo isso? A gente só quer ver a alegria das pessoas queridas, e é assim que elas retribuem.

-- Quatro carros? Zerinho todos eles?  

-- Exatamente, como eu disse. Quis fazer surpresa e dar um carro de presente para cada membro da família. Eles, que deviam estar dando até festa por isso, muito pelo contrário, sem nota alguma de agradecimento, ainda me internam? 

-- Se entendi direito, o amigo comprou um Kadett zero para cada um? Um para o seu pai, outro para a esposa, e os outros dois respectivamente para cada um dos seus irmãos? Foi isso?           

-- Não, doutor. Meu pai e meus irmãos nem gostam de Chevrolett, preferem Volkswagem, dizem que quebra menos e a mecânica é mais barata. Eu não, eu quero mesmo é coisa boa. Sou fanático por Kadett; especificamente o GS esportivo, baita desempenho, motor 2.0 OHC que chega a dar até 220 km/h nas estradas. Um Fórmula 1 de passeio, doutor, não tem máquina melhor.  

-- Duzentos e vinte nas estradas? É só para tomar multa, é?  

-- Levo multa não, doutor. Estou acostumado a descer pra baixada e sei de cor onde os guardas se põem atrás da moita. Sou mais esperto que eles todos. Só corro mesmo onde dá. E é pra isso que o Kadett GS é show; e ainda vem equipado com escapamento duplo, fora o computador de bordo e as tomadas de ar que saem do capô. As rodas e as calotas prateadas são a cereja do bolo, mas o melhor de tudo é o painel, todinho laranja, minha cor preferida. Desde criança gosto do laranja, uma cor vitaminada. Todos os meus desenhos de escola tinham muito laranja. Meus lápis cor de laranja viviam no toco, de tanto que iam pro apontador. Até a bandeira do Brasil eu pintava com o laranja no lugar do amarelo. Até zero levei da professora de Educação Moral e Cívica por causa desta minha criatividade. Fazer o quê? Aquela megera não nasceu mesmo para o bom gosto. Até minha casa, doutor, mandei pintar todinha de laranja, por dentro e por fora. Minha mulher não gostou nadinha da surpresa, mas eu e o pintor até que fizemos um bom trabalho naqueles 15 dias em que ela esteve fora por ter ido pra Araçatuba visitar a irmã doente. Foi só ela sair que no mesmo dia já começamos com a pintura. E olhe que nossa casa ficou mesmo original, é a única nessa cor no bairro todo. Ficou uma belezura! Quem vai me visitar nem acredita quando vê. Passa lá para um cafezinho, doutor, só pro senhor ver como ficou. Quem sabe um dia pinta a sua casa nessa mesma linda cor.

-- Meu caro, eu nunca entendi nada de automóveis, mas gostaria de compreender melhor esse seu fascínio pelo Kadett... mais que isso até, queria mesmo que me explicasse por que comprou logo quatro de uma vez.  

-- Fácil de explicar, doutor. Mera questão de bom gosto, simplesmente o Kadett é o melhor carro que existe. Também aquele que apresenta o melhor coeficiente aerodinâmico do mundo, doutor. Já reparou como ele parece uma espaçonave? Toda vez que me sento num Kadett e ponho as mãos na direção, é como se eu fosse um astronauta a caminho da Lua. Me sinto um Louis Armstrong!  

-- Neil Armstrong. 

-- O quê? 

-- Louis Armstrong é o famoso trompetista. O astronauta da Apolo 11 é Neil, Neil Armstriong. 

-- Então, exatamente como eu disse, não entendi o porquê da correção. Pois, o maior sonho meu desde criança era um dia ser astronauta. Quando fiz 18 anos, queria mesmo era ter me alistado na Nasa, não no exército. Mas o problema é que àquela época não havia Nasa no Brasil. Enfim, voltando ao ponto, a verdade é uma só: toda vez que entro num Kadett tenho essa indescritível sensação de que vou sair voando rumo às estrelas, ousadamente indo aonde nenhum homem jamais esteve. O senhor também curte Star Trek? Doutor McCoy? Capitão Kirk? Spock, o Vulcano das orelhas élficas, oblongas?  

