
Autora do texto: Socorro Guterres, da Academia Poética Brasileira.
Um minuto de felicidade valeria por uma vida inteira? Essa reflexão nos é legada na novela Noites Brancas , de Fiódor Dostoiévski, que se adequa como perfeita introdução para quem quer iniciar a leitura do magistral escritor russo. Quando pensamos em Dostoiévski nos vêm logo à mente, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov , obras-primas do autor, profundas, escritas em sua maturidade, as quais abordam dilemas morais, fé e culpa (mesmo que em experiências de perspectivas distintas), explorando assim a complexidade da alma humana. Nesses densos romances , além dos destacados protagonismos de Alexei Fiódorivitch Karamázov e Raskólnikov, podemos observar o conceito de polifonia de Mikhail Bakhtin, no qual múltiplas vozes e personagens compoēm um campo de ideias contraditórias e autônomas.
Contudo, antes de vagar pelas noites brancas, vamos conhecer um pouco mais de Fiódor Dostoiévski, elencando alguns fatos marcantes na trajetória do autor. Nascido a 30 de outubro de 1821, em Moscou, num hospital para indigentes no qual o pai trabalhava como médico, Dostoiévski ingressou em 1838 (após a morte da mãe por tuberculose) na escola de Engenharia Militar de São Petersburgo. Posteriormente ao assassinato do pai por servos da pequena propriedade rural da família, ele abandona a carreira militar e escreve o primeiro romance, publicado em 1846, Gente Pobre , uma análise social de formato epístolar que é bem recebida pela crítica. Passa então a frequentar círculos de intelectuais revolucionários, no período do reinado do czar Nicolau I, denunciando a autocracia e a servidão na Rússia. Portanto, em 1849, época de censura, é preso e condenado à morte, tendo a pena comutada no último momento (já no cadafalso) para quatro anos de trabalhos forçados e exílio na Sibéria, experiência que influenciou as obras subsequentes. A lista de livros de sua autoria é extensa sobretudo em relação ao impacto e conteúdo e não cabe aqui adiarmos nosso passeio por São Petersburgo, local onde se desenvolve a narrativa, mas é importante lembrar que no período entre Gente Pobre e Noites Brancas , Dostoiévski lançou ainda O Duplo , romance de grande exploração psicológica sobre a fragmentação do eu, que entretanto não teve boa aceitação pelo público leitor; e é nesse contexto que aparece a novela que convido a visitar.
Nesse livro pequeno de aproximadamente noventa páginas, publicado em 1848, Noites Brancas , destacam-se o narrador-personagem, que se expõe como um sonhador, e Nástienka, num diminutivo e forma familiar russa de Nastassía, que já demonstra a proximidade que se dará na conversação entre esses dois corações solitários. Ela na idade de dezessete anos e ele contando vinte e seis anos. Sem grandes caracterizações dos personagens, a narrativa desenvolve-se nos discursos verborrágicos e emotivos, os quais ja se prevê no subtítulo: " Romance sentimental (Das recordações de um sonhador)". Desse modo, podemos também classificar o livro como memorialista. Os temas abordados, embora múltiplos, centram-se no amor: idealização, solidão, expectativas, paixão, desejo. O cenário, como já foi referido, descreve as ruas de São Petersburgo (norte da Rússia), na época de verão compreendida entre o final de junho e meados de julho, na qual os dias se alongam e o sol não se põe totalmente, estabelecendo uma espécie de crepúsculo em noites brancas, num tom que metaforiza a fronteira entre o real e o imaginário. Vagando nas belíssimas ruas de São Petersburgo, esse sonhador solitário que diversas vezes na história assim se intitula, encontra pessoas que literalmente apenas passam por ele, sem entretanto conhecê-lo. O sonhador não é um herói, e poderia mesmo ser qualquer um de nós no vazio dos desencontros humanos. Na verdade, as casas que o sonhador relaciona-se no flanar solitário tornam-se suas grandes companheiras e partícipes da vida; e o personagem protagonista, sonhador, sente-se frustrado quando uma linda casinha rosa-claro é pintada de amarelo.
Sim, nessa novela há um triângulo amoroso, bem como o desejo profundo de se livrar da solidão, e na ternura do sonhar dá-se se o encontro dos personagens, nas noites brancas de esperas, pois no caminho do Sonhador pela marginal do rio, apoiando-se no parapeito do canal estava uma mulher chorando: Nástienka. Ressalte-se ainda que o narrador-personagem é também leitor e cita grandes nomes literários como Walter Scott, romancista escocês autor de Ivanhoé, e Púchkin, grande poeta russo da era romântica. A trama se desenrola em quatro noites e uma manhã, totalizando cinco capítulos de estranhamentos, encontros, perdas e êxtase, que nos remete à célebre frase de Blaise Pascal: "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Entre o real e o imaginário do Sonhador e Nástienka, almas solitárias do século XIX, na escritura ímpar de Fiódor Dostoiévski enuncia-se a perda do que poderia ter sido. O nascer do sol nas noites brancas traz então o despertar à realidade. Eis, portanto, uma pequena joia literária em meio à grandiosidade arquitetônica de São Petersburgo e ao questionamento irretocável do princípio desta reflexão: "Um momento inteiro de júbilo! Não seria isto o bastante para uma vida inteira?...". Caro leitor, Noites Brancas aguarda sua apreciação e esse encontro será certamente inesquecível.
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