
Editoria de Literatura e arte da Plataforma Nacional do Facetubes
"Se eu tivesse que atrelar a obra de Mesito a outro poeta forte, escolheria Walt Whitman. Ele fez da própria vida, do corpo, da rua, da dúvida e da contradição, matéria poética, sem máscaras, sem verniz, numa mistura de verdades e cotidiano, cuja catarse ainda repercute até hoje. Inclusive é imortal a frase - “I am large, I contain multitudes”, ou seja, "(...) dentro de mim cabem muitas versões de mim mesmo". (Mhario Lincoln, editor-sênior do Facetubes).
O novo livro de poemas de Bioque Mesito, “Revoada de Interrogações”, ganhou lançamento em clima de reencontro afetivo na Galeria Trapiche, no Centro Histórico de São Luís. O espaço, que se consolidou como uma das principais vitrines da arte e da literatura na cidade, com o carimbo do acadêmico APB-MA, Uimar Junior, recebeu um público formado por escritores, críticos, leitores e familiares, entre eles Arlete Nogueira Machado, o imortal, poeta Alex Brasil, da Academia Maranhense de Letras, e contemporâneos do autor desde os anos 1990, familiares e amigos.
A noite foi organizada como uma pequena narrativa em três atos. Coube ao escritor Agamemnon de Jesus, da mesma geração de Mesito, fazer a fala de abertura, sublinhando o percurso do poeta no cenário maranhense. Em seguida, o poeta e filósofo Rogério Rocha, acadêmico da Academia Poética Brasileira, seccional MA, apresentou o prefácio, aproximando a obra de uma tradição existencialista que pensa a condição humana, a partir do cotidiano. Por fim, o próprio Bioque Mesito conduziu a apresentação, em tom confessional e sereno.
Nascido em São Luís, em 1972, premiado em concursos locais, regionais e nacionais, Bioque Mesito é autor de livros que resumem bem sua condição de poeta livre, não libertário. E isso fica muito claro na mensagem que a (Capa 04) assenta: “Para mim, a poesia nunca foi uma escolha. Ela me encontrou, como um chamado inevitável, como algo que sempre esteve à espreita, aguardando o momento certo para emergir. Escrevo porque a vida exige isso de mim, porque preciso captar o pulsar da existência e, de algum modo, transformar o que sinto em palavras. A poesia é minha maneira de lidar com a imensidão de ser humano, de confrontar cada momento, cada lampejo de beleza, cada dúvida e vazio que a vida carrega. Não há nada de racional ou calculado no ato de escrever; é como se cada verso fosse um fragmento da minha própria condição. Escrevo porque, de alguma forma, a humanidade me inspira a existir assim, em palavras”. O público recebeu a declaração como uma espécie de manifesto íntimo.
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Destarte, ao prefaciar a obra, por outro lado, o filósofo e poeta Rogério Rocha, um dos nomes que mais cresceram nesse nicho, no Brasil, disse o seguinte com pertinência ao premiado Mesito:
“PREFÁCIO – REVOADA DE INTERROGAÇÕES
Por Rogério Rocha
‘...a existência é cativante fazemos dela um embrulho de novidades pertencemos à tribo dos que esperam por mudanças dos que tentam desatropelar a vida com um bom dia antes da saída para o trabalho’ (Bioque Mesito).
Ler este “Revoada de interrogações” constitui-se num desafio.
A escrita do autor já me soou incômoda, devo confessar. Quando do primeiro contato com alguns de seus versos, em obras anteriores, sentia-os como que destituídos de algo que nem mesmo sabia nominar. Posteriormente, na medida em que apreendi melhor os aspectos estilísticos, as abordagens formais e as linhas-mestras que compõem a pragmática de seus poemas, pude compreender a cartografia de suas produções, seus limites, suas fronteiras e recortes estruturais.
