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Viceversa: com Mhario Lincoln/Edmilson Sanches (Parte 01)

entrevista livre

16/11/2020 14h27 Atualizada há 1 semana
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Por: Mhario Lincoln Fonte: FACETUBES.COM.BR
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VICEVERSA (Parte I)

Perguntas de Mhario Lincoln para Edmilson Sanches

 

1 – MHARIO LINCOLN – Ganhei há uns 5 anos (e o conservo ao lado de minha escrivaninha) um cartão com a seguinte frase: “SÓ ESCREVE A SÉRIO QUEM LÊ ANTES A SÉRIO”. Essa é uma máxima real?                                                                                                   

EDMILSON SANCHES – Sim. A palavra “escrever” deveria ser escrita com “x”: “excrever”. Porque escrever é colocar para fora (sentido que o prefixo latino “ex-” traz). Ou seja, não há como alguém escrever “a sério” sem antes ter colocado dentro de si, por meio da leitura (mas não apenas), conteúdos de onde se possa extrair algo, conteúdos que serão trabalhados pelos inúmeros processos mentais, neurológicos, até serem lançados no papel ou na tela ou em qualquer outro suporte. 

A última coisa que se faz no processo de escrever é... escrever. Antes há a leitura, a reflexão ou raciocínio, as elaborações e reelaborações até o texto final se apresentar.

Saber escrever exige saber ler. A Ciência já tem registros sobre a importância  -- positiva --  da leitura para o cérebro. A leitura é a melhor academia de ginástica da mente.

Como se diria em inglês: “We learn to writing by reading”  --  aprendemos a escrever lendo, aprendemos a escrever por meio da leitura.

 

2 – MH – A professora Bernardete GATTI afirma em seus livros, que a pesquisa surge a partir de inquietações, perguntas, dúvidas a respeito de algum tema, buscando respaldo para pensamentos e afirmações. Assim acontece com você?

EDMILSON SANCHES – Minhas pesquisas históricas geralmente vêm dessa matriz de prazer associado a inquietude. O prazer da busca de uma verdade, de uma informação, alimentado pela sadia inquietação de não se contentar com a carência informacional acerca de pessoas, lugares, fatos...

Este ano, por exemplo, consegui, após cansativas e muitas vezes infrutíferas pesquisas, provar que um maranhense de Caxias, Aderson Ferro, pioneiro da Odontologia no Brasil, formado em Paris, retornara para nosso Maranhão, estabelecendo-se com consultório na Rua da Paz, em São Luís  --  embora todos os registros até agora, inclusive em biografia em livro, digam que ele viajara da França direto para o Ceará, onde efetivamente mais tarde se estabeleceu e fez um grande serviço como dentista, jornalista, dramaturgo, estimulador da leitura (com a criação de bibliotecas) e humanitarista que atendia os carentes em suas necessidades mais básicas  --  mister em que esse honrado maranhense aplicou grande parte do dinheiro que amealhava em sua profissão.

Pois bem: como ainda são raras e ralas as informações sobre a vida dele, fui atrás, estimulado mesmo por amigos e confrades do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, minha terra natal. Foi assim que, nesse exercício saudável de inquietude, descobri antigos jornais (década de 1880) que traziam anúncios dos serviços dentários de Aderson Ferro. Antes, eu já havia orgulhosamente descoberto um registro em uma ata de uma sociedade de geografia comercial da França que atestava que, em um dia dos anos 1870, o caxiense Aderson Ferro e o grande escritor francês Guy de Maupassant (amigo de Gustave Flaubert) estavam os dois, Aderson e Maupassant, tomando posse na dita sociedade. Aderson Ferro tinha saído de Caxias em setembro de 1877 para estudar “Arte Dentária” em Paris e lá tornara-se membro da Sociedade Nacional de Geografia da França, e nesta condição estava na reunião com Maupassant e como este sendo admitido em uma sociedade mais específica da área, neste caso, Geografia Comercial. E reitero: Também sobre Aderson Ferro descobri que, sim, e distintamente do que se registra nas poucas anotações biográficas, ele voltou para o Maranhão após retornar da França, tendo montado consultório na Rua da Paz, em São Luís, como comprovam anúncios de sua atividade profissional publicados em jornais da capital maranhense naquela segunda metade do século 19. Só depois, por motivos ainda insabidos, é que Aderson Ferro mudou-se para o Ceará, onde clinicou em Fortaleza e, depois, em diversas cidades do interior cearense. Está enterrado em Baturité.

