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Brasil LITERATURA

Um olhar filosófico sobre Schopenhauer e Charlie Brown, por Rogério Rocha

Convidado Especial

24/11/2020 18h58 Atualizada há 6 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Rogério Rocha
Rogerio Rocha
Rogerio Rocha

Um olhar filosófico sobre Schopenhauer e Charlie Brown

Convidado Especial: Rogério Rocha 

Tecerei aqui, em sucinta análise, algumas considerações acerca da conexão existente entre duas personagens. Uma delas real e histórica, outra fictícia. 

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As duas imersas em universos próprios. São elas Arthur Schopenhauer (no mundo da filosofia) e o pequeno Charlie Brown (que habita nossas memórias afetivas, através das tirinhas e desenhos animados), da turma do Snoopy (Peanuts). 

Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, influenciou importantes pensadores como Nietzsche, Heidegger, Freud, e notabilizou-se pela acidez de seus escritos, pelo tom pessimista de suas reflexões. Charlie Brown, um garotinho introvertido e pessimista, é criação do brilhante Charles Schulz. 

Mas afinal, o que é que une essas duas figuras? Que tipo de relação pode se estabelecer entre o pensamento do filósofo e o personagem atrapalhado e introvertido das tirinhas? 

A Vontade – conceito que assume grande relevo na obra de Schopenhauer – será o eixo para nos permitir compreender a relação aqui proposta. 

Schop e Brown. Ilustração: ML

Para Schopenhauer a Vontade é essencialmente um impulso cego e irracional que nos move a tomar decisões, agir desta ou daquela forma, empreender, arriscar, desejar. Nossa essência real é, portanto, o desejo (a Vontade). Contudo, o mesmo impulso que nos alavanca à vida, à vontade de viver, nos pode ser potencialmente prejudicial, destrutivo.

Definitivamente, Schopenhauer não vê o desejo como algo a ser glorificado. Pelo contrário, afirma que a ele devemos resistir. Se possível aniquilá-lo, visto que é justamente ele a causa do nosso sofrimento. 

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Em nossas existências, empenhados na busca de certos fins, temos desejos ilimitados e inexauríveis. Porém, a cada desejo satisfeito, um novo surgirá. E a cada indivíduo satisfeito em seus desejos, outros tantos terão frustrados os seus. Logo, desejar é, de certo modo, abrir as portas para os sofrimentos, em virtude de tudo aquilo que nunca teremos, que nunca alcançaremos, por mais vontade que se possa empregar. 

Christopher Janaway, relendo o pensamento do filósofo alemão, ensina que “tudo na vida proclama estar essa satisfação dada à frustração, ou ser reconhecida como ilusão.” 

Charlie Brown, a partir da perspectiva acima explicitada, amolda-se perfeitamente, em vários aspectos, ao que apontara o filósofo. 

A vida da pequena personagem cinge-se enormemente a uma existência de sofrimento, frustrações, insatisfação contínua, derrotas e constante abatimento. 

O garoto das tirinhas de Schulz deseja pequenos feitos, pequenas coisas. Nada mais. 

As ilusões e sonhos que alimenta, os tem na esperança de tornar, talvez, sua vida menos enfadonha. 

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Parece perseguir objetivos passageiros, pequenas vitórias que possam amainar sua Vontade. Vontade de ser mais, vontade de amar, de ser amado, de ser reconhecido, vontade, enfim, de gozar da vida e na  vida algum momento de ‘felicidade’. 

Sua existência individual, contudo, é efetivamente tímida, pálida, apagada. 

Charlie Brown – o personagem principal das tiras de Charles Schulz – é em essência um anti-herói. É um garoto melancólico, tímido, cheio de preocupações e dono de um humor destrutivo: um típico pessimista. 

Além disso, assume, quase o tempo todo, a postura do ser humano que fracassa (apesar de suas generosas doses de boa vontade). 

Dotado de comovente ingenuidade, seus intentos, via de regra, não se realizam. Seja nos esportes, onde sempre está do lado que perde (no futebol americano, seu time nunca vence e ele é um dos fatores para que isso ocorra). Seja quando tenta conversar com a ‘garotinha ruiva’, sua eterna paixão platônica. 

