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João Ewerton: “Episódio XVIII: Água e Folhas do Amazonas”

João Ewerton é membro e convidado da Academia Poética Brasileira/MA

12/07/2025 às 10h43
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Ewerton
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João Ewerton
João Ewerton

JOÃO EWERTON

 

Quando dirigi o Centro de Arte Japiaçu — um grande legado deixado pela professora Rosa Mochel —, que funcionava há cinquenta anos quando foi destruído pela gestão irresponsável do senhor Botão, secretário de Cultura do prefeito Edivaldo Holanda Júnior. Mas o que quero dizer — além de denunciar a destruição do Centro de Arte Japiaçu, localizado no bairro do Diamante, onde eram oferecidas dezenas de oficinas de artesanato e várias categorias de arte para pessoas de todas as localidades periféricas de São Luís — é que, quando o deixei em 2004, o centro estava equipado com fornos para cerâmica, incluindo o maior forno do Maranhão; salas de aula de desenho e pintura, com cavaletes e estantes para materiais; e a recém-inaugurada Escola de Restauro de Azulejos, um projeto feito em parceria com o Instituto do Patrimônio do Município e a Embaixada da Espanha.

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Tudo isso desceu pelo ralo na gestão do senhor Marlon Botão, que praticamente deixou o prédio abandonado e aberto — onde tudo foi saqueado: os fornos foram desmontados por marginais para a retirada dos fios de cobre, etc. Um prejuízo inominável para a cultura e o povo de São Luís.

Cito esse fato, que me veio à mente aqui no backstage do Caprichoso, porque, entre as atividades que o Centro de Artes oferecia naquele período, estava utilização do seu grande salão para os ensaios de grupos das comunidades vizinhas — como Liberdade, Camboa, Sítio do Meio, etc. E, dentre os grupos que ali ensaiavam, havia um grupo de dança portuguesa que me chamava muito a atenção, pelo fato de ser formado majoritariamente por jovens afrodescendentes.

Fiquei muito intrigado quando vi aquela agremiação pela primeira vez. E como eu havia realizado uma pesquisa sobre o tráfico negreiro para o Maranhão — considerado o regime escravocrata mais cruel do Brasil naquele período —, me vi tomado pela indagação: o que motivava aqueles jovens a se envolverem com tanta paixão por uma dança dedicada ao opressor que massacrou, sem piedade, seus antepassados? Por que não buscavam manifestações folclóricas de matriz africana? Achava que, dessa forma, honrariam os que enfrentaram a travessia do inferno e sobreviveram, doando suas vidas inteiras em um sacrifício brutal para que os senhores desfrutassem de conforto e facilidades — e para que esses jovens pudessem estar ali, vivos, saudáveis e dispostos. Pois os negros passaram por um processo genético seletivo rigoroso: só os fortes sobreviveram e se reproduziram.

Esse foi o viés do meu pensamento inicial. Mas depois, vendo o ensaio e escutando a música mecânica adaptada, assim como os passos das coreografias, fui percebendo que havia mais camadas naquele universo. E foram essas camadas que me fizeram lembrar dessa manifestação aqui, ao lado do costeiro do figurino do Levantador de Toadas, Patrick Araújo, que viemos supervisionar durante a montagem, como equipe enviada pelo ateliê do Helerson da Maia — o autor da peça que depois seria premiada com o melhor figurino dessa categoria.

Nesse figurino se via perfeitamente a integração entre ancestralidade e futurismo. E foi isso que me levou à dança portuguesa.

Portugal possui uma rica tradição de danças folclóricas, muitas delas influenciadas por diferentes povos ao longo da história, incluindo os mouros, durante a ocupação da Península Ibérica (séculos VIII a XV). Aí fui me lembrar de que o “Vira” — uma dança originária do Minho, sendo uma das mais típicas de Portugal — tem sua origem principalmente nos celtas, mas alguns estudiosos sugerem que certos elementos rítmicos podem ter influência mourisca, uma vez que os mouros modificaram profundamente a cultura social do povo europeu.

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Se observarmos também o Fandango, comum no Ribatejo e Algarve, ele tem raízes na cultura árabe, com semelhanças a danças do Norte da África — mais uma vez refletindo a herança moura na península.

Ao observarmos a dança típica de Miranda do Douro — os famosos Pauliteiros de Miranda — verificamos que esta envolve bastões e trajes coloridos, com origens em rituais guerreiros pré-romanos, provavelmente assimilados por influências mouriscas em suas coreografias.

Isso sem citar as famosas “Mouriscadas”, danças dramáticas que recriam batalhas entre cristãos e mouros, como a Dança dos Mouros, em Bragança — performances com clara influência moura, simbolizando a resistência cristã durante a reconquista da Península Ibérica, após cerca de duzentos anos de ocupação moura.

Muitos estudiosos também afirmam que o “Corridinho”, dança muito popular no Algarve, apresenta diversas influências europeias modernas; contudo, alguns passos e músicas guardam vestígios da cultura árabe, devido à longa presença moura naquela região.

