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Convidada Especial: Escritora APB, Dione Mara Souto da Rosa

O GUARANI DE JOSÉ DE ALENCAR E A INFLUÊNCIA DA LITERATURA GÓTICA EM SUA OBRA

23/10/2020 18h55 Atualizada há 6 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Dione Rosa
Dione MS Rosa
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O GUARANI DE JOSÉ DE ALENCAR E A INFLUÊNCIA DA LITERATURA GÓTICA EM SUA OBRA

 

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Autora convidada: DIONE MARA SOUTO DA ROSA

O GUARANI DE JOSÉ DE ALENCAR E A INFLUÊNCIA DA LITERATURA GÓTICA EM SUA OBRA              

         

RESUMO:

José de Alencar, escritor romântico da primeira fase do romantismo, foi fortemente influenciado pelas narrativas góticas inglesas do século XVIII; entretanto foi classificado apenas de romântico e indianista pela crítica nacional do século XIX e XX, sendo que tal crítica levou em conta apenas as questões de identidade nacional, negligenciando o imaginário e a fantasia, rotulando as obras literárias do período como algo estrangeiro e alheio à realidade brasileira, atendo-se a critérios eminentemente sociológicos e psicológicos, impossibilitando reconhecer o papel da tradição gótica em nossa literatura, não afinados com o programa artístico nacionalista da época. Todavia, graças aos estudos de Daniel Serravalle de Sá no livro Gótico Tropical – o sublime e o demoníaco em O Guarani e Júlio França em Poéticas do Mal – A literatura do Medo no Brasil (1840-1920), no século XXI fica sacramentada a tradição gótica no Brasil, incluindo vários autores nessa perspectiva, notadamente José de Alencar com o romance O Guarani.

 

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PALAVRAS-CHAVE:

José de Alencar. O Guarani. Tradição Gótica no Brasil. Romantismo.

 

1 INTRODUÇÃO

O Romantismo foi um movimento literário e artístico surgido na Europa do século XVIII estendendo-se até o século XIX. Influenciou a literatura, a pintura, a música e a arquitetura. Opondo-se ao classicismo, racionalismo e iluminismo, esse movimento chegou ao Brasil em finais do século XVIII.

Os românticos objetivavam com suas obras incentivar a exaltação da natureza pátria, o retorno ao passado histórico e a criação do herói nacional. Na literatura europeia, os heróis nacionais eram belos e valentes cavaleiros medievais, enquanto que na brasileira são os índios, igualmente belos, valentes e civilizados.

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As principais características do Romantismo, enquanto movimento literário são subjetivismo, supervalorização das emoções pessoais e egocentrismo. O autor cria um universo particular, exaltando a natureza; todavia sobrevêm tédio e frustração, com fuga da realidade, idealização da mulher, da sociedade, do amor e saudade da infância.

Nesse contexto, surge um de seus maiores expoentes, o escritor José Martiniano de Alencar Júnior (1829-1877), que nasceu no sítio Alagadiço Novo, Messejana, Ceará, filho de José Martiniano de Alencar, senador do império, e de Ana Josefina. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1850 e tornou-se romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Está entre os maiores representantes da corrente literária indianista e é considerado o principal romancista brasileiro da primeira fase romântica. Destacou-se na carreira literária com a publicação do romance O Guarani em forma de folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, alcançando enorme sucesso e servindo de inspiração ao músico Carlos Gomes para compor a ópera O Guarani. Tal destaque o imortalizou ao ser escolhido, por Machado de Assis, para ocupar a Cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras.

A crítica do século XVIII e XIX enaltece José de Alencar por abordar literatura nacional, menos influenciada pelos colonizadores portugueses. Como resultado, as obras de Alencar demonstram a cultura do povo, a história e uma linguagem inovadora para a época. Entretanto, seus trabalhos apresentam características do movimento seguinte, o realismo, bem como paralelos com a literatura gótica, que iremos tratar amiúde na sequência, traduzindo-se no foco do nosso trabalho. Pretendemos demonstrar, endossado por escritores e grandes nomes da crítica literária, como Daniel Serravalle de Sá e Júlio França, a importância do Gótico na literatura brasileira e como ele influenciou os nossos autores, notadamente José de Alencar.

A leitura de obras estrangeiras teve um grande avanço graças à fuga da família real portuguesa para o Brasil, sendo D. João VI o responsável por inúmeros feitos na metrópole em relação à literatura, como a criação da Biblioteca Real (hoje Biblioteca Nacional), propiciando a chegada de inúmeras obras, trazendo grandes avanços artísticos e culturais para o país.

Em 1822 sobreveio a independência do Brasil por Dom Pedro I, provocando forte sentimento nacionalista, na medida em que o povo brasileiro foi influenciado pelas revoluções que ocorriam na Europa, oportunizando diversas transformações políticas, sociais e econômicas ao ocidente. Entre os principais movimentos revolucionários da época podemos citar a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Movidos pelos mesmos ideais de mudança, os artistas românticos passaram a mudar a forma de pensar e perceber o mundo, e a arte como um todo.

A chamada Primeira Geração do Romantismo buscava a identificação do país com suas raízes históricas, linguísticas e culturais. O desejo era o de construir uma arte brasileira, livre da influência de Portugal, com sentimento de nacionalidade, resgatando elementos da história do país. Profundamente marcada pelo indianismo, colocando a figura do índio como herói – o representante do povo brasileiro –, a arte literária se destacou na poesia e na prosa.

