
A primeira noite do Festival de Parintins 2025 foi aberta pelo Boi Garantido, que iniciou os trabalhos na sexta-feira, 27 de junho, no Bumbódromo, com um canto ancestral que remetia à música andina, com solo de “tarka” e “sampollas” (flautas do altiplano andino), solado pela brilhante voz de Chefine Mendonça. Ela que além de cantora, ela é a porta-bandeira do Garantido, sendo sua participação vocal o ponto alto da abertura de um espetáculo que, infelizmente, deixou muito a desejar. A entrada foi fraca e morosa, arrastada pela falta de ímpeto do levantador de toadas, David Assayag, que funciona muito bem para momentos líricos, mas não para a abertura de um espetáculo — onde os primeiros cinco segundos são cruciais para prender o interesse do público.
Senti muita falta do ímpeto vocal e da dinâmica potente de Sebastião Júnior, que levantava não só a toada, mas o público presente no festival. Sinto sempre essa grande falha técnica no início dessa ópera amazônica, que, como é de praxe, se arrasta sem compromisso com o dinamismo — uma vez que não depende de evolução controlada por cronometragem, como é o caso das escolas de samba. E sabemos que o princípio crucial para as narrativas modernas, tanto na literatura quanto no teatro e principalmente no cinema, é o impacto inicial. Syd Field, por exemplo, determina que o ponto de virada deve acontecer no décimo minuto, depois que os teóricos nos ensinam que devemos começar nossa história com todas as porteiras do inferno abertas.
O Garantido fez uma abertura vagarosa e sem elementos impactantes, arrastando-se morosamente por mais de 25 minutos sem nada que surpreendesse a audiência. Contudo, a questão conceitual do espetáculo é magnífica, apresentando um cuidado primoroso com o tema que nos remete às profundezas da alma amazônica. Nesse quesito, o Festival de Parintins merece nota mil, pois tem, em suas referências, a base de uma riqueza que impressiona o mundo inteiro. Não se trata apenas de citação, mas de uma luta declarada pela preservação e defesa do universo amazônico.
O Garantido apresentou o tema “Boi do Povo”, com o subtema “Somos os Povos das Florestas”, e contou com Isabelle Nogueira como sua cunhã-poranga. A apresentação buscou resgatar as raízes culturais da Amazônia, com destaque para a lenda indígena Tapyra’yawara e o ritual indígena Moyngo – A Iniciação Maragareum.
Uma coisa que difere muito os espetáculos de Parintins das escolas de samba do Sul é que o enredo apresentado no Bumbódromo é entendido pelo público presente através dos textos super bem elaborados, recitados pelo apresentador do boi (item 1). No caso do Garantido, o querido Israel Paulain — ao meu ver, o melhor apresentador do festival — foi o primeiro momento de impacto da apresentação, surgindo sob o refletor no meio da galera encarnada, puxando a tradicional contagem e animando o público com sua experiência de mais de 20 anos com o item 1 do Garantido.
Temos que respeitar esse profissional pelo seu carisma acima da média e sua vibração pelo Garantido. Não é uma questão de técnica, mas de paixão arrebatadora — da mesma forma que Edmundo Oran faz com o Caprichoso. Contudo, falta-lhe o carisma de Israel, sem que isso diminua a grande qualidade de Edmundo. Aliás, para entrar na arena do Bumbódromo, por qualquer um dos dois bois, tem que ser alguém com talento e técnica acima da média. Ali não há lugar para nada mais ou menos.
O Boi Garantido escolheu, por múltiplas razões — estéticas, filosóficas ou políticas —, apresentar seu espetáculo baseado na lenda indígena Tapyra’yawara, que se refere a uma figura mítica da Amazônia, presente nas cosmologias de diversos povos originários da região. Ela representa um espírito protetor das florestas, com grande poder e influência espiritual.
O nome “Tapyra’yawara” vem do tupi, combinando “tapir” (anta) e “-iauara” (onça), formando uma criatura simbólica que reúne características desses dois animais emblemáticos da floresta amazônica. Essa entidade mítica é vista como um ser encantado que protege a natureza e os ecossistemas, atuando como vigilante da floresta e defensor dos povos originários e da biodiversidade local.
No Festival de Parintins 2025, o Boi Garantido encenou essa lenda com alegorias que incluíram onças e jacarés, além da participação da cunhã-poranga Isabelle Nogueira, que representou a materialização do espírito ancestral da Tapyra’yawara, reforçando seu papel de guardiã da floresta.
Em resumo, a Tapyra’yawara é uma entidade mítica que simboliza a união da força e da proteção da floresta amazônica, combinando a força da anta e da onça, e é reverenciada como um espírito ancestral e protetor da natureza pelos povos indígenas da Amazônia.
Como se não bastassem as riquezas da Tapyra’yawara, no segundo ato o Garantido nos deu outro impacto na alma ao trazer para a arena o ritual indígena Moyngo, cerimônia de iniciação masculina do povo Ikpeng, do Médio Xingu, que marca a passagem dos meninos para uma nova fase da vida. Durante o ritual, são feitas tatuagens no rosto das crianças, com incisões usando espinhos de tucum, onde depois se aplica pó de carvão extraído da resina do jatobá. Esse processo é precedido por várias sessões de dança e culmina com uma grande caçada, na qual os pais dos meninos participam e trazem caça moqueada para a aldeia.