-- Adoro! Esse seriado marcou meus tempos de garoto.  

-- Agora tá explicado porque até me simpatizo com sua pessoa, bem mais sensata que aquele ogro que me atendeu lá embaixo. Mas então, voltando à minha defesa de tese: não foi mesmo à toa que a Revista Quatro Rodas, única publicação cultural que leio e assino, elegeu o Kadett como carro do ano de 1991. Um automóvel deveras fascinante! Um foguete nas estradas! Por fora um carro compacto, por dentro uma astronave futurista. Um tesão de máquina, uma fantástica mecânica! Com aquele motor à explosão, mais parece uma ogiva nuclear! O senhor precisa dar-se ao prazer de dirigir um destes. É batata, vai ser caso de amor à primeira vista. A propósito, lamentavelmente, depois desta manhã de confrontos, já nem sei quem amo mais, se é minha mulher ou o Kadett. O carro, pelo menos, nunca vai me trair assim, sair por aí querendo me internar. Por que não passa numa concessionária Chevrolet quando sair do trabalho e faz hoje mesmo um test-drive, doutor? Vai adorar tanto o Kadett que periga acabar comprando um, quem sabe dois até... daí, sim, o senhor vai me entender. E tendo comprado seu Kadett zero, podemos então combinar de descermos juntos pra baixada... Santos, São Vivente, Guarujá, Praia Grande... desfilar por lá com nossos Kadettes... imagina só a cena: a gente circulando pela orla e as pessoas acenando, as crianças aplaudindo contentes, gritando e apontando pra gente: “Olha só, meu, aqueles Kadettes!”... Vai ser um espetáculo!  

-- Mesmo assim, haja vista todo esse seu amor pelo Kadett, não bastava haver comprado um? Por que quis quatro de uma vez?   

-- E qual o problema em se comprar mais itens daquilo que a gente gosta? Olha só, se eu vou à padaria e quero um sorvete, por que ficar no picolé se posso logo ter o tijolo, ou um daqueles potes de 2 litros de uma vez? Por que gastar dinheiro num fusquinha bala ou num corcelzinho 4 portas, aquele quadradinho, se gosto mesmo é do Kadett? O que há de errado nisso, doutor?    

-- De errado não tem nada, afinal, gosto não se discute. Mas não é sua preferência que se questiona aqui.    

-- Pois fique sabendo: fosse rico, comprava outros mais.  

-- Eis aí o problema.  

-- Problema? Que problema?  

Sua perplexidade me convencia que lhe faltasse por completo a crítica. A maiêutica nunca fora o meu forte, mas procurei argumentar, a quem sabe fazer parir daquele obcecado por Kadettes algum vislumbre de concretude, algum senso de realidade.  

-- O que sua família questiona é como poderá o amigo, um modesto professor, arcar com essa fabulosa compra. De onde vai sair esse dinheiro todo?

-- Ah, ah! O doutro fique tranquilo, tenho tudo aqui com meus botões desde há muito planejado. Muito bem planejado! 

-- Então me conte, qual seria o plano?

-- Tudo bem, concordo que eu seja um simples assalariado, também não precisava pôr o dedo nesta minha ferida, né doutor? Mas, justamente, desde que 1991 entrou eu só tenho mesmo me sentido a cada dia melhor. Pelas manhãs, percebo-me a cada dia mais feliz e confiante, acordo assim... cheio de mim. Ouso dizer que me encontro na fase mais produtiva de minha vida. Nunca me senti tão forte, se é questão de ser-lhe aqui sincero. Do jeito que ando ultimamente, nem há dúvida, logo começo a chamar a atenção de meus colegas de trabalho; tenho gás para dar mais aulas dos que as 20 por semana, com essa energia toda posso até dobrar meu turno, lecionar ainda às noites, noutras escolas também.... 

