
AS BORBOLETAS DE MARIA POUSAM NAS PÁGINAS DA ALMA
Prefácio ao livro Borboletas de Papel, de Maria José Lima
Por Mhario Lincoln (*)
Há livros que nos chamam pela capa, outros pelo título, e há os que nos tocam pela alma: Borboletas de Papel, de Maria José Lima, é um desses raros exemplos. Mais que um livro, ele se anuncia como voo. Voo íntimo, sutil e corajoso de uma autora que compreende, com espantosa maturidade e ternura, que escrever é um ato de entrega — “o coração virando canção”, como ela mesma traduz.
Conheci Maria José Lima não faz muito tempo. Mas já estava consciente de que ali nascia uma poeta diferenciada. Quando estive na AMEI – Associação Maranhense de Escritores Independentes - na cidade de São Luís-MA, a observei de longe e quando chegou em minhas mãos os originais de seu livro, “Simplesmente, Maria” o qual tive a honra de fazer a capa, me apaixonei imediatamente ao ler: “Rotatória”? "(...) A vida inteira já não basta/Discuto comigo e sempre perco, não tem jeito(...)".
Ora, ficou claríssimo que Maria não escreve apenas versos; ela se confessa em cada palavra, oferecendo fragmentos do seu próprio ser aos leitores, como se pedisse licença para tocar no que há de mais humano em nós: memórias, angústias, esperanças, saudades... E o faz com a delicadeza de quem entende que há mais potência no sussurro do que no grito, mais revelação no silêncio do que na fala.
Aí, lendo esta nova obra mariana, me apaixonei novamente ao esbarrar: “A linguagem do amor é o silêncio.”
Esse verso, é uma bomba atômica do bem para quem sabe mergulhar no abismo da compreensão. Num tempo em que tudo grita, em que sentimentos são exibidos e rasgados em redes sociais, Maria José opta pela introspecção como forma de verdade. E não está sozinha nisso. O filósofo francês Blaise Pascal já alertava que “o coração tem razões que a própria razão desconhece” — e talvez uma dessas razões seja o silêncio como linguagem última do afeto.
A poeta, no entanto, vai além. Ela ensina que a felicidade é efêmera, frágil, fugaz: “O que é a felicidade senão um sorriso fugaz?”
É fantástico como uma resposta desse nível - quase um desabafo — coloca o leitor diante de uma realidade muitas vezes ignorada. A felicidade plena talvez não exista como estado permanente, mas sim como lampejos, como pequenos sorrisos que escapam entre dores e conquistas. Acredito que seja assim a maneira lírica como Maria José Lima me fez reconhecer essa fugacidade: não como pessimismo, mas como maturidade!
Assim, nesse meu voo lepidoptérico, consigo observar que cada poema deste livro parece ter sido ‘costurado’ à mão com fios da própria existência da autora. Há uma voz invisível, cuidadosa, que vagueia entre o espírito e o sentimento, entre o real e o poético, como quem caminha sobre uma corda fina estendida entre dois mundos: o da palavra e o do silêncio.
Versos como: “Saudade é um vento que sopra de dentro/
Um sussurro de vozes que já se calaram”, me revelou uma autora profundamente consciente da força das emoções que não se nomeia, que apenas se sente. E, ao mesmo tempo em que ela desnuda suas fragilidades, acabou por me conduzir, como guia emocional, por um itinerário de cura. Sim. Cura!
Por isso que reafirmo: há sim, algo de terapêutico neste livro. A cada página, Maria José Lima me convida a respirar com mais calma, a ver beleza na sombra, a encontrar sentido mesmo nos escombros da alma:
“Entre caminhos de luz e de escombros
Na penumbra do desconhecido, hesito
Entre o agora e o depois
Onde me encontro?”
Desta forma maravilhosa, (tive que eliminar quase 10 páginas deste prefácio por ter escrito sob emoção forte), Borboletas de Papel não é uma leitura: é um espelho. E quando me vi refletido nessas palavras, não saí dessa bela experiência o mesmo Mhario que entrei nela. A poeta e seus versos me abraçaram com leveza, mesmo que resquícios de poesia densa, exista.
Por isso, tomo a liberdade de suscitar que a poeta Maria José Lima, em alguns momentos, chega muito perto da imensa Cecília Meireles que foi assim, uma poeta da essência, do sentimento depurado, da entrega quase mística ao que não pode ser explicado com lógica, apenas sentido com alma. Por isso, repito, ela e Cecília têm algumas vertentes comuns, especialmente no que se refere a uma escrita etérea, mas ancorada em dores e transcendências muito reais.
Vou celebrar com Cecília e o leitor tira a conclusão. Por exemplo:
"Escrever é abrir-se em pedaços
Soltar a alma em prosa ou versos."
Ambas as poetisas vivem, portanto, uma relação espiritual com a palavra. Cecília dizia que "a vida só é possível reinventada", o que ressoa profundamente com o modo como Maria José Lima transforma o cotidiano em encantamento — como uma borboleta que reinventa a flor onde pousa.
No meu caso específico, ler Maria José Lima, portanto, é contemplar o voo leve das palavras que, mesmo densas ou calmamente escritas, deve tocar no existencial de cada leitor com a força de quem já entendeu que ser poeta não é escolher escrever, mas aceitar sangrar com elegância.
Parabéns, Maria José Lima. Que suas borboletas continuem pousando onde o mundo mais precisa: nas páginas da alma.
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira
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