As coisas ditas no livro são dotadas de um peso ético que habita o centro de sua persona artística. O discurso latente no âmbito das revelações trazidas em cada poema parece depor contra tudo o que temos visto neste século, ao resistir à decadência do mundo.
É um jogo muito arriscado, aliás, esse de escrever sobre as coisas. Uma hora falhamos, deixamos de lado a força dos argumentos, caímos em pecado, expondo nossas imperfeições. Ainda assim, Bioque Mesito prossegue em sua missão com a mente povoada por recortes mundanos de símbolos e signos.
Temos aqui a marca de uma escrita cuja voz foi apresentada desde o poema inaugural do primeiro livro desse escritor maranhense, reafirmando-se em obras subsequentes e retornando, revigorada, a cada poema deste novo trabalho.
As premissas do livro, expressas num tom quase confessional, parecem retiradas de convicções poéticas muito fortes, que, por vezes, se confundem com uma espécie de razão maior, sempre a povoar o imaginário dos escritos do autor. Marca esta que, aqui, atinge seu grau máximo, ao expor facetas de um olhar que mensura as múltiplas dimensões da realidade.
No movimento expressivo do poeta, estão presentes, em vários planos de autorreferência, elementos da chamada escrita de si, existindo, junto à modelagem do discurso, a tentativa de constituir o sentido da história pessoal por meio da intencionalidade com que assinala um olhar ora rompido por vislumbres do passado, ora pela premência do presente. Entremeando a persecução desses objetos, é possível notar, ainda, um diálogo entre representações do local e do universal.
Confesso que a leitura, em certas passagens, talvez se torne difícil para alguém não afeito à poesia que se caracteriza como um exercício de paciência, com muita coisa sendo dita ao mesmo tempo, diante de uma cosmovisão que não deixa de representar um certo desencanto com o mundo. Desencanto este que vai ser somado às interrogações que dão nome ao livro.
Em muitos pontos, veremos, portanto, explicitadas a questão da dúvida filosófica, da não-resposta, das indagações, todas intencionalmente trazidas por Bioque Mesito como forma de destacar seu interesse pela leitura da filosofia universal.
A “Revoada de Interrogações”, então, surge disso. E o mais importante: os questionamentos são feitos sem nenhuma interrogação. Ainda assim – não resta nenhuma dúvida – elas estão lá, subentendidas.
Trata-se, portanto, de uma obra de vislumbre sobre o contemporâneo, da vida íntima e da vida pública, do dentro e do fora, do permitido e do proibido, da transgressão e da norma, do diabólico e do angelical, da razão e da sensibilidade.
A partir daí o fio das instigações nos conduz aos problemas que vão sendo racional e cirurgicamente nomeados, ajudando a compor, inclusive, mediante a contínua enumeração dessas impressões acerca do dilaceramento da humanidade e dos extremismos do mundo, uma espécie de filosofia interior atrelada à sua poética.
Dentre os muitos pontos altos do livro, posso indicar poemas como o “Parte incomensurável de nossa particularidade”, onde descobrimos que ‘por mais que sejamos resilientes, a vida sempre nos dá uma rasteira’; ou o “A anticópia dos placebos existenciais”, com seu tom de nostalgia familiar; o devastador “Uma delicada tradução da existência”; a ácida e transgressora recriação do decálogo divino presente em “Outra categoria de extinção”; a sutileza das rimas, a revestir a crítica social de “Exercícios de agonizar”, ou mesmo o monumental “Os escritos sobre a morte”.
Enfim, resta-me dizer que temos aqui um livro maduro, atual, caleidoscópico, encorpado, que consegue ter, ao mesmo tempo, e de modo equilibrado, uma visão sobre o particular e o universal. Que pede uma leitura a ser feita na contramão da celeridade dos nossos tempos. Uma obra marcada pela racionalidade rigorosa da escrita de seu autor, poeta capaz de elevar ao máximo a habilidade de contenção das emoções, trabalhando a poesia como a arte de saber dizer aquilo que não é óbvio.
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