Ele era a convicção em pessoa. Impermeável em suas certezas, prosseguia acelerado, do alto de sua ilusão:   

-- Quem primeiro vai notar meu desemprenho, tão bom quanto o de um Kadette, sem dúvida será meu chefe, que é quem mais vive me observando. Guardo, pois, a certeza de que mais dia menos dia, não vai demorar muito, serei por mérito promovido. E meus méritos são tantos que, presumo, logo devo ser promovido a coordenador pedagógico, chefe substituto, até que, num belo dia, eu seja nomeado diretor da escola. Ou quem sabe tenha um pouco de sorte e seja indicado para o cargo de Secretário da Educação do município. Sim, está escrito. Passo então a ganhar bem mais, um salário bom, bem melhor que o de agora, com o que, incontestável lógica, vou pagar com facilidade até essas prestações dos quatro carros. Minha esposa não sabe direito o marido que tem, nunca me valorizou muito mesmo... e olhe que a coitada nem sabe enxergar assim lá na frente tão bem quanto eu. Na verdade, doutor, se há alguém doente aqui, é ela, sabe? Vive atolada naquele seu pessimismo mórbido, só pensa negativamente. Já nem confia em mim como antigamente. Se ao menos aceitasse o carro que estou lhe dando de presente e pudesse sentir-se agradecida, quem sabe pudesse me considerar um pouco mais, ao menos era esta a minha intenção ao comprar pra ela um Kadett. 

-- E os outros dois? Para quem os comprou?  

-- Olha só, doutor, vou explicar do melhor jeito possível. Acompanhe, depois me diz se estou errado...   

-- Sim? – curioso pelo que viria.   

-- Comprei 4 Kadettes por uma questão de justiça. Detestaria saber-me injusto. O primeiro deles foi pra mim, pelas miles razões que já expliquei. Como disse, o carro do ano! Daí, a fim de fazer feliz a esposa, a bem de melhorar aquele seu pessimismo todo, como ela faz aniversário logo mais, ela é de Libra, finzinho de setembro, vai fazer 37 daqui a pouco mais de cinco meses, resolvi antecipar seu presente de aniversário. Imaginei a alegria que não seria, ela toda feliz, dirigindo um carro zero! E ainda por cima, igualzinho ao meu, ambos vermelhos, porque, infelizmente, a fábrica não faz Kadett na cor laranja; procurei pelo laranja, mas o caso é que não tem. Paciência, fazer o quê? Nem tudo é perfeito nesse mundo, né, doutor?, como diria a raposa do Pequeno Príncipe.  

-- Pois é.  

-- E o que fez essa ingrata quando soube que eu lhe tinha comprado um Kadett? Em vez de comemorar, querer sair para jantar comigo, dar uma festa até, o que foi que ela fez? Ligou para o meu pai e meus irmãos e o resto o senhor já sabe, resolveram me internar.  

-- Até aqui são dois Kadettes. E os outros dois?  

-- Calma que eu chego lá, o senhor está muito ansioso, doutor. Deixa eu contar com calma, com todos os detalhes. Vamos lá: tendo então decidido adquirir dois Kadettes zero quilômetro, eu não podia deixar perder a promoção. E olha que o desconto era tão bom que quase que compro logo mais três, um para cada filho, doutor. Mas ponderei que meu filho caçula, como só tem ainda 9 meses de vida, até ele crescer... acho que o carro poderia desvalorizar pelas tabelas Fipe de veículos usados, o que seria perder dinheiro, algo nada inteligente de minha parte; de fato, não seria um bom negócio.   

-- De fato, um péssimo investimento.  

-- Mas o mesmo não ocorre com os Kadettes que comprei para meus outros dois filhos. O mais velho já vai completar 18 anos, dirige desde os 12, eu mesmo que lhe ensinei a direção. E não sou homem de não cumprir palavras. Desde que é criancinha que lhe prometo que lhe daria um carro quando chegasse aos 18. 