Além de todos esses detalhes, não podemos esquecer que as danças portuguesas foram trazidas ao Brasil por colonos, missionários e nobres portugueses, além de degredados — principalmente durante o período colonial, entre os séculos XVI e XVIII. E como o folclore não se praticava nos salões, mas nos terreiros, as danças portuguesas logo se misturaram com influências indígenas e africanas, dando origem a muitas tradições folclóricas brasileiras, ritmos musicais, etc.

O Fandango, por exemplo, chegou ao Brasil no século XVIII, especialmente no Sul e no Nordeste. Era uma manifestação praticada por colonos açorianos, que se misturou com ritmos locais, tornando-se uma dança típica de pescadores e tropeiros. Uma coisa que muito pouca gente sabe é que o Maranhão recebeu uma grande imigração de açorianos, e até hoje as músicas do Maranhão chegam aos Açores e ambientam muitos vídeos das suas touradas sem corda, na Ilha Terceira.

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Da mistura do Fandango com ritmos africanos surgiu o Lundu, tornando-se uma das primeiras danças afro-brasileiras. O Lundu era praticado tanto por escravizados quanto por brancos, em saraus urbanos.

Lembremos que as Cheganças e Mouriscadas — que eram uma espécie de autos de rua, ou seja, peças teatrais que recriavam batalhas entre mouros e cristãos — foram trazidas por portugueses e encenadas no Brasil até o século XIX, principalmente em festas juninas. Pelo caráter religioso mais direto, os Pastoris — danças natalinas de origem portuguesa — foram adaptados no Nordeste brasileiro, onde ainda hoje são praticados por grupos de mulheres e crianças durante os festejos natalinos.

Em todas essas manifestações, vê-se a forte presença dos escravizados africanos adaptando as danças portuguesas e criando novos ritmos, como o Lundu e, mais tarde, o Samba.

As danças portuguesas chegaram ao Brasil junto com a colonização e se misturaram com culturas indígenas e africanas, gerando novos ritmos. Enquanto a elite colonial mantinha bailes de salão com influências europeias, o povo recriava essas danças em festas populares, dando origem a muitas tradições folclóricas brasileiras.

Assim, a Dança Portuguesa passou a fazer parte das tradições juninas do Maranhão, sendo adaptada especialmente para as celebrações em homenagem a São João, São Pedro e Santo Antônio.

Essa dança tem origem nas quadrilhas, bailados e danças camponesas de Portugal, como o Vira, o Fandango e as Mouriscadas, que eram comuns em festas populares e religiosas.

Com o passar do tempo, essa dança foi incorporando elementos locais — como a cadência dos tambores e a influência afro-brasileira — e hoje mantém muito pouco da estrutura coreográfica e musical portuguesa. A utilização do som mecânico, com trilha previamente elaborada, influenciada pela necessidade de elementos criativos para impactar nos concursos, acaba se tornando algo inovador: uma verdadeira execução de mixagens sofisticadas elaboradas por DJs, que conduzem os dançarinos em coreografias ligeiras, com aspectos futuristas e nuances de diversas vertentes rítmicas. Sentimos passagens sonoras que remetem ao maracatu, ao funk, ao reggae, e ao próprio Vira português, tudo se mesclando numa partitura híbrida — tanto do ponto de vista musical, quanto na execução coreográfica e em todo o seu contexto cênico.

Isso nos dá a certeza de que aqueles jovens não perderam suas raízes — eles são plurais como o Brasil. Afinal, a cultura é feita por homens e mulheres que acompanham a evolução do mundo à sua volta. E, por esse princípio, o folclore não pode ser aprisionado como reserva de um tempo específico, o que o diferencia dos cultos religiosos originários, que precisam manter rituais e protocolos ancestrais.

Outro aspecto que marca essa visão futurista das danças portuguesas do folclore maranhense são suas indumentárias exuberantes, com seus exagerados bordados e fraques (casacos) estilizados, refletindo a clara influência do Bumba Meu Boi e do Carnaval. Isso gera essa estética "barroca" da Dança Portuguesa, levando os grupos a incrementarem os trajes masculinos — como os fraques de múltiplas abas — para criar movimento semelhante às saias rodadas das mulheres. Contudo, não são cópias do estilo do Boi, e muito menos têm aparência de escola de samba.

A Dança Portuguesa do Maranhão tem seu caráter performático próprio das festas juninas do estado, que, por serem essencialmente contemplativas, exigem visualidade impactante e indumentárias cada vez mais espetaculares. A Dança Portuguesa acaba sendo a manifestação mais engajada com o contemporâneo tecnológico, sem deixar de ser ela mesma. É tradição e futurismo num só espetáculo.

