
De Raimundo Fontenele
(O desligamento insano do Seminário e a alegre despedida de Fortaleza)
Nem lembro mesmo se fui passar as férias de julho no interior do Maranhão, na São Domingos que jamais esqueço. O que recordo é que em outubro, em plenas atividades escolares, recebi um chamado na reitoria do Seminário. Entrei, o padre Coruja mandou eu sentar e foi direto ao ponto.
Disse que eu não tinha vocação para o sacerdócio, jamais seria um padre, por isso estava sendo desligado do Seminário. Foi um choque elétrico de 200 wolts. Gaguejei, tentei argumentar, perguntar, me explicar. Quase indo às lágrimas e dizendo que queria, sim, continuar os estudos. Ele cortou aquele meu dramalhão mexicano exibindo na mão direita um papel que estendia em minha direção, falando:
— Já está resolvido. Olha aqui, sua passagem até Teresina. Tem uma senhora que vai viajar no mesmo dia e tomará conta de você até lá.
— Mas eu vou ficar reprovado? E as provas? Como é que fico? Só tenho notas boas…
— Você tem sorte de estar sendo apenas desligado e não expulso. Se fosse expulso teria dificuldade até para matricular-se em algum colégio. Aconselhado a sair, como está sendo, pode continuar seus estudos em qualquer colégio. E agora vá, trate de arrumar suas coisas, a viagem é depois de amanhã, quinta-feira.
Saí daquela sala com mil pensamentos, sentimentos e emoções. Todos desencontrados, perpassados de angústia e quase desespero. Ia ter que encarar a família. Mãe e tias, principalmente. Uma delas, das tias, iria dizer quando eu chegasse de volta, “não disse? Esse menino não vai dar pra nada”. Faltou só me chamar de vagabundo e cachaceiro, isso que aquele “não vai dar pra nada” queria dizer.
Aqueles dois dias foram de muita inquietude e sofrimento. Ao mesmo tempo, quando pensava que estaria fora daquela espécie de prisão, livre para fazer o que quisesse, namorar as garotas, enfim, o sofrimento ia embora e uma pequena alegria começava a crescer dentro de mim.
Nesses dois dias que antecederam minha saída parece que as horas escorriam lentamente. Conversei e me despedi dos principais colegas e amigos sem saber o real motivo do meu desligamento. Era essa minha maior preocupação e a grande pergunta que me fazia. O que foi que eu fiz?
Na noite que antecedeu o dia da minha viagem não conseguia conciliar o sono, e naquela escuridão, fora e dentro de mim, uma luz se acendeu. Só pode ter sido isso, pensei.
Lembrei que há alguns dias atrás, durante o futebol do fim de tarde, e como, ao urinar, notei uma pequena fissura vermelha e ardência no prepúcio, chamei ali mesmo no w.c., de porta aberta, um amigo para mostrar e perguntar o que fazer. Certamente algum dedo duro viu e foi contar para o padre reitor, insinuando que se tratava de ato libidinoso. Só podia ser isso.
E, talvez, por não ir com a minha cara, além do que eu era um seminarista pobre, não pagava nada, só dava despesas, nem cearense eu era e não pertencia ao redil das ovelhas mansas e obedientes, o padre Coruja aproveitou a oportunidade para fazer uma injustiça daquela.
Devia ter me perguntado sobre o assunto, procurar esclarecer o que lhe contaram, mas, não, preferiu me pôr para fora do Seminário, assim matava dois coelhos com uma cajadada: se livrava de um aluno que não se enquadrava em todas as regras e cortava as despesas que eu dava.
Na hora do embarque me levaram até à agência de ônibus na Rua Major Facundo, e lá estava uma senhora a quem me recomendaram, mas a viagem inteira ela sequer me dirigiu a palavra, e quando o ônibus partiu, imprimindo velocidade, procurei esquecer tudo, agora eu estava livre e com certeza iria viver inúmeras e felizes aventuras. Sim e não, pois descobriria, com o passar dos anos, que a vida é feita, às vezes, de doces sonhos e amargas realidades.
