
Carlos Furtado
Há momentos em que o passado se impõe com a nobreza de um legado afetivo, despertando memórias que repousam, intactas, nos recantos mais profundos da alma. Revisitar a década de 70 é reencontrar um tempo em que atravessávamos a infância juvenil sob uma atmosfera mais leve, quando a família era o eixo estruturante de nossos sentimentos e a sociedade ainda preservava a serenidade que moldou nossas primeiras percepções do mundo. Nós, que vivemos aquela época, ainda guardamos a pureza dessa vivência — uma pureza que o tempo, por mais implacável que seja, jamais conseguiu desbotar.
Em meio a esse movimento de retorno interior, fui surpreendido por uma dessas coincidências que carregam o selo da providência. No exato instante em que procedo à doação de todo o meu acervo — quase mil títulos reunidos ao longo de minha jornada — à Biblioteca da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares, projeto ao qual me dedico na boa idade com sincera devoção, encontro uma preciosidade adormecida desde 1974: um singelo álbum de cromos.
Embora simples em aparência, ele encerra um valor simbólico inestimável. Foi ele quem embalou meus primeiros sonhos, despertou o imaginário juvenil e inaugurou desafios que, hoje compreendo, compuseram as primeiras páginas de minha formação. E ali, na sua folha inicial, repousa até hoje minha escrita e minha assinatura juvenil — um testemunho vivo de quem fui e de quem viveu, intensamente, aqueles gloriosos momentos.
Ao reencontrá-lo, senti, aos 64 anos recém-completados, a emoção singular de reviver a alegria pura da meninice — uma alegria que, de certo modo, permanece viva em todos nós que experimentamos aquela época extraordinária.
Esse reencontro revelou-me que certas memórias possuem a majestade de restituir ao espírito a essência de quem fomos e a dignidade de quem ainda podemos ser. São elas que iluminam o caminho e nos recordam que a vida, mesmo avançando em suas estações, continua generosa em significado e propósito.
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