Quinta, 10 de Setembro de 2026 09:51
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil Textos escolhidos

Um texto que vale destaque: “O Apóstolo do Brasil”, por Socorro Guterres

Socorro Guterres integra a Academia Poética Brasileira, seccional RGN

05/11/2025 22h03 Atualizada há 10 meses atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres
Arte: mhl/ginAI
Arte: mhl/ginAI


Socorro Guterres

 

   Escrever na areia já tem implícito uma lúdica poeticidade e quando junta-se a isso versos ardorosos à Mãe de Deus torna-se então ato santificante.  Falo de uma imagem secular: José de Anchieta escrevendo com um bastão nas areias da Praia de Iperoig seu Poema à Virgem , de quase seis mil versos no latim clássico, em invocação a Nossa Senhora para se manter virgem e fiel aos preceitos católicos, bem como ainda por livramento e segurança, já que se encontrava cativo durante esse período. Versos escritos na areia, memorizados e só bem depois colocados no papel numa promessa a Maria. José de Anchieta é considerado santo pela Igreja Católica, sendo beatificado em 1980 por João Paulo ll e canonizado somente em 2014,  pelo Papa Francisco, recebendo o título de o Apóstolo do Brasil.  Foi um dos primeiros autores da literatura brasileira, compondo poemas, peças teatrais, autos e a primeira gramática da língua tupi antigo, intitulada Arte de Gramática da Língua Mais Usada na  Costa do Brasil . 

Continua após a publicidade


  José de Anchieta, nascido em 19 de março de 1534 em Tenerife nas Ilhas Canárias, era filho de pai basco e mãe espanhola, primo de (santo) Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus e responsável por iniciar as missões jesuíticas no Brasil. Estudou em Coimbra e pela saúde frágil foi encaminhado ao clima ameno das terras brasileiras, onde veio, aos 19 anos, como irmão noviço jesuíta para  catequizar os gentios e auxiliar na consolidação da  fé católica. Aqui chegando, rapidamente aprendeu o Tupi, que se tornou a língua geral na Colônia, sendo falada por indígenas, colonos e escravos. Andava descalço durante suas longas expedições apostólicas, em humildade, característica  que o aproximava dos índios e do divino. Sofria de tuberculose óssea que degenerou em  grave escoliose causando-lhe  dores constantes.

 

Em muitos aspectos assemelhava-se a São Francisco de Assis, no sofrimento físico e sobretudo no amor aos menos favorecidos, ao que podemos  acrescer ter pertencido a uma ordem  que inicialmente postulava-se como mendicante e posteriormente priorizou  o trabalho missionário e o ministério ativo na evangelização e educação.  Assim, Anchieta dedicou-se à catequese, particularmente das crianças, conquistando-as na doutrinação, por meio do teatro e da música, e na valorização das virtudes. Com abnegação traduziu aos índios  os conceitos católicos numa linguagem que fosse compreensível aos nativos,  testemunhando, portanto, conversões e batismos.

 

À Mãe de Jesus dedicou um poema lírico, meditativo, muito humanizado, abordando desde a anunciação até a morte da Mãe Santíssima, expondo numa expressão artística composta em 1563, Poema à Virgem ( De Beata Virgine  Dei Matre Maria ), fervorosa fé,  e  enunciando também suas íntimas angústias. Junto a um grupo de jesuítas liderados pelo padre Manuel da Nóbrega fundou o Colégio de Piratininga, em 1554,  que originou a cidade de São Paulo, e participou  da fundação do Rio de Janeiro,  em 1565. Foi ainda  o grande mediador nos conflitos da Confederação dos Tamoios (desavenças entre  portugueses e  indígenas), o que levou ao acordo conhecido como Paz de Iperoig, em 1563. Nas negociações  desse entrave, Anchieta e Manuel da Nóbrega ficaram  aproximadamente sete meses reféns dos Tamoios, grupo indígena majoritariamente Tupinambá, na região de Iperoig, que hoje corresponde a Ubatuba, enquanto o tratado de paz era traçado. Nas areias desse litoral paulista registrou os lendários versos a Maria.


   Em José de Anchieta, poeta e dramaturgo, está a incipiente literatura colonial. Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira , seus autos são efetivamente pastorais "no sentido eclesial da palavra", já os  poemas valem em si mesmo como estruturas literárias. Para Bosi, o traço ascético dominante do mestre Inácio de Loyola não ocupa toda a área do pensamento de Anchieta, ao contrário subordina-se nele a valores positivos de esperança e alegria. Desse modo, o vetor afetivo de José de Anchieta "é a consolação pelo amor divino".  

Continua após a publicidade

 

O apóstolo jesuíta faleceu em 1587 em Reritiba, no Espírito Santo,  onde esteve retirado em seus últimos anos.  A ele são atribuídos muitos milagres, até mesmo a levitação. Embora seja  pouco conhecido em sua missão e literariedade, é um homem que promoveu a educação do país, não por imposição da fé, mas sobretudo pelo respeito à diferença do outro. São José  de Anchieta não é um santo popular, porém  é encantador em sua produção cultural e exemplo de vida  como catequista dos indígenas, cuja história e versos não se dissiparam na fina areia do tempo, posto que são traçados de fé.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
MARIA DE LOURDES LIMA DE SOUZA MEDEIROSHá 4 semanas atrásNatalAmei o texto sobre São José de Anchieta,poeta e primeiro dramaturgo do Brasil colonial, que aprendeu a língua dos nativos para melhor chegar até eles, comunicando a fé católico. Que texto bom de ler, com explicações do contexto da época.
Anderson Tavares de Lyra Há 10 meses atrásNatal Excelente texto sobre José de Anchieta, todo inserido dentro de um contexto. ????????????????
Tereza Há 10 meses atrásRio Grande do Norte Adorei conhecer mais a biografia de São José de Anchieta com essa riqueza de detalhes desse texto maravilhoso.
Fábio FreireHá 10 meses atrásNatal/ RNExcelente explanação da vida do São José de Anchieta, destacando ainda com muita sagacidade os aspectos históricos e culturais da época. .
Mostrar mais comentários
Colunista Socorro Guterres
Sobre Colunista Socorro Guterres
Socorro Guterres é escritora, nascida maranhense e dona de um grande currículo. Da sua lavra a aplaudida obra, "Nos Domínios da Linguagem (Veredas)".
Curitiba, PR
Atualizado às 08h01
14°
Tempo nublado

Mín. 15° Máx. 19°

14° Sensação
2.57 km/h Vento
99% Umidade do ar
100% (49.91mm) Chance de chuva
Amanhã (11/09)

Mín. 16° Máx. 25°

Chuva
Sábado (12/09)

Mín. 10° Máx. 17°

Chuva
Ele1 - Criar site de notícias