  

 

Edmilson sanches e Mhario Lincoln.

3 – MH – Em meu bestunto, o questionei, certa vez, sobre qual o motivo da construção de textos longos, esmiuçados, detalhados. E aí recebi uma resposta por demais irretorquível. Que tal compartilharmos essa resposta agora?

EDMILSON SANCHES – Não me recordo acerca do que lhe falei. Mas costumo dizer que tanto a pessoa, o lugar, o fato, o assunto de que se fala ou sobre o qual se escreve exige aprofundamento (claro, com a apropriada linguagem e o adequado tamanho) quanto o futuro também merece, pois o futuro é o espaço-tempo onde certamente existirão (espero...) pesquisadores, leitores sem preguiça mental que agradecerão o fato de estarem à frente de um texto com informações essenciais, plurais, informações que, sem perder o prumo, permitam ou induzam ou inspirem leituras e, quem sabe, prosseguimento na busca de mais informações.

  

MH – Minha mãe, a jornalista Flor de Lys, me influenciou bastante em diversos aspectos profissionais e, até mesmo, existenciais. Por isso, também me interessei em lê-lo em alguns textos referentes à convivência maternal. Em um deles, o seguinte: “De qualquer modo, se não existem problemas nos céus, Deus, com aquele ‘poderzão’ que só Ele tem, bem que poderia devolver minha mãe saudável e vivinha da silva”. Aqui, aproveito para fazer duas perguntas em uma só: 

4ª: "(...) devolver minha mãe saudável e vivinha da silva". É muito forte essa mensagem e;

5ª: Pela imensa saudade expressa nas mensagens embutidas, quais as três principais, que lhe acompanham nessa respeitada vida literária?

EDMILSON SANCHES – Alimento-me também com esse sanduíche de saudades e mensagens “embutidas” a partir dos ensinamentos maternos, dentro da “criação” que tive. Recordo-me de uma “lição” dada por minha mãe, ao me observar brincando com o carneirinho que eu ganhara de presente de aniversário. Eu, criança, esfregava minha testa na testa do carneirinho, como que “ensinando” o bichinho a marrar (bater com a testa, com a cabeça). Em uma dessas horas, minha mãe percebeu que o carneirinho afastara-se de mim e posicionava-se com a cabeça meio abaixada. Mamãe foi lá, tirou-me da linha de ataque do carneirinho e saiu-se com esse primor: “ --- Meu filho, de carneiro que recua, é grande a marrada”. Era possível que eu ganhasse um belo “galo” ou algum ferimento se o carneiro me acertasse a cabeça ainda frágil de menino pequeno. Uma segunda “mensagem” eu apreendia e aprendia no comportamento cotidiano de minha mãe: o respeito, a bonomia quando não o carinho de minha mãe em relação aos mais carentes, aos humildes, aos necessitados (tenho um livro, inédito, com relatos ou crônicas de meus contatos e conversas com pessoas assim, encontradiças nas ruas, esquinas...). Mamãe os atendia quando batiam palmas em frente à nossa casa e não se negava a suprir os esmoleres, aos quais atendia nos pedidos de café em pó, açúcar, farinha, feijão, arroz etc., que eram depositados em diversos e pequenos sacos de panos que os pedintes carregavam. A dedicação e conhecimento de mamãe ao fazer remédios à base de cascas, folhas, sementes etc., ofertados gratuitamente para gentes que sentiam uma diversidade de males, dores... Um poço de bondade e de energia, minha mãe. Como já escrevi: acho que a única coisa ruim que minha mãe fez foi fazer-me...