Como parte da cerimônia do Moyngo, os adultos aplicam resina líquida nos corpos dos garotos e colam penas de aves nessa resina. Depois disso, os adolescentes bebem mingau doce e dançam durante toda a noite, com cada homem segurando uma tocha e uma criança que será tatuada. O ritual é conduzido por um pajé, que entra em transe e recebe visões espirituais. O Moyngo simboliza a proteção dos segredos da terra e a conexão com os ancestrais e a floresta, sendo um momento de grande força simbólica e mística para o povo Ikpeng.
No Festival de Parintins 2025, o Boi Garantido encerrou a primeira noite com a encenação desse ritual, representando a importância espiritual e cultural do Moyngo para os povos indígenas da Amazônia.
O que deve ser enfatizado nesse magnífico trabalho do Garantido — assim como do Caprichoso — é o contínuo compromisso em difundir, preservar e defender os povos originários e suas tradições culturais. E como já falei, eles têm um respeito e um carinho muito grande pela cultura do Maranhão, em especial pelo bumba-meu-boi, que deu origem ao Boi Bumbá, enquanto o Maranhão parece fadado ao desastre cultural irreversível, onde o estado e o município de São Luís, parecem disputar quem destrói mais as referências culturais do povo maranhense.
É triste ver no Maranhão — um dos estados mais plurais do Brasil —, aquilo que parece ser um projeto deliberado para destruir a cultura e a memória do povo maranhense.
É melancólico ver o Museu Histórico e Artístico fechado porque o prédio está infestado de infiltrações, mesmo depois de duas supostas reformas. Temos o Museu da Cultura Popular, fechado, com o acervo exposto a goteiras e o prédio prestes a ruir, bem ao lado da sede do IPHAN, que permanece se fingindo de morto. Temos o Centro de Cultura Odilo Costa Filho em ruínas, depois de ter desabado por falta de manutenção. Temos o Museu Casa de Nhozinho, fechado também por falta de reparos.
Tivemos a Casa do Maranhão — o único espaço dedicado ao Bumba-Meu-Boi — vendida pelo governador a uma rede hoteleira de Portugal, e o acervo foi jogado num caminhão-baú com destino ignorado até hoje.
Como se não bastasse, o Arquivo Público do Estado, com todo o acervo documental do Maranhão, está em um prédio que ameaça desabar a qualquer momento. Mesmo após audiência pública realizada pelo Ministério Público, permanece sem que nenhuma providência tenha sido tomada. A única medida anunciada é de transferir o acervo para contêineres que ficarão no terreiro do IFMA (antigo Maristas), o que significa a perda de toda a catalogação feita por quase um século — e, com certeza, a perda dos próprios documentos históricos testemunhas da grandiosa e rica história desse estado que já foi referência cultural do Brasil.
Em 2021, denunciei o descaso do estado para com a Coleção de Gravuras de Arthur Azevedo, que está sob posse do Estado desde 1910. Era a maior coleção de gravuras da América Latina, com mais de 24 mil peças — hoje restam um pouco mais que 11 mil, em estado deplorável de conservação, nas dependências da curadoria do Palácio dos Leões.
O Ministério Público processou o Estado e aplicou multas, mas ao que parece, a coleção continua nas mesmas condições. Segundo relatório do próprio MP, a sala onde se encontravam era tão úmida que as gravuras estavam se diluindo. As paredes eram tomadas por limo gerado pelas infiltrações, e o mau cheiro era tão intenso que a assessora do promotor Cláudio Rebelo precisou usar máscara de gás para entrar e fotografar o acervo, conforme relatório que consta no processo nº 0800623-72.2023.8.10.0001 – TJMA.
Enfim, não há como não lamentar a falta de conhecimento sobre o valor da cultura — não só o valor simbólico, mas o valor econômico. A Secretaria de Cultura do Amazonas hoje é uma Secretaria da Cultura e da Economia Criativa. A própria Parintins, é o exemplo vivo do poder da cultura com boa política, pois a cidade e um estado inteiro se beneficiam do capital econômico e imaterial que o festival faz circular.
Engraçado é que a Secretária de Turismo do Maranhão, senhora Socorro Araújo, esteve em Parintins no ano de 2023, mas parece não ter compreendido a dimensão das coisas. Acredito que sequer tenha se reunido com autoridades locais para tratar de alguma política de interesse para o estado.
A impressão que se tem é que ela não alcança o que é turismo cultural, porque a sua gestão, no máximo mediana, continua no mesmo “rema-rema” de sempre, enquanto, por exemplo, os Lençóis Maranhenses são comprados por investidores estrangeiros e se expandem sem uma política própria — no pior rumo possível para o turismo: onde o capital gerado é enviado para os países de origem das empresas, enquanto a comida e até a água local se tornam caras e escassas para a população, que ficará condenada a estado de pobreza maior do que vivia antes.
O turismo é a indústria mais democrática do mundo: com ela ganha o hotel cinco estrelas, mas também ganha o vendedor ambulante — se for bem implementada. Mas é a atividade mais cruel para o povo, se deixada ao acaso, como tem sido a política do turismo no Maranhão executada no: “nós vai, nós topa”.
Agora vou me preparar para assistir ao Caprichoso que já está se posicionando na arena do bumbódromo...
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