
*Maria do Rocio Vaz
PROSA:
Agente secreta de mim mesma
Noites de sábado são fascinantes. Por isso, algumas serão lembradas, especialmente aquelas em que eu deixei a solidão em casa.
Sempre fui avessa a lugares cheios e barulhos exagerados, mas abro espaço, atravesso a multidão. Tenho um encontro silencioso com a poesia. Pura. Intimista. Sagrada.
Sou contemplada por ela. Ah, se eu pudesse ficar um pouco mais…
Alguns passos dali, no caminho de volta, a igreja de paredes brancas, alvejada de luz, parece uma visão. Faço parte deste instante. Vestida de negro, agente secreta de mim mesma, fito-a na calçada, elevando os olhos à torre, até quase não poder mais, até a fé se render, e suspiro: Amanhã o sino tocará só para mim.
Que culpa tenho eu de enxergar além da escuridão? Afinal, há “estrelas pintadas nos muros, o céu ao alcance das minhas mãos!”
Num lampejo, rememoro o que alguém disse: A vida é bonita! Tá. Nunca duvidei: Histórias inesquecíveis acontecem na praça, na vida, na madrugada. E assim, sem querer, sinto-me a mulher mais feliz do universo. Esqueço todas as desimportâncias que o mundo tenta me impor, todo dia.
Sei que não estou sozinha. A voz de Helena ressoa incessante nos meus ouvidos: “Quem é essa que me olha de tão longe, com olhos que foram meus?” Será que me reconheço? Sou o cansaço ou o abraço? Sou mãe ou ainda filha de mim? A mendiga ou a rainha?
É quase meia-noite. Não tirei os sapatos. A Cinderela, hoje, no meu castelo, é apenas a boneca que pertenceu à minha filha.
Enfim, vejo-me de perto, com os olhos do meu amor. Agradeço à Helena, por me enxergar de longe. Um perfume sutil, que emana das minhas mãos, me faz escrever.
Os versos evocados são de Helena Kolody.
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Só entra menina
Curitiba, dezoito horas. Sou motorista de quatro colegiais que tagarelam sem parar, em meio ao caos de ruas congestionadas. Na lotação só entra menina.
Vamos logo! Minha filha e três amigas não podem perder a aula – nem o professor – de Filosofia. A vida tem muitos sentidos, ainda mais nessa idade.
A conversa rola solta, entre risadas e confidências. Fico sabendo das últimas fofocas, das traições entre “melhores amigas”, do drama da fila da cantina, da prova difícil de matemática, da nota injusta… e, também, do novo corte de cabelo do menino mais bonito da sala. “Ele olhou para mim.” “Ou para mim?”
Como “tia”, título conquistado, que sente-se importante e responsável, dou meus palpites. Pergunto se estão com fome e no mesmo instante lhes ofereço pães de queijo. Mania insaciável, a minha, de ser mãe do mundo. Como escreveu Clarice Lispector, “era o meu amor apenas livre”. Eu só sei amar assim, alimentando até o que não falta.
E, nesses breves instantes, sou compensada por todos os desencantos do dia. Quanta inocência e leveza! São quinze os anos, infinitos os sonhos. Um frescor primaveril invade o meu espaço: elas são a promessa do novo que virá à luz.
Poderia vê-las apenas como Luluzinhas, mas não. Meu coração só imagina futuras estrelas, pegando carona em minha história. Subitamente percebo-me contagiada. Cintilante.
Nesse clima, a alegria que fulgura nos olhos delas me transporta ao universo colorido e saudoso de uma estudante do passado. Lembro-me da adolescente de cabelos castanhos e longos, que há muito perdi de vista. Até sinto sua presença entre nós. As garotas a convidam para brincar e ela aproveita. Não haveria tantas chances…
Entre risos e esquinas, o fim de tarde toma o seu rumo. “Já? Chegamos! Peguem o casaco.” Despeço-me: carinhos e beijos. Elas saem. Prossigo. Sozinha. Outra vez.
A escuridão chega de mansinho, como o tempo que não se faz perceber. Peço aos céus, já pontilhado de esperanças luzentes, que as “minhas” meninas brilhem mais e mais, até ser dia perfeito.
Anoiteço, cheia de graça.
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Maria do Rocio Vaz nasceu em Curitiba. É formada em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná. Participou de várias coletâneas literárias e é membro do Centro de Letras do Paraná. Em expressões poéticas traduz seus olhares profundos sobre o amor, a dor, a vida e a alma feminina. É um dos grandes destaques da poesia Curitibana. Por isso, sua indicação para a Academia Poética Brasileira, em vaga a ser aberta em 2026, juntamente com 3 outros nomes já confirmados.
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