Uma terceira e última “mensagem” está em outra historinha real que reconto com orgulho e saudade (enquanto brotam-me dos olhos muitas e involuntárias lágrimas):

Não sou candidato a santo, não estou em busca de carimbar passaporte para o céu, mas, em termos de Política e de Gestão Pública (com letras maiúsculas), em termos de Vida e do Ofício de viver, não abdico do direito de permanecer maximamente correto -- e isto, de algum modo, tem a ver com os padrões de seriedade que Dª Carlinda Orlanda Sanches, minha mãe, pregava e dos quais se orgulhava (ela faleceu aos 49 anos). Na infância, em Caxias, quando eu chegava em casa da escola (o Coelho Netto, do Dr. Marcello Thadeu de Assumpção, e o Bandeirante, lá no Morro do Alecrim), minha mãe examinava o material escolar e perguntava:

"--- De quem é esse lápis?"  

"--- Encontrei no caminho da escola, mamãe". 

"--- Pois amanhã meu filho o devolve para a professora ou diretora, pois alguém o perdeu. E não faça sua mãe ir lá para saber se você devolveu ou não. Sua mãe é pobre mas tem condição de comprar um lápis, se precisar."

E ela concluía, simples e magistralmente:

"-- Meu filho, o que é seu é seu, o que é dos outros é dos outros."

Além do dia e da noite, e uma enorme saudade, foi essa a herança que minha mãe deixou. Devo ter meus momentos de "deseducação", mas eles não fazem parte, não derivam do legado de Dona Carlinda.

Educação, aprende-se nos cômodos de casa  --  e pratica-se, ou não, nas ruas da vida.

Ética. Bons modos. Respeito. Não ser bandido.

Ao lembrar de minha mãe, meu tempo muda...

E passa a chover muito dentro de mim... 

 

6 – MH – Ainda na linha da pergunta anterior, convido Ariano para conversar com a gente: “Se Deus não existisse, a gente era só animal, imagine a selvageria que seria. (...)”. Há significância para você?

EDMILSON SANCHES – Muita. Já disse e redisse em palestras, conferências e conversas que, a convite, proferi ou de que participei por aí, em dezenove estados brasileiros e na Europa e Estados Unidos: Se Deus não existisse, a Humanidade teria de criá-lo. Não sei se há estudos técnicos sobre isso, mas afirmo que, à maneira suassuniana, Deus, a Espiritualidade ou o que seja são os grandes elementos de contenção do animal ou animalesco em nós, do “Homo homini lupus est”. Não tenho qualquer incômodo em relação ao Divino, ainda que estivesse em uma sociedade de ateus...

 

7 – MH – Em um dos VICEVERSAS, conversei com o poeta Alex Brasil sobre membros-imortais das academias. À propósito, li “Dia do Livro”, onde você asseverava: “O livro é um diamante de papel. Um livro é para sempre. O indivíduo passa. O autor, não. O autor fica, ao mesmo tempo preso e liberto nas páginas do livro”. Alex seguiu essa mesma entonação ao me confidenciar: “(...) não sou eu que a Academia Maranhense de Letras imortalizou, mas sim, minhas obras. Assim deveriam pensar aqueles que se propõem a tornarem-se membros de uma Academia (...)”. Você tem essa mesma linha de raciocínio? Em algum momento você pensou em se inscrever a uma vaga à AML?