Por volta de 1974 voltei a Fortaleza, dessa vez travestido de hippie, vejam só. Estava em São Luís sem nenhuma perspectiva de vida. Não queria mais saber de estudos, tinha empacado na terceira série ginasial; a participação no movimento estudantil não existia mais, os milicos proibiram o funcionamento da UNE e suas franquias; o mundinho literário provinciano da Ilha me dava tédio; do empreguinho de burocrata do terceiro escalão na Secretaria de Educação eu fugia como o diabo da cruz e tinha mais faltas no serviço do que buracos numa tábua de pirulito…
Ficava ali na Praça Deodoro, a praça da Biblioteca Benedito Leite, olhando aqueles bustos de maranhenses ilustres e me dizendo que eu nunca chegaria nem perto deles, com aqueles dois livrinhos de poesia publicados.
E era ali o ponto de encontro dos hippies que chegavam de todos os lugares do Brasil e do mundo. Pintava japonês, americano, alemão, francês, até coreano tinha ali. Achavam São Luís o maior barato. Viajandona.
Uma vez apareceu uma turma de mais ou menos uns sete hippies, homens e mulheres. Entre estes tinha uma baiana linda, ruiva, fomos no comércio da Rua Grande onde ela comprou um biquíni e a gente se mandou pra praia do Itaqui. Foi uma tarde gloriosa. Cerveja e muita maconha, sol da tarde e as águas marinhas lavando a gente pelados como viemos ao mundo.
Foi o que encontrei para me dar prazer e ter de novo vontade de viver. Assim, quando os hippies, uns cinco dias depois de haverem chegado, resolveram partir, eu fui junto. Peguei a estrada com eles, de carona e a pé, lá íamos nós, estradeiros, sem nenhum destino.
Mal a gente entrava numa cidade, estrategicamente se procurava a praça principal, escondia-se as drogas, pois assim que a polícia tomava conhecimento da nossa presença chegava até nós e vinha com o papo de sempre. O que a gente queria ali na cidade, cadê a maconha, ali não era lugar de vagabundo, essas amenidades truculentas que a polícia sempre usava, em sua maioria.
O que vinha a seguir dependia muito dos policiais e não da lei. A lei era eles. Uns nos deixavam sossegados. E nossa estratégia funcionava. Geralmente na praça ou próximos a ela estavam um ou mais colégios e sentados ali atraíamos a atenção das meninas, pois, entre nós, um tocava violão ou soprava uma gaitinha de boca, outros faziam artesanato, miçangas, pulseiras, brincos, colares que as colegiais adoravam.
Vinham com seus uniformes estudantis, saias azuis e blusas brancas, cochichando e rindo, comprando as bugigangas e quinquilharias que estávamos vendendo. Algumas se interessavam em saber o que a gente fazia, o porquê de sair de casa e tal. Com essas a conversa fluía de tal forma que nos davam seu endereço e diziam para aparecermos lá na hora do almoço. A gente ia, descolava um prato de comida, às vezes até alguma calça lee de um irmão dela sorrateiramente passavam para nossas mãos.
Em outras cidades a polícia não dava moleza. Nos levava até a Delegacia, lá mesmo raspava nossa cabeça, nos colocava na viatura e nos deixava na saída da cidade, dizendo pra gente cair fora sem olhar para trás.
Quando chegamos em Fortaleza eu resolvi que estava na hora de procurar outro rumo. Aquela andança não ia me levar a lugar nenhum.
Pensei: vou procurar a direção da arquidiocese e pedir um emprego. Digo que já fui interno do Seminário da Prainha, tenho alguma experiência com redação de jornais, acho que vou descolar algum trabalho. Isso foi o que pensei, mas “pensando morreu um burro”, sempre ouvia minha mãe falar.
Mas antes eu tinha que procurar onde ficar, um hotel, uma pensão, um alojamento qualquer, pois a minha vida de hippie terminava ali. Um mês, se tanto, e adeus turma do “amor e paz, bicho!”
Andando no centro da cidade, do meio para o fim da Rua Major Facundo, eis que aparece um sobradinho de dois pisos com a placa Hotel Maranhense. Meu coração deu pulos de alegria e para lá me encaminhei convicto de que os donos deviam ser maranhenses como eu, dispostos a aceitar um conterrâneo com a devida simpatia e consideração.
Ledo e ivo engano...
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Continua na parte final destas MEMÓRIAS AVULSAS.
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