Continuei envolvido por esses detalhes da Dança Portuguesa, agora já debruçado numa mureta, bem no centro do final da arena, enquanto os mais de duzentos homens da ala da força e da logística do Caprichoso carregam e ligam centenas de metros de cabos de alta tensão, de grande bitola, nas conexões de uma alegoria que toma toda a extensão da largura da arena e parece arranhar o céu com as penas de suas aves mitológicas. Imagino que a direção de arte do Caprichoso deve ter buscado inspiração nas entranhas de “Akakor”, a cidade relatada no livro A Crônica de Akakor, do jornalista alemão Karl Brugger, publicado em 1976, que descreve uma suposta cidade subterrânea amazônica construída por uma antiga civilização, com estruturas gigantescas, misturando mitos indígenas com teorias sobre alienígenas ancestrais e suas arrojadas tecnologias, ou quem sabe, tenham se inspirado no meu romance: “O Príncipe de Queluz” onde o mítico reino de D. Sebastião no fundo do mar, reflete essa grandiosidade tecnológica em imagens extraordinárias de dimensões vertiginosas, protegidas por uma cúpula hightech, colossal de engenharia tão ancestral quanto futurista — um domo hercúleo que sustenta o peso do mar e da memória. O salão do trono com colunas ciclópicas, talhadas com inscrições pré-humanas, ecoam saberes esquecidos, enquanto válvulas de luz bioluminescente regulam a pressão entre os mundos. É a ciência mística dos antigos fundida à tecnologia transcendental, guardando Queluz como um útero intocável na profundeza do mar e no fundo das eras, onde cada portal não é apenas passagem: é um rito, um código genético de pedra viva, onde o tempo dobra o joelho ante o espírito dos primeiros e a ciência dos que virão. (https://clubedeautores.com.br/livro/o-principe-de-queluz-3)

Pois é isso que se vê também nos espetáculos do Festival de Parintins. É isso que vejo agora, a uns seis metros diante de mim, quando a equipe técnica conecta, acende e dá movimentos precisos àquelas alegorias titânicas, que começam a dançar e soltar jatos poderosos de fumaça por suas gargantas e narinas — fumaça que desenha seus traços em multifárias nuances, ao ser iluminada pelas centenas de refletores de LED instalados nas entranhas da alegoria.

Enquanto isso, os surdos da marcação da marujada, com o auxílio da amplificação sonora potente e impecável, fazem o chão da arena tremer. A “Galera” forma um corpo uníssono em canto e movimento, no seu palco da arquibancada, escoltados por um tótem que demonstra a força desse espetáculo — ao ponto de obrigar a Coca-Cola a mudar de cor para poder exibir seu anúncio em azul e branco no lado do Caprichoso da arena.

A cultura é viva. Ela é o triunfo do povo, como está destacado nas camisas da equipe de backstage do Caprichoso. E eu afirmo ainda: a cultura é o remédio que cura a alma para que a doença não chegue ao corpo físico. Ela é a injeção de ânimo que levanta qualquer autoestima.

A cultura popular não é um lago estagnado — é um rio, igual ao Amazonas, com uma força descomunal no seu fluxo, que destroça tudo que se opuser ao seu instinto.

 

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João EwertonHá 11 meses São LuisMaria Francisco Soller, não conheço nem ouvi falar desse projeto de Santa Catarina, mas muito me interessaria saber, para entender o viés que estão utilizando para incluir com esse tipo de evento. Se puderes dar mais detalhes agradeço.
João EwertonHá 11 meses São LuisLuzia Capió, do Garantido, eu diria que as Secretarias de Cultura são pouco fiscalizadas porque nelas estão sendo realizadas as grandes evasões do erário público, facilitado pela lei federal nº 13.019 de 2014, que permite chamada pública para organizações da sociedade civil para realização de ações de interesse coletivo, pois através dessa lei, o dinheiro público vira privado e eles fazem o que bem querem com ele sem o rigor da licitação.
João EwertonHá 11 meses São LuisGermano Azevêdo, advogado. Tens razão! O Maranhão está sendo vítima do maior desmonte cultural já realizado no Brasil. Um estado tão plural sendo reduzido a "sertanojo universiotário" e outras "babozeiras" desse mesmo naipe. LAMENTÁVEL E QUASE IRREVERSÍVEL!
João EwertonHá 11 meses São LuisMaurícia, fale com a sua diretora e entre em contato. Grande abraço.
João EwertonHá 11 meses São LuisJosé Carlos Medeiros, poeta e membro literário da cultura maranhense, se aos 68n anos de idade, com mais de 50 de estrada, encarando mercado nacional e internacional, eu tiver que seguir opinião alheia, melhor se despedir da vida. Acho interessante pessoa como você que intentam ditar regras para vida dos outros. Não me leve a mal, mas guarde as suas metodologias para quem as pedir, será menos arrogante.
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COLUNISTA JOÃO EWERTON
Sobre o blog/coluna
Um dos mais aplaudidos roteiristas de cinema da atualidade, o escritor, designer gráfico, diretor e pensador das artes de representar, dá ao Facetubes, a honra de compor seu quadro de colunistas, o que o faz, em altíssimo nível.
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