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“Nós, Palavras”, nova crônica do escritor e poeta Eloy Melonio

Eloy Melonio é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

05/04/2025 às 07h42
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
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Eloy Melonio
Eloy Melonio

NÓS, PALAVRAS

Que palavras da nossa língua você nomearia a mais bela, a mais expressiva e a mais fascinante?

 

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Minha intenção, aqui, é enaltecer o mais prodigioso dos encontros: homem e palavra. E, em vez do tradicional aperto de mão, um afetuoso abraço. Porque esse momento é um milagre que acontece a todo instante desde que o mundo é luz. A palavra ganha vida sob o olhar curioso desse novo amigo. Feitas as apresentações, saem os dois a caminhar na praia das ideias. Nesse passeio, entram em cena o real e o imaginário, o possível e o impossível, o verossímil e o improvável, o bonito e o feio.

Pra começo de conversa, "palavra", aqui, é tema de si mesma, no âmbito metalinguístico. Isso porque ela sempre esteve ao nosso lado, servindo-nos das mais variadas maneiras. Sem ela, a luz da criação não se acenderia, e o mundo seria escuridão e silêncio.

 

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Então é isso, minha gente! Vamos dar voz e vez à palavra, considerando que ela é anterior ao ser humano e tem origem divina. Mas, ocupada em seu sacerdócio, vive servindo uma multidão de gente, esquecendo-se de si mesma. E, na condição de espelho da vida real e ficcional, ela quase nunca se vê a si mesma. E mais: não são culpadas de nada. Porque são instrumentos (para o bem ou para o mal) nas mãos do emissor ou do receptor. Ao contrário do que diz a música “Pedacinhos” (Guilherme Arantes): “O que vale é o sentimento/ E não palavras quase sempre traiçoeiras”.

 

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Sou um apaixonado pela palavra. Não posso vê-la elegantemente vestida ou suavemente perfumada que sou tentado a convidá-la para um bom papo. A ideia desta crônica veio-me num instante iluminado enquanto folheava o livro “O Lírio do Vale”, de Balzac. De repente, deparei-me com esta pérola: “Jamais ponha esse calor nas palavras que me disser” (amada ao amante). Caramba! Tanta sensibilidade nesse calor ficcional me tocou o fundo da alma.

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Se imaginarmos que as palavras são “abelhinhas”, o livro desse grande autor francês — além do enredo — é um enxame em que as “sociais” (que produzem mel em abundância) vivem zumbindo da primeira à última linha desse romance de amor, construindo aforismos, descrições, revelações, conceitos. Por isso, um dos meus preferidos.

 

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Para quem lida com as palavras, elas são como um poema ou uma canção, capazes de preencher espaços na alma e no coração. Celebrando os 80 anos de Elis Regina (17-3-1945), a locutora de um programa de rádio suspira: “Ela fazia a gente rir, chorar e sentir cada palavra”. Com a mesma sensibilidade, a poetisa maranhense Sharlene Serra descreve o dia de seu nascimento (6 de abril): “E o universo em silêncio/ entregou-me à luz/ Não como quem chega/ Mas como quem renasce/ em cada palavra”.

 

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Em reconhecimento a esse poder de dar vida às ideias e aos sentimentos, imaginei uma forma de homenageá-la na figura de sua principal representante, ou seja, "ela" mesma. Qualquer louvação já seria um prêmio para quem passa a vida trancada em livros, dicionários, enciclopédias. Ou voando de lá pra cá e daqui pra lá, carregando os mais diferentes sentimentos, como fez nos versos de "Ainda uma vez, adeus" (G. Dias): “Nenhuma voz me diriges!.../ Julgas-te acaso ofendida?”

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Acreditando em sua potência linguística, pensei em 7 de setembro para o Dia Nacional da Palavra, numa alusão ao grito do Ipiranga. E, aí, certamente, outros gritos de exaltação podem aportar em suas inflexões não tão plácidas. Nesse mesmo espírito, viajo ao passado para ouvir as desculpas dos grandes escritores por sua indesculpável negligência. Dos contemporâneos, espero apoio e ação, caso atentem para esta incontestável asserção tirada da minha gaveta: "Na alma da palavra, a arte da vida".

 

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Deixando claro o que já é evidente, uma breve definição da nossa homenageada: “Unidade mínima com som e significado”. Tanta simplicidade ganha fôlego na singela definição de Walfrido Canavieira, personagem de Chico Anysio: “Palavras são palavras, nada mais que palavras”. Indo um pouco além, a palavra tem história, nacionalidade e organização estrutural.

 

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Princípio de tudo, ela “vem inaugurando o mundo. Plena de vida” (Frei Beto). Com ela, Deus criou tudo o que existe. Logo na abertura do Gênesis, a revelação: "E disse Deus: 'Haja luz'”. Em harmonia, verbo e substantivo são as primeiras a sentir nas suas poucas letras o ato da criação. Outras, igualmente, entram em ação sob o comando do maestro-criador. Que vai criando e nomeando as coisas.

 

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Não há como não se encantar com essa “faculdade de expressar ideias”. Um encanto que também se deixa flagrar na sensibilidade dos olhos, dos ouvidos, dos sentimentos. E, assim, estou convencido de que, sem elas, o nada continuaria “sem forma e vazio”.

 

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Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989), nosso maior lexicógrafo, também não escondia sua relação de amor com as palavras. Descobri, recentemente, numa entrevista (vídeo) que, para ele, — entre tantas outras palavras — “libélula” era a mais bela. Jamais imaginei que o nosso “macaquinho” sapeca (termo mais conhecido no Maranhão) pudesse alçar voo tão alto e emblemático.

 

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Peço-lhes sua atenção para esta reflexão que acaba de nascer: Penso, existo; leio, falo, escrevo; confesso, questiono. E fico sem saber se quem expressa o pensamento sou "eu" mesmo ou a palavra.

 

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E, enfim, imagino-me ouvindo de Deus uma confidência que é “a sua mais completa tradução": "Eu, Palavra".

 

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eloy melonio é professor, escritor letrista e poeta.

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Joizacawpy Há 1 ano São luís Que crônica magnífica, Eloy eu também sou uma apaixonada pelas palavras, tanto o é que meu segundo título solo é MARCA DAS PALAVRAS,sim um verdadeiro tributo a essa companheira de todas as horas. Vou resumir minhas impressões em uma frase da crônica "É um milagre que acontece desde que o mundo é luz". Parabéns!
JaimeHá 1 ano BSB/DFUm valioso artigo. PARABÉNS!!!
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