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Mais um texto exclusivo: “Dostoiévski em Noites Brancas”. Socorro Guterres

“Caro leitor, Noites Brancas aguarda sua apreciação e esse encontro  será certamente inesquecível.” SG

17/12/2025 às 19h19
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres(autora)
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Arte: mhl/ginai
Arte: mhl/ginai

Autora do texto: Socorro Guterres, da Academia Poética Brasileira.

Um minuto de felicidade valeria por uma vida inteira?  Essa reflexão nos é legada na novela Noites Brancas , de Fiódor Dostoiévski,  que se adequa como perfeita introdução para quem quer iniciar a leitura do magistral escritor russo. Quando pensamos em Dostoiévski nos vêm logo à mente,  Crime e Castigo e  Os Irmãos Karamázov , obras-primas do autor,  profundas, escritas em sua maturidade, as quais  abordam dilemas morais, fé e culpa (mesmo que em experiências de perspectivas distintas), explorando assim a complexidade da alma humana. Nesses densos romances , além dos destacados protagonismos de Alexei Fiódorivitch Karamázov e Raskólnikov, podemos observar o conceito de polifonia de Mikhail Bakhtin, no qual múltiplas vozes e personagens compoēm um campo de ideias contraditórias e autônomas.

    Contudo, antes de vagar pelas noites brancas, vamos conhecer um pouco mais de Fiódor Dostoiévski, elencando alguns fatos marcantes na trajetória do autor. Nascido a 30 de outubro de 1821, em Moscou,  num hospital para indigentes no qual o pai trabalhava como médico, Dostoiévski ingressou em 1838 (após a  morte da mãe por tuberculose) na escola de Engenharia Militar de São Petersburgo. Posteriormente ao assassinato do pai por servos da pequena propriedade rural da família,  ele abandona a carreira militar e escreve o primeiro romance, publicado em 1846, Gente Pobre , uma  análise social de formato epístolar que é bem recebida pela crítica. Passa  então a frequentar círculos de intelectuais revolucionários, no período do reinado do czar Nicolau I,  denunciando  a autocracia e a  servidão na Rússia. Portanto, em 1849, época de censura,  é preso e condenado à morte, tendo a pena comutada  no último momento (já no cadafalso) para quatro anos de trabalhos forçados e exílio na Sibéria, experiência que influenciou as  obras subsequentes. A lista de livros de sua autoria é extensa sobretudo em relação ao impacto e conteúdo e não cabe aqui adiarmos nosso passeio por  São Petersburgo,  local onde se desenvolve a narrativa, mas é importante lembrar que no período entre Gente Pobre e Noites Brancas , Dostoiévski  lançou ainda O Duplo , romance de grande exploração psicológica sobre a fragmentação do eu, que entretanto não teve boa aceitação pelo público leitor; e é nesse contexto que aparece a novela que  convido a visitar.

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Nesse livro pequeno  de aproximadamente noventa páginas, publicado em 1848, Noites Brancas , destacam-se o narrador-personagem, que se expõe como um  sonhador, e  Nástienka, num diminutivo e forma familiar russa de Nastassía, que já demonstra a proximidade que se dará na conversação entre esses dois corações solitários. Ela na idade de dezessete anos e ele  contando vinte e seis anos. Sem grandes caracterizações dos personagens, a narrativa  desenvolve-se nos discursos verborrágicos e emotivos, os quais ja se prevê no subtítulo: " Romance sentimental (Das recordações de um sonhador)". Desse modo, podemos também classificar o livro como memorialista.  Os temas abordados, embora múltiplos, centram-se no amor: idealização, solidão, expectativas, paixão, desejo. O cenário, como já foi referido, descreve as ruas de São Petersburgo (norte da Rússia), na época de verão compreendida entre o final de junho e meados de julho, na qual  os dias se alongam e o sol não se põe totalmente, estabelecendo uma espécie de crepúsculo em noites brancas, num tom que metaforiza a fronteira entre o real e o imaginário. Vagando nas belíssimas ruas de São Petersburgo, esse sonhador solitário que diversas vezes na história assim se intitula, encontra pessoas  que literalmente apenas passam por ele, sem entretanto conhecê-lo. O sonhador  não é um herói, e poderia mesmo ser qualquer um de nós no vazio dos desencontros humanos. Na verdade, as casas que o sonhador relaciona-se  no flanar solitário tornam-se suas grandes companheiras e partícipes da vida;  e o personagem protagonista,  sonhador,  sente-se frustrado quando uma linda casinha rosa-claro é pintada de amarelo.

 

 
Sim,  nessa novela há um triângulo amoroso, bem como o desejo profundo de se livrar da solidão,  e na ternura do sonhar dá-se se o encontro dos personagens, nas noites brancas de esperas, pois no caminho do Sonhador pela marginal do rio, apoiando-se no parapeito do canal estava uma mulher chorando:  Nástienka. Ressalte-se ainda que o narrador-personagem é também leitor e cita grandes nomes literários como Walter Scott, romancista escocês autor de Ivanhoé,  e Púchkin, grande poeta russo da era romântica. A trama se desenrola em quatro noites e uma manhã,  totalizando cinco capítulos  de estranhamentos, encontros, perdas e êxtase, que nos remete à célebre frase de Blaise Pascal: "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Entre o real e o imaginário do Sonhador e Nástienka, almas solitárias do século XIX,  na escritura ímpar de  Fiódor Dostoiévski enuncia-se a perda do que poderia ter sido. O  nascer do sol nas noites brancas traz então o despertar à realidade.  Eis,  portanto, uma pequena joia literária em meio à grandiosidade arquitetônica de São Petersburgo e ao questionamento irretocável do princípio desta reflexão:  "Um momento inteiro de júbilo! Não seria isto o bastante para uma vida inteira?...". Caro leitor, Noites Brancas aguarda sua apreciação e esse encontro  será certamente inesquecível.

 

 

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LeonardoHá 4 semanas NATAL/RNExcelente. A análise dialoga com a obra de forma sensível e inteligente, captando nuances emocionais que muitas vezes passam despercebidas.
Ana ClaraHá 4 semanas Natal/RNPerfeita análise!
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