O movimento romântico no Brasil inicia-se em 1836 com a publicação da obra Suspiros poéticos e saudades por Gonçalves de Magalhães e acaba em 1881 com a publicação do romance realista Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O Romantismo desejava romper com as barreiras impostas pelo século das luzes, o Iluminismo, que dava vazão, apenas, ao coletivo e social, esquecendo-se do ser individual; assim sendo, tal movimento representou “uma nova realidade artística muito mais condizente com os desejos de liberdade e vazão dos movimentos interiores do espírito humano”, conforme preconiza Márcio Scheel em Poética do Romantismo ao entender que:

[...] o artista romântico ensaia e leva a efeito a ruptura com todo e qualquer modelo de representação que obrigue o indivíduo a alienar-se de sua própria individualidade, em geral consciente e inconscientemente imposta pelo classicismo europeu. (2010, p. 16)

 

           Tal movimento privilegia [...] “o culto do Eu, desenvolvido por Fitche[1] e adotado pelos românticos; problematizará essa visão ideal de natureza, de equilíbrio, de contenção e padronização dos sentimentos, do gosto, da criação” (SCHEEL, 2010, p. 20).

No universo de José de Alencar e do romantismo, vislumbramos que “há mais mistérios entre o céu e na terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar” (Hamlet, William Shakespeare) constatada em suas obras, que denotam a influência estrangeira inspiradora de criatividade e inovação, que buscava construir sua própria história numa literatura em formação.

 

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 GÉRARD GENETTE E O PALIMPSESTO

Todo autor sobre influências; não há nenhum deles que não tenha sido influenciado por alguém ou por alguma obra. É imperioso destacarmos a questão da reescrita como uma forma salutar de transformar leituras em criatividade e riqueza cultural. Não se trata de cópia ou imitação, mas de formas lúdicas de inovar, através da bagagem literária que se adquire com a leitura.

A palavra palimpesto designa um pergaminho ou papiro, cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização. Foi uma prática adotada na Idade Média (séculos VII e XII), devido ao elevado custo do pergaminho, mas para Gerard Génette (1930), crítico literário francês e teórico da literatura, tal raspagem foi o pilar de sustentação para elaboração do seu livro Palimpestos: literatura de segunda mão, fazendo uma analogia entre os pergaminhos de couro e a criação literária, a partir das influências sofridas pelos autores em virtude das diversas leituras feitas ao longo da vida. Ele afirmou que [...] “se pode buscar em qualquer obra os ecos parciais, localizados e fugidios de qualquer obra anterior”. (2006, p. 18)

          O fenômeno da intertextualidade por Genette elencado faz com que um texto esteja presente em outro, relacionando-se diretamente com o conhecimento de mundo de autores e leitores, assim sendo:

[...] Hipertexto é todo texto derivado de um texto anterior, como exemplo temos Eneida (hipertexto) e Ulisses (hipotexto), porém, o universo do autor é muito mais amplo. A hipertextualidade é um aspecto universal da literalidade: é próprio da obra literária que, em algum grau e segundo as leituras, evoque alguma outra e, nesse sentido, todas as obras são hipertextuais. (GENETTE, 2006, p. 18)

 

          Não foi diferente com nosso autor, José de Alencar, que foi influenciado por outras vertentes literárias.

A crítica do século XXI aponta para a obra de José de Alencar possuir outras influências, não somente romântica ou indianista, mas também gótica.

Nosso trabalho inspirou-se pela pesquisa de dois importantes autores e críticos literários. O primeiro escritor é Daniel Serravalle de Sá, PHD em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Santa Catarina, local onde ministra aulas, e que vem pesquisando as relações entre literatura brasileira e o Gótico, bem como as suas manifestações em diversos contextos culturais em que o livro Gótico Tropicalo sublime e o demoníaco em O Guarani avança no sentido da argumentação que queremos demonstrar. O segundo autor, Júlio França, com Doutorado e pós-doutorado na Brown University, USA, organizador do livro Poéticas do Mal – A Literatura do Medo no Brasil (1840-1920) aborda o estudo da tradição gótica no Brasil e suas principais implicações com o medo artístico.

Gótico Tropical associa o conteúdo do romance de José de Alencar O Guarani (1857) aos principais romances góticos da Inglaterra, elaborados na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX. Sabedor da consagração do autor pelo seu cunho indianista, Serravalle de Sá, convida a uma releitura da obra pelo viés gótico, deste modo: “A releitura do romance alencariano, tradicionalmente entendido pela crítica literária como manifestação indianista, utiliza o gótico enquanto desafio epistemológico, grade ou estratégia de leitura (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 135).


 

 

[1] Johann Gottlieb Fichte foi um filósofo alemão pós-kantiano e o primeiro dos grandes idealistas alemães. Sua obra é considerada como uma ponte entre as ideias de Kant e as de Hegel. Assim como Descartes e Kant, Fichte, interessou-se pelo problema da subjetividade e da consciência.

 

Ler a íntegra deste trabalho, acesse o link: https://www.mhariolincolndobrasil.com/post/facetubes-textos

 

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