
Socorro Guterres
Escrever na areia já tem implícito uma lúdica poeticidade e quando junta-se a isso versos ardorosos à Mãe de Deus torna-se então ato santificante. Falo de uma imagem secular: José de Anchieta escrevendo com um bastão nas areias da Praia de Iperoig seu Poema à Virgem , de quase seis mil versos no latim clássico, em invocação a Nossa Senhora para se manter virgem e fiel aos preceitos católicos, bem como ainda por livramento e segurança, já que se encontrava cativo durante esse período. Versos escritos na areia, memorizados e só bem depois colocados no papel numa promessa a Maria. José de Anchieta é considerado santo pela Igreja Católica, sendo beatificado em 1980 por João Paulo ll e canonizado somente em 2014, pelo Papa Francisco, recebendo o título de o Apóstolo do Brasil. Foi um dos primeiros autores da literatura brasileira, compondo poemas, peças teatrais, autos e a primeira gramática da língua tupi antigo, intitulada Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil .
José de Anchieta, nascido em 19 de março de 1534 em Tenerife nas Ilhas Canárias, era filho de pai basco e mãe espanhola, primo de (santo) Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus e responsável por iniciar as missões jesuíticas no Brasil. Estudou em Coimbra e pela saúde frágil foi encaminhado ao clima ameno das terras brasileiras, onde veio, aos 19 anos, como irmão noviço jesuíta para catequizar os gentios e auxiliar na consolidação da fé católica. Aqui chegando, rapidamente aprendeu o Tupi, que se tornou a língua geral na Colônia, sendo falada por indígenas, colonos e escravos. Andava descalço durante suas longas expedições apostólicas, em humildade, característica que o aproximava dos índios e do divino. Sofria de tuberculose óssea que degenerou em grave escoliose causando-lhe dores constantes.
Em muitos aspectos assemelhava-se a São Francisco de Assis, no sofrimento físico e sobretudo no amor aos menos favorecidos, ao que podemos acrescer ter pertencido a uma ordem que inicialmente postulava-se como mendicante e posteriormente priorizou o trabalho missionário e o ministério ativo na evangelização e educação. Assim, Anchieta dedicou-se à catequese, particularmente das crianças, conquistando-as na doutrinação, por meio do teatro e da música, e na valorização das virtudes. Com abnegação traduziu aos índios os conceitos católicos numa linguagem que fosse compreensível aos nativos, testemunhando, portanto, conversões e batismos.
À Mãe de Jesus dedicou um poema lírico, meditativo, muito humanizado, abordando desde a anunciação até a morte da Mãe Santíssima, expondo numa expressão artística composta em 1563, Poema à Virgem ( De Beata Virgine Dei Matre Maria ), fervorosa fé, e enunciando também suas íntimas angústias. Junto a um grupo de jesuítas liderados pelo padre Manuel da Nóbrega fundou o Colégio de Piratininga, em 1554, que originou a cidade de São Paulo, e participou da fundação do Rio de Janeiro, em 1565. Foi ainda o grande mediador nos conflitos da Confederação dos Tamoios (desavenças entre portugueses e indígenas), o que levou ao acordo conhecido como Paz de Iperoig, em 1563. Nas negociações desse entrave, Anchieta e Manuel da Nóbrega ficaram aproximadamente sete meses reféns dos Tamoios, grupo indígena majoritariamente Tupinambá, na região de Iperoig, que hoje corresponde a Ubatuba, enquanto o tratado de paz era traçado. Nas areias desse litoral paulista registrou os lendários versos a Maria.
Em José de Anchieta, poeta e dramaturgo, está a incipiente literatura colonial. Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira , seus autos são efetivamente pastorais "no sentido eclesial da palavra", já os poemas valem em si mesmo como estruturas literárias. Para Bosi, o traço ascético dominante do mestre Inácio de Loyola não ocupa toda a área do pensamento de Anchieta, ao contrário subordina-se nele a valores positivos de esperança e alegria. Desse modo, o vetor afetivo de José de Anchieta "é a consolação pelo amor divino".
O apóstolo jesuíta faleceu em 1587 em Reritiba, no Espírito Santo, onde esteve retirado em seus últimos anos. A ele são atribuídos muitos milagres, até mesmo a levitação. Embora seja pouco conhecido em sua missão e literariedade, é um homem que promoveu a educação do país, não por imposição da fé, mas sobretudo pelo respeito à diferença do outro. São José de Anchieta não é um santo popular, porém é encantador em sua produção cultural e exemplo de vida como catequista dos indígenas, cuja história e versos não se dissiparam na fina areia do tempo, posto que são traçados de fé.
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