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Um texto que vale destaque: “O Apóstolo do Brasil”, por Socorro Guterres

Socorro Guterres integra a Academia Poética Brasileira, seccional RGN

05/11/2025 às 22h03 Atualizada em 11/11/2025 às 12h06
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres
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Arte: mhl/ginAI
Arte: mhl/ginAI


Socorro Guterres

 

   Escrever na areia já tem implícito uma lúdica poeticidade e quando junta-se a isso versos ardorosos à Mãe de Deus torna-se então ato santificante.  Falo de uma imagem secular: José de Anchieta escrevendo com um bastão nas areias da Praia de Iperoig seu Poema à Virgem , de quase seis mil versos no latim clássico, em invocação a Nossa Senhora para se manter virgem e fiel aos preceitos católicos, bem como ainda por livramento e segurança, já que se encontrava cativo durante esse período. Versos escritos na areia, memorizados e só bem depois colocados no papel numa promessa a Maria. José de Anchieta é considerado santo pela Igreja Católica, sendo beatificado em 1980 por João Paulo ll e canonizado somente em 2014,  pelo Papa Francisco, recebendo o título de o Apóstolo do Brasil.  Foi um dos primeiros autores da literatura brasileira, compondo poemas, peças teatrais, autos e a primeira gramática da língua tupi antigo, intitulada Arte de Gramática da Língua Mais Usada na  Costa do Brasil . 

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  José de Anchieta, nascido em 19 de março de 1534 em Tenerife nas Ilhas Canárias, era filho de pai basco e mãe espanhola, primo de (santo) Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus e responsável por iniciar as missões jesuíticas no Brasil. Estudou em Coimbra e pela saúde frágil foi encaminhado ao clima ameno das terras brasileiras, onde veio, aos 19 anos, como irmão noviço jesuíta para  catequizar os gentios e auxiliar na consolidação da  fé católica. Aqui chegando, rapidamente aprendeu o Tupi, que se tornou a língua geral na Colônia, sendo falada por indígenas, colonos e escravos. Andava descalço durante suas longas expedições apostólicas, em humildade, característica  que o aproximava dos índios e do divino. Sofria de tuberculose óssea que degenerou em  grave escoliose causando-lhe  dores constantes.

 

Em muitos aspectos assemelhava-se a São Francisco de Assis, no sofrimento físico e sobretudo no amor aos menos favorecidos, ao que podemos  acrescer ter pertencido a uma ordem  que inicialmente postulava-se como mendicante e posteriormente priorizou  o trabalho missionário e o ministério ativo na evangelização e educação.  Assim, Anchieta dedicou-se à catequese, particularmente das crianças, conquistando-as na doutrinação, por meio do teatro e da música, e na valorização das virtudes. Com abnegação traduziu aos índios  os conceitos católicos numa linguagem que fosse compreensível aos nativos,  testemunhando, portanto, conversões e batismos.

 

À Mãe de Jesus dedicou um poema lírico, meditativo, muito humanizado, abordando desde a anunciação até a morte da Mãe Santíssima, expondo numa expressão artística composta em 1563, Poema à Virgem ( De Beata Virgine  Dei Matre Maria ), fervorosa fé,  e  enunciando também suas íntimas angústias. Junto a um grupo de jesuítas liderados pelo padre Manuel da Nóbrega fundou o Colégio de Piratininga, em 1554,  que originou a cidade de São Paulo, e participou  da fundação do Rio de Janeiro,  em 1565. Foi ainda  o grande mediador nos conflitos da Confederação dos Tamoios (desavenças entre  portugueses e  indígenas), o que levou ao acordo conhecido como Paz de Iperoig, em 1563. Nas negociações  desse entrave, Anchieta e Manuel da Nóbrega ficaram  aproximadamente sete meses reféns dos Tamoios, grupo indígena majoritariamente Tupinambá, na região de Iperoig, que hoje corresponde a Ubatuba, enquanto o tratado de paz era traçado. Nas areias desse litoral paulista registrou os lendários versos a Maria.


   Em José de Anchieta, poeta e dramaturgo, está a incipiente literatura colonial. Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira , seus autos são efetivamente pastorais "no sentido eclesial da palavra", já os  poemas valem em si mesmo como estruturas literárias. Para Bosi, o traço ascético dominante do mestre Inácio de Loyola não ocupa toda a área do pensamento de Anchieta, ao contrário subordina-se nele a valores positivos de esperança e alegria. Desse modo, o vetor afetivo de José de Anchieta "é a consolação pelo amor divino".  

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O apóstolo jesuíta faleceu em 1587 em Reritiba, no Espírito Santo,  onde esteve retirado em seus últimos anos.  A ele são atribuídos muitos milagres, até mesmo a levitação. Embora seja  pouco conhecido em sua missão e literariedade, é um homem que promoveu a educação do país, não por imposição da fé, mas sobretudo pelo respeito à diferença do outro. São José  de Anchieta não é um santo popular, porém  é encantador em sua produção cultural e exemplo de vida  como catequista dos indígenas, cuja história e versos não se dissiparam na fina areia do tempo, posto que são traçados de fé.

 

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Anderson Tavares de Lyra Há 4 meses Natal Excelente texto sobre José de Anchieta, todo inserido dentro de um contexto. ????????????????
Tereza Há 4 meses Rio Grande do Norte Adorei conhecer mais a biografia de São José de Anchieta com essa riqueza de detalhes desse texto maravilhoso.
Fábio FreireHá 4 meses Natal/ RNExcelente explanação da vida do São José de Anchieta, destacando ainda com muita sagacidade os aspectos históricos e culturais da época. .
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Colunista Socorro Guterres
Sobre o blog/coluna
Socorro Guterres é escritora, nascida maranhense e dona de um grande currículo. Da sua lavra a aplaudida obra, "Nos Domínios da Linguagem (Veredas)".
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