
11.10.2025
"Hoje é a data correta do Bicentenário nascimento de Maria Firmina dos Reis? O biógrafo de Maria Firmina dos Reis, Agenor Gomes (IHGM) durante sua participação no História em Debate explicou a verdadeira data de nascimento da escritora, 11 de outubro de 1825". (Dilercy Adler).
As Datas de Nascimento de Maria Firmina dos Reis: Entre a História e o Simbolismo
Texto recuperado do grupo FALMA- Federação das Academias de Letras do Maranhão.
A discussão em torno da data de nascimento de Maria Firmina dos Reis tem sido objeto de atenção entre estudiosos da escritora maranhense e da literatura brasileira.
Segundo Sílvio Romero, em sua História da Literatura Brasileira, e conforme o registro feito por Sacramento Blake no Dicionário Bibliográfico Brasileiro, a data de nascimento de Maria Firmina é 11 de outubro de 1825. Essa referência foi posteriormente adotada por Nascimento Morais Filho, o grande responsável pela redescoberta da autora e pela desconstrução do seu silenciamento na segunda metade do século XX.
Entretanto, em 2017, por indicação da pesquisadora Mundinha Araújo, Dilercy Adler encontrou, no Arquivo Público do Estado do Maranhão, um documento até então inédito: os Autos de Justificação do dia de nascimento de Maria Firmina dos Reis, feitos pela própria escritora e dirigidos à Câmara Eclesiástica Episcopal.
Nessa petição, Maria Firmina declara ser nascida em 11 de março de 1822. O procedimento deveu-se ao fato de que, em sua certidão de batismo, constava apenas a data do batismo, sem a menção à data de nascimento.
A partir dessa descoberta, Dilercy Adler passou a adotar a data de 11 de março de 1822, tendo, inclusive, protocolado junto à Prefeitura de São Luís um pedido de alteração da data do Dia da Mulher Maranhense para essa data. Na ocasião, Dilercy exercia a presidência da Academia Ludovicense de Letras, instituição da qual Maria Firmina dos Reis é patrona.
Atualmente, observa-se que alguns estudiosos continuam adotando a data de 1825, enquanto outros — entre os quais me incluo — reconhecem a data de 11 de março de 1822 como a mais consistente, uma vez que se baseia em documento oficial e autodeclarado pela própria escritora. Assim, em 2022, tanto a Academia Ludovicense de Letras quanto o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão celebraram o Bicentenário de nascimento de Maria Firmina dos Reis, ao longo de todo o ano.
A discussão sobre a data de nascimento de Maria Firmina dos Reis, portanto, ultrapassa a simples questão cronológica: trata-se de um tema de natureza historiográfica e simbólica, que interfere na forma como situamos a autora dentro do panorama literário e social do século XIX brasileiro.
A adoção da data de 1825 — sustentada por Sílvio Romero e perpetuada por Nascimento Morais Filho — consolidou-se durante décadas como referência tradicional. Contudo, a descoberta dos Autos de Justificação de 1822 introduz uma nova perspectiva, pois o documento é uma declaração da própria autora, com valor jurídico e eclesiástico. Essa fonte primária, portanto, confere maior autenticidade à data de 11 de março de 1822, uma vez que se baseia na voz e no testemunho da própria Maria Firmina.
Sob esse ponto de vista, o documento encontrado em 2017 não apenas corrige uma possível imprecisão histórica, mas também restitui à autora o poder de autodefinição, aspecto profundamente simbólico quando se considera o contexto de apagamento e marginalização a que mulheres negras foram submetidas na história literária do Brasil.
Ao reconhecer o 11 de março de 1822 como data de nascimento, estabelece-se também um gesto de reparação simbólica — um ato de justiça histórica e identitária. É por essa razão que, em 2022, o Bicentenário de nascimento de Maria Firmina dos Reis foi celebrado oficialmente pela Academia Ludovicense de Letras e pelo Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, reafirmando o papel pioneiro da escritora como mulher, negra e intelectual em pleno século XIX.
Mais do que uma controvérsia, essa questão reafirma a vitalidade dos estudos sobre Maria Firmina dos Reis, incentivando novas investigações e consolidando sua presença no centro do cânone literário brasileiro, agora iluminada por documentos, leituras críticas e olhares renovados.
Independentemente da data que se adote — 11 de março de 1822 ou 11 de outubro de 1825 —, o essencial é reconhecer que Maria Firmina dos Reis nasceu para a eternidade. Sua presença se impõe não apenas pelos registros civis ou eclesiásticos, mas pela força da palavra que libertou, pela consciência que despertou e pela ternura que imprimiu à luta pela dignidade humana. Cada nova descoberta sobre sua vida, cada documento resgatado, cada leitura renovada, faz renascer Maria Firmina em nossas páginas e em nossa memória coletiva.
Assim, o debate sobre sua data de nascimento deixa de ser mera questão cronológica e se transforma em símbolo de permanência e de renascimento — o nascimento contínuo de uma autora que, a cada pesquisa, a cada olhar atento, volta a nascer no coração da literatura brasileira.
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