Sexta, 04 de Setembro de 2026 16:33
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil LITERATURA IMORTAL

Imortal José Neres, da Academia Maranhense de Letras, é o convidado de hoje

José Neres (AML – Sobrames/MA).

25/11/2020 22h54 Atualizada há 6 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: José Neres
José Neres
José Neres

NHOZINHO: UM POETA ESCULTURAL

José Neres (AML – Sobrames/MA). 

 

Continua após a publicidade

            Geralmente ficamos tão maravilhados com a aparente grandeza das coisas que não percebemos que há beleza também em detalhes às vezes imperceptíveis para os olhos de quem se acostumou a fixar-se apenas no que parece gigantescamente deslumbrante. Da mesma forma, servimos como caixa de ressonância a nomes nacional ou mundialmente conhecidos e silenciamos (ou nem mesmo conhecemos) os valores artísticos e culturais de nossa própria terra.

            Talvez por conta desse incômodo silêncio a respeito dos talentos locais, o nome de Antônio Bruno Pinto Nogueira, mais conhecido como Nhozinho, seja pouco lembrado, embora figure entre os mais originais e importantes escultores da arte brasileira do século XX.

Nhozinho.

Nascido em Cururupu, no dia 17 de maio de 1904, Nhozinho, desde a infância, demonstrou inclinação para as artes que exigiam atenção, perícia, precisão e habilidade manuais.  Mal começava a entrar na adolescência, porém, começou a lutar contra uma doença degenerativa que deixaria seus membros superiores e inferiores deformados e que, posteriormente, após a amputação de ambas as pernas, iria condená-lo a locomover-se em um carrinho de madeira por ele mesmo projetado e construído, mas que atendia às suas necessidades. Para completar seu rol de provações, o artista ainda perdeu a visão do olho direito.

            Mas essas tantas dificuldades não impediram Antônio Bruno de produzir uma obra ímpar na história do artesanato brasileiro. Na verdade, parece que as extremas dificuldades serviram como impulso para que o artista maranhense se superasse e evoluísse em seus trabalhos, deixando de ser apenas mais um artesão habilidoso e impregnando suas obras de motivos e temas da vida social e folclórica maranhense; saindo também do estaticismo das peças para imprimir ideia de movimento a suas criações.

Figuras minimalistas.

Dono de um estilo em que o minimalismo na escolha do tamanho das peças contrastava com a profusão de detalhes, Nhozinho notabilizou-se também por registrar os tipos regionais, em uma busca de reproduzir elementos representativos de seu povo e de sua época. Observando-se atentamente as obras desse artista, muitas vezes com a necessidade de uma lente de aumento, é possível perceber a riqueza de detalhes e o desejo dele em eternizar em suas peças detalhes que passavam despercebidos. De alguma forma, guardadas as proporções e respeitados os estilos, pode-se dizer que Nhozinho registrou e esculpiu em buriti e outros suportes o dia a dia da gente de sua época, tal qual o poeta latino Catullo imortalizou em palavras o próprio cotidiano e as inquietações dos seus contemporâneos romanos. Em Roma, o poeta Catullo decidiu desenhar sua época com palavras em suas famosas “nugaes”. Séculos depois, no Maranhão, Nhozinho optou por narrar em mínimas esculturas as grandezas esquecidas de seu povo.

            O artista faleceu em São Luís poucos dias depois de completar seu septuagésimo aniversário, no dia 23 de maio de 1974. Como a maioria dos artistas populares, Nhozinho também teve seu trabalho relegado ao olvido, mas aos poucos vem sido resgatado graças aos esforços de pesquisadores como Zelinda Lima, que muito lutou pelo reconhecimento desse artista, e de Roldão Lima, autor do livro "Vida e Arte de Nhozinho", publicado cinco anos após o passamento do escultor.

Continua após a publicidade

            Mais recentemente o trabalho desse fantástico artista tem despertado o interesse de intelectuais como, por exemplo, Paulo Herkenhoff, Lélia Coelho Frota e Luciana Carvalho, todos reconhecidos nacionalmente como alguns dos mais representativos estudiosos das artes brasileiras.

            Atualmente, boa parte da produção do mestre maranhense pode ser visitada na casa-museu que leva seu nome (Rua Portugal, 185, Centro Histórico).  Sua vida e sua obra também já renderam alguns artigos, exposições e livros, como "Nhozinho: Imensas Miudezas" (vários autores), que reúne trabalho de diversos pesquisadores. Mas ainda há muito a ser descoberto e (re)avaliado na obra desse artista que transformou deficiência em eficiência soube colocar o máximo de seu talento no mínimo espaço necessário à realização de seus sonhos artísticos.

 

Continua após a publicidade
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Antonio Guimarães de Oliveira Há 6 anos atrásSão Luís Maranhão Esse é o Grande nome de nossa nova literatura. Escritor e professor dedicado. Referente ao texto,uma beleza, muito bom, e sempre com uma redação brilhante
Eliane GarcesHá 6 anos atrásPaço do Lumiar-MaProfessor José Neres,como sempre, Com dissertações excelentes a respeito da valorização da Cultura de nossa terra. É muito bom ter escritors que respeitam e valorizam nossos artistas, mesmo que não sejam imortais, mas que se tornam por àqueles que valorizam e amam a beleza das artes.Parabéns professor, é um privilégio poder conviver com quão talentoso escritor.
Joseane SouzaHá 6 anos atrásSão Luís - MAAmigo Neres, como sempre mais um excelente texto de sua autoria e belo resgate desse grande artista que foi Nhozinho como era conhecido Antônio Bruno. A Casa de Nhozinho órgão ligado a Secma tem desenvolvido algumas ações para preservar a memória do artista. Parabéns por ser um grande divulgador da literatura, artes e cultura Maranhense e compartilhar seus conhecimentos!
Joseane SouzaHá 6 anos atrásSão Luís MAAmigo Neres, como sempre mais um excelente texto de sua autoria e belo resgate desse grande artista que foi Nhozinho como era conhecido Antônio Bruno. A Casa de Nhozinho órgão ligado a Secma tem desenvolvido algumas ações para preservar a memória do artista. Parabéns por ser um grande divulgador da literatura, artes e cultura Maranhense e compartilhar seus conhecimentos! ????????
ANDRE JAIME DE JESUS SOUSAHá 6 anos atrásRio de JaneiroParabéns, ilustre amigo Neres, pelo texto tão grandioso e formoso. Uma delícia ler e repassá-lo para outros conterrâneos e apreciadores da boa leitura e da nossa cultura.
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 14h01
24°
Chuva

Mín. 13° Máx. 26°

24° Sensação
5.66 km/h Vento
44% Umidade do ar
100% (2.05mm) Chance de chuva
Amanhã (05/09)

Mín. 10° Máx. 17°

Chuva
Domingo (06/09)

Mín. Máx. 11°

Chuvas esparsas
Ele1 - Criar site de notícias