-- Ele faz 18 quando? Daqui a uns cinco meses também, como a esposa?

-- Pouquinho mais, doutor, ele fica maior de idade já bem perto do Natal, exatamente no dia 22. E vai ganhar o carro tanto pelo aniversário como também pelo Natal; uma economia para mim, afinal, não sou rico assim para dar a ele todo final de ano dois presentes de uma vez.   

-- Compreendo, e o quarto Kadett?  

-- Ora, este comprei para meu filho do meio, que completa 14 anos logo agora, mês que vem. O garoto nem sabe dirigir ainda, mas terá 4 anos para aprender, e a vantagem é que já quando sair formado pela autoescola, já terá um Kadett zerinho lhe esperando. Tá certo que ele ainda é menor, porém, em compensação, não é nenhum nenezinho de 9 meses como o irmão. Coitado, iria ficar muito sentido comigo, e com razão, vendo assim todo mundo lá em casa ganhando um carro novo e ele não. Posso até ter alguns defeitos; quem não os tem, não é, doutor? Mas, pai exemplar que sou, como seria aguentar depois um martelo dia e noite na minha cabeça por ter sido injusto com esse meu filho do meio? Já ensinava meu falecido pai: não se pode fazer diferença quando o assunto são os filhos da gente. Minha esposa também não compreende isso muito bem, pensa diferente, mas no fundo até que ela é uma boa mãe.  

-- Só sei que ela agiu no sentido de preservá-lo. De posse da cópia de sua guia de internação está indo às concessionárias tentar reverter estas compras, e creio até logre êxito, haja vista que, salvo o amigo ganhe uma bolada na loteria, não sabemos como vai pagar estes carros. Se os gerentes das agências forem sensatos, espero queiram resolver o problema da melhor maneira.  

Guiomar pela primeira vez ficou quieto, parou por uns instantes com olhar distante, quase chorou, acalmou os ânimos. Parecia haver caído em si. Talvez estivesse tendo um lampejo de consciência, quem sabe começasse a refletir sobre o absurdo que fizera. Olhos marejados, estatelados, a mirar o infinito, dava-me a ideia de que por sorte houvesse agora uma noção mínima de realidade, cujo peso e concretude, lá do alto de seu estado maníaco, Guiomar não soubera antes avaliar. Talvez pela primeira vez estivesse a pôr em xeque seus descabidos, esta sua prodigalidade que o fizera comprar quatro carros zero de uma vez, a contrair uma dívida desnecessária, muito além de suas posses. E quando eu já achava que esse rasgo de noção lhe clareasse as ideias, para minha surpresa, ele volta do limbo onde estivera por uns segundos pensativo, com uma oferta para mim, nua e crua:  

-- Doutor, vamos então fazer o seguinte:  quero lhe propor um trato! 

-- Pois, não?  

 -- Um trato formal entre cavalheiros, quero que aceite minha palavra que o trato é sério, entre mim e o senhor.  

-- Sim, o que seria? – juro que não fazia ideia. 

-- Verbalizemos um acordo de elegância. Sou homem de palavra, ela vale minha honra. Topas?  

-- Não estou entendendo, Guiomar. Posso confiar sim em sua palavra, mas que tipo de trato quer fazer? 

-- Muito simples. Olha só... tenho ainda uma poupancinha em que não mexo faz uns dois anos... tem uma boladinha boa guardada lá... dá para abrir outro financiamento. Façamos assim: o senhor assina aí a minha alta, mas assina ela agora, que eu lhe prometo de coração que volto lá na concessionária onde comprei o meu Kadett e compro outro Kadett zero igualzinho pro senhor também. Tem do preto e do vermelho. Qual prefere?

E foi sorrindo, no intuito de fechar negócio, que Guiomar me estendeu a mão direita. 

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