EDMILSON SANCHES – Sim, verdadeiramente, imortal é o trabalho; o autor é só um “medium”, um elemento de “teletransporte” daquilo que será (um texto, um livro, uma música, escultura etc.). Quanto à Academia Maranhense de Letras (AML), recordo-me de que o competente escritor, advogado, pesquisador e editor Jomar Moraes sempre me pedia e lembrava: “ --- Vem pra São Luís, Sanches, concorra e integre-se à Academia Maranhense e venha me ajudar a organizar e tornar maior nossa Casa”. Eu costumava frequentar o pavimento superior da residência do Jomar, na capital maranhense, e ali, entre milhares de livros e sua máquina de escrever (não era computador...), Jomar e eu conversávamos, inclusive estive com ele pouco tempo antes de ele adoecer e morrer. Um outro ex-presidente da AML enviou-me uma foto comigo, do dia de sua posse presidencial, e escreveu-me dizendo que servisse aquela foto como declaração antecipada de voto em mim, quando eu me candidatasse. Nunca mostrei interesse ativo para ingressar na AML. Essa Casa tem um enorme potencial para ser menos reverência e mais referência no Estado  --  afinal, ela é Academia Maranhense, portanto, estadual... Posso estar enganado, mas a AML ela parece ilhada demais, “são-luisada” demais, “ludovicensizada” demais, mesmo que integrada por escritores de várias partes do estado. A AML sabe que há vida inteligente e pulsante além do Estreito dos Mosquitos (que separa a ilha do continente). Sálvio Dino, falecido recentemente, onde eu estivesse, pedia a palavra para me anunciar falando dos feitos que fiz ou auxiliei a fazer, na fundação de diversas Academias de Letras pelo Estado: Imperatriz, Açailândia, João Lisboa, São João do Sóter, Aldeias Altas, Caxias, Santa Inês, Buriticupu e outras em discussão ou andamento para serem criadas. Sálvio Dino vez ou outro me lembrava para buscar uma vaga e, se eleito, tentar colocar mais seiva na frondosa árvore AML. Não guardo ilusão de que ninguém virá me procurar e que penhoradamente me pedirá para concorrer a uma das diversas vagas que ainda serão declaradas pela AML. Eu é que tenho de fazer isso. Já recebi alguns telefonemas de incentivo de membros da Academia e, dentre as Casas literárias interioranas, houve delas que se prontificou até a enviar expediente à AML externando apoio à nossa candidatura, se esta, claro, ocorrer.

 

8 – MH – Tornou-se um imenso gozo a leitura pra você. Concluo, lendo esse texto: “(...)Lia as três enciclopédias "Delta": a "Delta Júnior", de cor avermelhada, de linguagem mais simples, própria para o público de minha idade; a "Delta Larousse" de capa marrom, mais antiga, "clássica"; e a de capa esverdeada, uma espécie de segunda edição (reorganizada) de sua "mãe" de capa marrom (...)”. Então, convido para nossa conversa o filósofo francês Gérard Lebrun que, ao falar sobre a importância da leitura, diz que o jovem estudante tem essa necessidade de estudar e ler muito para falar uma língua com segurança e com vocabulário que se ajuste ao máximo às dificuldades (no sentido cartesiano), além de possuir uma retórica que lhe permitirá a todo instante denunciar a ‘ingenuidade’ do ‘cientista’ ou a ‘ideologia’ de quem não pensa como ele. Daí, a pergunta: em que momento você teve de sustentar as linhas de pensamento e opinião, pessoais, ao discutir o atual contexto sociocultural, diante da ‘ingenuidade’ de alguma proposta em contrário?

EDMILSON SANCHES – Antes da pandemia, e como registra a publicação “Perfis Acadêmicos AIL – 2016”“há décadas, a convite de estabelecimentos de ensino, [Edmilson Sanches] tornou-se o mais frequente palestrante em escolas e instituições de ensino superior de Imperatriz, cujos estudantes têm escolhido seu nome para patrono ou paraninfo de turmas de formandos”. Os ambientes de ensino são o espaço formal mais poroso para discussão de contextos socioculturais e exposição de linhas de pensamento e opinião. Com efeito, fui líder de turmas no Ensino Fundamental, fui três vezes eleito presidente do Grêmio em todos os três anos do Ensino Médio, diretor eleito para o Diretório Acadêmico na Faculdade etc. Fui fundador e/ou presidente ou diretor de entidades de variada espécie: associações de moradores, academias de letras, sindicatos e associações de jornalistas, de bancários, associação de quebradeiras de coco, de contabilistas, de desportistas e de torcedores, de pequenos produtores rurais e vai por aí. Nesses ambientes e em outros, no Maranhão e do Rio Grande do Sul à Amazônia, como palestrante, conferencista, participante de mesas-redondas em todo o País, além de várias vezes na condição de candidato a prefeito e a parlamentar (municipal, estadual e federal) tenho entrado em debates em que aspectos socioculturais e realidades econômicas e ambientais, por exemplo, são tratados com e sem qualidade, com e sem aprofundamento, em que às vezes surgem intervenções, proposições e reflexões pouco substanciais (não sei se “ingênuas”). Tudo depende do cardápio de informações de cada um e do interesse verdadeiro ou conveniente que podem estar por trás de uma ou outra pessoa no debate. Nesses casos, procuro reposicionar, esclarecer, sem impor, mas alimentando a discussão para que eventuais discordâncias impróprias ou desatinos infelizes sejam percebidos por seus emissores, no sentido da fertilidade e resolutividade do debate (e não necessariamente de perfilhamento ao que eu exponha).

