
Socorro Guterres
O imponente sobrado de três andares, pintado de azul, com janelas e portas, também azuis, de guarnições molduradas em branco, resiste ao passar do tempo, e por isso possibilita a quem puder adentrá-lo debruçar-se em suas varandas de ferro trabalhado. Uma longa escada conduz ao interior de grandes salas e alcovas. Há também o porão, o qual em época memorável legava medo e aventura aos netos de Luís Tabosa, que vez por outra incursionavam nesse recinto abafado. O avassalador calor da Ilha de São Luís, homônima do insigne senhor, era amainado pelas fachadas de azulejos portugueses dos casarios, que também permitiam a umidade necessária. A mesa longa e farta da sala de jantar alimentou 15 filhos, inúmeros agregados e muitos netos. E o senhor Tabosa brilhava no seu impecável paletó de linho branco, no comando da família e do prédio secular. O casarão localizado em suave ladeira ainda é marco na Rua Isaac Martins ou das Barrocas, mesmo porque logo ao fim da descida está, numa espécie de largo onde confluem a Rua dos Afogados e a Rua do Ribeirão, um pedaço de Roma na capital maranhense: a Fonte do Ribeirão.
Construída em 1796, por Dom Fernando Antônio de Noronha, é relíquia a impressionar os visitantes com suas linhas neoclássicas. A água que serve a fonte é trazida por canais subterrâneos e isso dá margem para muitas lendas. Seriam caminhos dos padres e jesuítas, entre as tantas igrejas, para possíveis fugas?Certamente para os netos de Luís Tabosa a lua cheia vista da fonte gerava medo, no sombreado que jorrava das águas nas biqueiras de bronze, e suscitavam a imaginação.Então, das janelas incrustadas na fachada do frontão saltavam olhos vermelhos como rubis. Olhos de serpente. Enorme serpente, cuja cabeça descansa na fonte e o corpo mostruoso se alonga até a Igreja de São Pantaleão. Ela dorme, mas quando acordar... Ah quando acordar... E as crianças voltavam apressadas ao casarão. Mas na manhã seguinte o temor se desfazia e as águas da fonte no lajeado de cantaria refrescavam o descanso das brincadeiras. Dizem que essas águas escorrem para a antiga praia do Cajú, atual Beira-Mar. O senhor Tabosa, sisudo nos modos de patriarca, não desfazia das lendas. Na verdade, ele próprio era tão enigmático quanto Netuno, o deus romano que adorna o alto da fonte. Mas ao mesmo tempo, tinha o coração iluminado, divino, como a pomba que também enfeita o frontão da Fonte do Ribeirão. O que ele gostava mesmo era contar a história de sua terra aos netos, para que um dia, lá no futuro, repassassem em confiança aos filhos que gerariam. História oral, de um tempo que poucos tinham acesso à televisão, contada com parcimônia, em noites de frescor, embaladas no ranger de redes. De olhos bem abertos, emoldurados pela franjinha do corte de cabelo econômico, que praticamente raspava o resto da cabeça e igualava todos numa mesma feição, os meninos eram só ouvidos.
Em 1612 chegam os franceses à costa do Maranhão, chefiados por Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière. Eram 500 homens em três navios. Interagiram com os gentios e em 8 de setembro desse mesmo ano fundou-se a colônia, com o nome de São Luís do Maranhão, em homenagem ao rei menino Luís XIII. Nascia assim a França Equinocial.Posteriormente, os holandeses invadiram São Luís, permanecendo por três anos. Há relatos de que demoliram a primitiva Igreja do Desterro, que foi reconstruída pelos próprios moradores. É onde vocês foram batizados, relembrava o mestre Tabosa aos netos. E por falar em Igreja, não esqueçam jamais o Padre Antônio Vieira, a quem os índios chamavam de paiaçu , ou seja, pai grande; aquele que falava dos homens fingindo falar aos ouvintes sobre os peixes; essa história já contei a vocês, diz o senhor Tabosa. Mas Portugal retomou o domínio das terras maranhenses após a famosa batalha de Guaxenduba, e com a influência marcante do Marquês de Pombal houve um incentivo à economia agrícola no entorno das fazendas, sobretudo no plantio do algodão e para esse fim foram trazidas inúmeras levas de escravos, que em lamento, dor e saudade fizeram a cidade prosperar e se tornar a terceira maior comunidade negra do Brasil. As crianças dormiam revivendo nas narrativas o som das batalhas e o choro dos escravizados, condoendo-se por tais situações. Não conseguiam imaginar a cidade que habitavam, de festas e muita música, como palco de intensa dor.
No alvor da manhã o patriarca vestia-se no puro linho (prevenindo- se das ventanias na cidade das palmeiras?). Já aposentado, dirigia-se à Praça João Lisboa, antigo Largo do Carmo, para confabular a política citadina. Ou então caminhava pelas Ruas da Paz, do Giz ou da Estrela, nos cumprimentos aos confrades circulantes. Eram tão lindas essa ruas de nomes singulares e eram muito eficazes essas caminhadas que lhe proporcionava a silhueta magra e elegante. Às vezes embrenhava-se num dos muitos becos, inclinações para o mar. E o que mais gostava era o Beco da Catarina Mina, lendária figura que de cativa passou a senhora à custa do próprio trabalho. Assim ia recolhendo histórias para recontar aos netos nas preleções noturnas.
Mas as noites também eram dedicadas, eventualmente, ao encantamento do Teatro Artur Azevedo, antigo União, cuja troca de nome homenageava o teatrólogo, contista e poeta. E por falar em poesia era tanta coisa que o velho senhor gostaria de passar aos netos: Gonçalves Dias, Sousândrade, João Francisco Lisboa e o moderníssimo Graça Aranha, dentre outros mais. Assim, reforçava um dito: "Quem aqui pernoita amanhece poeta". Aliada à arte, a rica cultura popular era outra fonte que precisava jorrar. Então, às vezes levava sua prole à batida inebriante do Tambor de Crioula e A Festa do Divino. E no mês de Junho, da canjica e da pamonha, em que cada filho e cada neto tinha garantido essas iguarias, a festa era dos Grupos de Boi. E eram muitos, mais de duzentos, a rodopiar na encenação do auto que gira em torno da lenda do desejo da grávida Catirina. Eram noites animadas, de puro resplendor. E os netos de Luís Tabosa, ao findar os festejos, dormiam felizes no ecoar das matracas.
Eram obedientes os meninos da Rua das Barrrocas, mesmo porque teimosias e malcriações poderiam findar em um embarque sem volta na carruagem fantasmagórica de Ana Jansen, cuja crueldade com os escravos levou seu espírito a vagar pelas ruas de São Luís. Então, no modo respeitoso no qual se formaram, incutido nas missas domingueiras e no exemplo do avô, estudaram, nadaram nas límpidas praias, encontraram seus amores e repassaram as memórias. Dentre os muitos netos, meu esposo, Francisco (o menino Chico), se fez forte como o avô. E quando perguntei, na minha indagação escritora, que história ele gostaria de rememorar, senti de imediato que o Sr. Tabosa viria me inspirar.
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