Em Parerga e Paralipomena, Arthur Schopenhauer assevera o seguinte: 

“...observo que as diferenças fundamentais na sina dos homens podem ser reduzidas a três classes distintas: (1) O que um homem é, ou seja, sua personalidade no sentido mais amplo. Isso inclui saúde, força, beleza, temperamento, caráter moral, inteligência e educação. (2) O que um homem tem, ou seja, propriedades e posses em todos os sentidos. (3) O que um homem representa; sabemos que por meio dessa expressão entende-se o que um homem é aos olhos dos demais e, portanto, como é representado por esses. “

Por este aporte, numa via paralela, e em desenvolvimento ao que nos disse o filósofo, podemos afirmar que essa sina humana, desdobrada na tríade entre o que se é, o que se tem e o como somos representados pelo outro, pode ser encarada também pelas categorias da honra, posição e glória.

Assim sendo, tendo por fundamento o pensamento do grande pensador alemão, questiona-se: quem é Charlie Brown aos olhos dos demais? Que representação é feita de sua individualidade? Quem ele é, afinal? 

 Uma possível resposta é a que traz consigo o próprio garoto das tirinhas, e que resplandece na imagem do indivíduo que prefere o sofrimento à inexistência. Um ser que se constitui em frustração e dor, mas que merece um pouco da compaixão dos demais personagens ao seu redor – também envoltos com seus fins a alcançar, com suas vidas a preservar e a viver. 

Na maior parte dos episódios, seja nos quadrinhos, seja nas animações televisivas da sua longa séria, Charlie Brown sofre. Mas sofre positivamente, pois, ao assim sofrer, acaba por se definir como alguém. Mas que alguém? O coitado sofredor. O menino fracassado. 

E não bastando isto, sabe que cedo tornará a sofrer mais, e por isso persiste em seguir a sina do simples viver. E ao viver, nega quase sempre a vontade, anulando-se em meio ao seu mundo e ao mundo dos seus amigos, de sua turma de sempre. 

Dentre eles, o azarado garoto passeia sua pequenez, sua incompletude, seu não desejar e principalmente sua solidão. 

Num adendo, poderíamos dizer que Charlie Brown é o contraponto de uma outra personagem central da famosa série de quadrinhos. 

Seu contraponto chama-se Snoopy: o cãozinho inteligente, sonhador, sagaz, contestador, revolucionário, irreverente (que dorme por sobre o telhado e não dentro de sua casa). 

Em Snoopy podemos vislumbrar a vontade de vida. Em Charlie Brown não. Em Snoopy há sonho pulsante, inteligência, sagacidade, imaginação, coragem. Há mesmo um lançar-se à sorte de tudo que é imponderável no curso da vida. 

Outra vez buscando abrigo nas ideias de Schopenhauer, temos que: “... aquilo que um homem é por si mesmo, aquilo que o acompanha em sua solidão e aquilo que ninguém pode proporcionar ou subtrair, obviamente, lhe é mais essencial que tudo o que possui, ou mesmo ao que pode ser aos olhos dos outros. Um homem de intelecto, em completa solidão, encontra um excelente entretenimento em seus próprios pensamentos e imaginação, enquanto a contínua diversidade de festas, peças, excursões e diversões é incapaz de proteger um tolo das torturas do tédio.” 

Apesar das aventuras, do convívio e das ocupações comuns no bairro e com seus amigos e amigas, derrama-se por sobre Charlie Brown o tédio do existir, o peso do fracassar. Reflete-se em sua estrutura corporal, em sua postura diante do mundo e das coisas. Extrapola sua individualidade. 

Por outro lado, o carismático cachorro Snoopy é pura vontade de potência, é puro desejar. Ele está na liberdade do seu existir com intensidade e destemor invejáveis. Algo não visto no pequeno Brown, que pende para o fundo de si mesmo, com tudo o que há de mais pesado e denso no ato de viver.

Inegável, pois, que a negação da vontade é um traço característico da personagem. Como em Schopenhauer, Charles Schulz parecia querer apontar, através do desencanto de Charlie Brown, para aquela mesma fonte assinalada pelo Budismo (e muito trabalhada no pensamento do filósofo), ao buscar o estado sublime de felicidade (Nirvana) justamente numa proposta fuga do real. No silêncio e na renúncia sistemática da realidade. Ou, se quiserem, numa anulação do querer.

 

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