 

9 – MH – Muito discutida a questão das ‘Relações Líquidas’, termo forjado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, onde ele acrescenta de forma explícita que todas as relações humanas - afetivas principalmente - são muito passageiras e não são construídas com a vontade de serem mantidas. Qualquer ato falho, por mínimo que seja, são descartadas (...)”. Pode-se dizer que isso representa o mais comum entre os humanos? 

EDMILSON SANCHES – Prefiro acreditar na efetividade da afetividade. Na vontade dos envolvidos de dotar as relações de mais perenidade. Afora as interações claramente fortuitas, de prazo certo, seria muito mau-caratismo a demonstração de amor para sempre no início do relacionamento secundada por um “não te quero mais” quase imediato. No aspecto biológico, não creio que os mais de cem bilhões de pessoas que já viveram neste planeta e dos quase oito bilhões de viventes humanos atuais tenham sido produtos do caos, do desregramento, do randomismo nas relações. Sem pieguice, mas houve e ainda há muito amor, muita vontade de fazer o certo e por muito mais tempo do que a fluidez líquida e inconsútil com que se vislumbra que é, está sendo ou vai ser a sociedade de agora e/ou dos dias que hão de vir. As relações até podem ser passageiras, mas não é passageira a vontade de que as relações sejam mais duradouras, de preferência, eternas, ou, enquanto durarem, ternas.

 

10 – MH – Que tal nos despedirmos com uma frase histórica de José Lamarck de Andrade Lima, advogado e professor de Direito e amigo pessoal seu: "CONHEÇO QUEM TEM BIBLIOTECA DENTRO DE CASA. O SANCHES É O ÚNICO QUE TEM CASA DENTRO DE UMA BIBLIOTECA". Vale recordar?

EDMILSON SANCHES – Arguto, perceptivo, raciocínio rápido, ex-motorista de caminhão que se formou em Direito, tornou-se advogado e professor de Direito, meu amigo Lamarck, falecido em 2018, aos 79 anos, também foi vereador (mas não atuamos em mesmo mandato) e tinha esse hoje raro prazer de ler, ler os chamados bons livros. Sua frase, essa frase aí de cima, só “perde” para a beleza e singeleza com que um dia, de madrugada, minha mãe, adoentada, despertou-me de meu sono leve (igual à minha consciência). Fui ampará-la, abraçá-la. Era aí por volta de umas três horas da madrugada. Ajudei a conduzir minha mãe para um sambado sofá onde abraçados nos sentamos os dois. Lá fora, os grilos guizalhavam, o vento ronronava e a Lua anêmica parecia querer levantar um pedaço de nuvem para curiar mamãe e eu na sala. Nesse instante, mamãe tocou de leve seus óculos, como a ajustá-los, e olhou um olhar comprido assim em volta, admirando as dezenas de estantes que acompanhavam as paredes da casa. E foi nesse instante que mamãe disse, assim, lindamente, para todo o sempre:

“ --- Os móveis do meu filho são livros.”         

Ninguém jamais dirá algo tão afetuoso e belo  --  até porque, nessa frase, também há muito do carinho e da beleza de minha mãe...

Dona Carlinda era linda até no nome...

 

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